Eles são os At The Drive-In e não vêm salvar o rock novamente

Em 2001, no topo do mundo, erguidos a salvadores do rock, implodiram. 16 anos depois, estreiam-se em Portugal em Paredes de Coura e trazem novo álbum. O ontem será hoje.

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“A nossa arma secreta é sermos uma banda há muito tempo e termos passado por muita merda pior que esta”, diz o guitarrista. “Salvar o rock, para mim, não é realista, não é a vida real. A vida real, para mim, é rodar numa carrinha e só ter mais um litro de gasolina, ou dormir no chão da casa de alguém, ou ficar sem dinheiro para comprar cordas quando partiste as tuas duas últimas durante um concerto”. Os At The Drive-In já andam por cá há muito. 23 anos se contarmos desde o início, quando Cedric Bixler-Zavala, Jim Ward, Omar Rodríguez-López, Paul Hinojos e Tony Hajjar se transformaram numa banda. A cidade, El Paso, no Texas. O contexto: habitantes da cena punk local e seguidores da sua ética do-it-yourself, animados por uma vontade férrea de fazer da sua música, segundo os seus próprios termos, um instrumento de agitação e inspiração. O som: os Fugazi e os Hot Snakes em colisão com o tom urgente, gritado, do hardcore e com enxertos bem doseados de frenesim rock’n’roll clássico (Stooges à cabeça) e divagação psicadélica. Os At The Drive-In. 23 anos depois do início estreiam-se por fim em Portugal. Acontecerá em Paredes de Coura, no segundo dia do festival, quinta-feira, dia 17 de Agosto. O relógio marca a hora: 23h15.

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“A nossa arma secreta é sermos uma banda há muito tempo e termos passado por muita merda pior que esta”, diz o guitarrista. “Salvar o rock, para mim, não é realista, não é a vida real. A vida real, para mim, é rodar numa carrinha e só ter mais um litro de gasolina, ou dormir no chão da casa de alguém, ou ficar sem dinheiro para comprar cordas quando partiste as tuas duas últimas durante um concerto”. Os At The Drive-In já andam por cá há muito. 23 anos se contarmos desde o início, quando Cedric Bixler-Zavala, Jim Ward, Omar Rodríguez-López, Paul Hinojos e Tony Hajjar se transformaram numa banda. A cidade, El Paso, no Texas. O contexto: habitantes da cena punk local e seguidores da sua ética do-it-yourself, animados por uma vontade férrea de fazer da sua música, segundo os seus próprios termos, um instrumento de agitação e inspiração. O som: os Fugazi e os Hot Snakes em colisão com o tom urgente, gritado, do hardcore e com enxertos bem doseados de frenesim rock’n’roll clássico (Stooges à cabeça) e divagação psicadélica. Os At The Drive-In. 23 anos depois do início estreiam-se por fim em Portugal. Acontecerá em Paredes de Coura, no segundo dia do festival, quinta-feira, dia 17 de Agosto. O relógio marca a hora: 23h15.

A banda de Relationship of Command é um dos destaques da 25.ª edição do festival. E isto num Vodafone Paredes de Coura que nos oferecerá, na quinta-feira, os Future Islands, os Wedding Present  a interpretarem o seu clássico de 1987, George Best, ou as palavras bem medidas, tiro certeiro no presente, de Kate Tempest; isto num Paredes de Coura, continuemos, que para o mesmo dia dos At The Drive-In programa um novo ícone de rock independente, Car Seat Headrest, ou o hip-hop apocaplítico dos HO99O9, e que, no dia 18, nos apresenta o magnífico groove jazz-hip hop-funk dos BADBADNOTGOOD, os muito celebrados Beach House ou o rock psicadélico minimal dos Moon Duo, e, a 19, as canções de coração na boca de Benjamin Clementine, o circo delirante dos Foxygen, o rock’n’roll sem falhas de Ty Segall – e ainda há, na despedida, os Foals, a curiosidade perante Alex Cameron, os incendiários Lightning Bolt, ou, nos dias anteriores, os Mão Morta a revisitarem Mutantes S.21, os White Haus de João “DJ Kitten” Vieira, ou Manel Cruz a voltar ao palco que, em 2012, testemunhou o regresso dos Ornatos Violeta. Ainda assim, é certo que os At The Drive-In serão um dos nomes mais aguardados do festival. Afinal, já andam por cá há muito tempo, já passaram por muita merda e sobreviveram incólumes. Certo? Mais ou menos. Recuemos.

As declarações com que iniciámos este texto pertencem a Jim Ward e são datadas de um tempo muito distante em que os At The Drive-In, após a edição do seu terceiro álbum, Relationship of Command, faziam capas em todo o lado – “Melhor banda do mundo!”, elogiava-se num sítio; “A salvação do rock’n’roll”, lia-se noutro. Em 2000, a banda que já cá andava há muito transformara-se num ápice em seguidora espiritual dos MC5, em novos Nirvana, em quinteto que salvou o rock um ano antes de os Strokes e os White Stripes o salvarem novamente. Entre a inspiradíssima estilização do rock nova-iorquino dos Strokes e a estética “menos é mais” (e era realmente) de Jack e Meg White, ao lado dos Queens Of The Stone Age (Rated R foi também editado em 2000), surgia uma banda de combate, erguendo-se do mosh pit com canções febris e uma fúria avassaladora em concerto. Tudo pelo bem e em dança graciosa dentro do possível, ou não falássemos de uma banda onde encontrávamos Cedric Bixler, que conjugava a devoção pelos Misfits com o desejo de ser James Brown, e Omar Rodríguez, que se tornara músico para seguir as pisadas do pai, membro de uma banda de salsa, e que modificara o seu rumo ao descobrir License to Ill, dos Beastie Boys.

Num mundo a sofrer ainda o final dos anos negros do nu-metal, bruto reduto de fúrias adolescentes simplórias e de machismos boçais, os At The Drive-In destacavam-se naturalmente. “Estávamos a ter muito hype estúpido, as pessoas estavam a chamar-nos os novos Nirvana e coisas assim. Nunca achei que fossemos os próximos qualquer coisa. Éramos apenas um bando de miúdos do Texas que sabiam verdadeiramente como prosperar sendo um underdog”, recordava Cédric Bixler à Spin, em 2013 – provavelmente sem se aperceber de que estava precisamente a descrever parte considerável daquilo que tornou a banda tão marcante para tantos (isso, para além de o single One armed scissor se ter tornado instantaneamente um dos clássicos do seu tempo).

Uma banda a seguir o Método

Em Março de 2001, no topo do mundo, anunciaram que iriam entrar num “hiato indefinido”. Exaustão física e mental, drogas em excesso, divergências estéticas, tempo de pausa para reavaliar quem ainda eram e quem queriam ser – assim se explicou o adeus. Nesse ano, os Papa Roach e os 3 Doors Down surgiam no cartaz de Paredes de Coura ao lado de Queens Of The Stone Age e Stone Temple Pilots – e Rolling, dos Limp Bizkit andava pelos tops (pelos tops, imagine-se).

Seis anos passados, em 2007, metade dos At The Drive-In apresentava-se em Paredes de Coura – eram os Sparta, a banda onde encontrávamos Jim Ward e o baterista Tony Hajjar. No ano seguinte, apareceriam no Minho os restantes, os mais emblemáticos: Cédrix Bixler e Omar Rodríguez, cérebros dos Mars Volta, a críptica banda de rock progressivo que deu corpo à vontade do duo de alargar as fronteiras da sua música, mostravam em Coura o quarto álbum, The Bedlam in Goliath. “Os Mars Volta falam uma língua que ainda não foi descoberta”, líamos na reportagem do PÚBLICO. “Há autofagia no que fazem em palco: um rock quase suicida, com a voz sempre no limite de Cedric Bixler-Zavala e as guitarras sempre no limite de Rodríguez López a canibalizarem-se uma à outra. Nem toda a gente quis aventurar-se com eles”, sentenciámos, dando conta de uma certa insularidade a tomar o lugar de um sentido de comunhão que era uma das marcas dos At The Drive-In. Em dois anos consecutivos, Paredes de Coura teve os At The Drive-In divididos em dois. Imaginar-se-ia então, dadas as recriminações trocadas na imprensa e as juras de que a banda tinha cumprido o seu percurso e que o fim era mesmo o fim, que ver os Sparta e os Mars Volta seria o mais próximo de ter a banda de regresso. Só que não.

Em 2012 foi anunciada a reunião para uma digressão. Um ano depois, tudo terminava novamente, com recriminações mútuas. Se o conflito sempre foi o combustível da banda, quer o vivido com o mundo exterior – o meio musical que consideravam estagnado, a América de Bush –, quer o sentido em “família”, tínhamos aqui conflito sério. Como habitualmente, não duraria muito. Primeiro Cedric e Omar em nova banda, os Antemasque, depois, no final de 2015, os At the Drive-In, novamente e até agora. “Vamos fazer esta banda outra vez, vamos fazê-lo da maneira correcta, e é isso”, anunciava Cedric Bixler. “Iremos sempre dedicar-nos a outras coisas, e somos o que somos, mas esta banda é especial e é por isso que estamos aqui." Um após outro, os At The Drive-In foram falando da reunião como de um regresso a casa, às suas raízes, a uma intimidade só possível em quem andou a percorrer estradas poeirentas para tocar num lugarejo para três pessoas e se viu, de repente, erguido a salvador do rock com lugar nos tops e actuando para milhares.

Em 2016 chegou o que parecia impossível um par de anos antes: Inter Alias, o quarto álbum. É um disco que ocupa um lugar peculiar no seu tempo. Parece não lhe pertencer verdadeiramente, não por soar datado ou envelhecido – até aborda temas de hoje, como a questão norte-coreana ou a violência policial sobre a população negra americana –, mas por surgir perante nós como se habitasse uma realidade paralela em que os At The Drive-In, hoje quarentões e homens de família, chegaram directamente do 2001 em que primeiro se despediram. “Quisemos aceitar o desafio de recuar ao que éramos – e foi isso que fizemos, o mais que pudemos”, explicou Cedric Bixler à Dazed. Ao L.A. Weekly chegou a afirmar que agiram quase como actores do Método.

Estamos em 2017, mas isso parece não preocupar os At The Drive-In. Vão na terceira reunião e Jim Ward, o guitarrista fundador, não aguentou mais do que um par de ensaios – em Coura veremos no seu lugar Keeley Davis, ex- Sparta. São como que banda preservada da passagem do tempo. Ontem é hoje. Os At The Drive-In não salvaram o rock e não o vão salvar novamente. Mas quando o tumulto tomar conta do palco e da plateia, seremos alegremente iludidos. Fingiremos acreditar que é isso mesmo que vieram fazer a Coura. Na verdade, é tudo o que lhes pedimos.