Teatro Sousa Bastos vai receber um bloco de apartamentos e espaço cultural

Antiga sala da Alta de Coimbra está desactivada desde a década de 1980. Câmara aprovou projecto de empreendimento imobiliário, mas com contrapartidas.

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Sérgio Azenha

A intervenção do Teatro Sousa Bastos conheceu mais um capítulo nesta segunda-feira. A autarquia aprovou um projecto que prevê a construção de 30 habitações T0 e duas T1 para a antiga casa de espectáculos da Alta de Coimbra que está desactivada desde os anos 1980.

A operação a cargo da empresa privada, que detém o edifício em ruínas desde o início da década de 1990, prevê a preservação da fachada e ainda a cedência de uma área com 724 metros quadrados à autarquia para “dinamização cultural da Alta de Coimbra”.

Depois da discussão na reunião camarária, a proposta acabou por ser aprovada, mas apenas com os votos dos vereadores eleitos pelo PS. Os restantes optaram pela abstenção. Da oposição, o presidente Manuel Machado ouviu pedidos de esclarecimento sobre a ocupação do futuro espaço cultural.

O vereador comunista Francisco Queirós refere a possibilidade de a sala ter outra funcionalidade e pediu uma definição de funções do futuro espaço cultural. No mesmo sentido, o vereador do movimento Cidadãos por Coimbra, José Vieira Lourenço, entende que “não fica claro” no documento levado a votação o que a câmara pretende fazer com a área cedida.

Carlos Cidade, do PS, que falava numa altura em que o presidente tinha saído da sala, disse sobre o espaço que “a câmara não tem que saber o que vai ser lá feito”. Carina Gomes, a socialista com a pasta da Cultura, acrescentou que a ocupação da área cedida deve ser matéria de discussão pública mas que, para isso, seria preciso aprovar o projecto.

João Paulo Barbosa de Melo, do PSD, nota que a última versão do projecto deu entrada na câmara em 2015, mas que só agora este foi levado à discussão do executivo. Assim, a reconfiguração do Sousa Bastos “acaba por chegar à câmara” numa altura “em que o timing não podia ser pior”, numa alusão às eleições de Outubro.

Índios, cowboys e pornografia

O Teatro Sousa Bastos foi inaugurado como tal em 1914, mas antes já ali existia o Teatro D. Luiz I. A casa de espectáculos abriu ao público a meio do século XIX, no lugar até então ocupado pela igreja de S. Cristóvão.

Hoje com acessos cimentados, parte do edifício desabou. A sala foi desactivada nos anos 80 devido às condições precárias, mas ainda serviu como espaço de ensaios à companhia de teatro Bonifrates, no início da década. Antes, a partir da década de 1970, entrou em declínio, e parte da programação passava pela projecção de westerns e filmes pornográficos.

Já nos anos 90, o espaço é adquirido pela promotora imobiliária Eiclis, que ainda mantém a sua posse. Na mesma década deu entrada na câmara o primeiro projecto de reconversão do Teatro Sousa Bastos, na altura da primeira passagem de Manuel Machado pela câmara de Coimbra. O processo atravessou os mandatos de Carlos Encarnação e João Paulo Barbosa de Melo (PSD), sem que qualquer solução tenha sido posta em prática.

Nuno Orfão fala ao PÚBLICO em nome da Eiclis e confessa a surpresa com a discussão do projecto na reunião do executivo. A primeira vez que participou numa reunião entre promotor imobiliário e autarquia terá sido há 15 anos e “já as coisas estavam a andar”. “Ao fim de 15 anos não sabíamos que ia ser hoje”, admite.

Neto do empresário Joaquim Orfão (sócio maioritário da construtora), Nuno Orfão lembra que o Sousa Bastos faz parte de “um processo muito antigo”, num projecto que “foi sendo alterado em função das exigências camarárias”.

“O projecto, quando foi pensado, seria para arrendamento”, nomeadamente para o alojamento de estudantes Erasmus, refere, salientando a localização do teatro em ruínas e a proximidade à Alta universitária. “Com esta morosidade temos que equacionar eventualmente o destino a dar às fracções, mas será sempre na óptica do arrendamento”.

Aprovado o empreendimento, o responsável estima que a execução da empreitada leve o seu tempo, dificultada por acessos difíceis e instalação do estaleiro. O investimento de 2 milhões de euros deve demorar entre um ano e meio e dois a materializar-se.

Dos 724 metros quadrados que passam para a autarquia consta um auditório para fins culturais, bem como a instalação de salas. A construção é feita a expensas da empresa, mas os acabamentos são por conta do município.

Contestação que esmoreceu

A história conturbada do processo de intervenção no teatro conta-se também com movimentos de contestação. Até meados da década passada, o colectivo Sousa Bastos Vivo liderou a defesa da instalação de um polo cultural e cívico no edifício mas, com o passar do tempo, desmobilizou-se.

Sobre o projecto aprovado nesta segunda-feira, Luís Sousa, que deu a voz ao movimento até 2006, entende que “a pulverização da propriedade associada a essa iniciativa é uma coisa sem qualquer visão estratégica sobre o território.” O arquitecto que já não vive em Coimbra sublinha que há poucos edifícios naquela zona que tenham uma capacidade de acolhimento semelhante à do Sousa Bastos.

Na campanha para as eleições autárquicas de 2001 (que viriam a ser ganhas pelo social-democrata Carlos Encarnação), o Sousa Bastos Vivo convidou os candidatos à presidência do município a apresentarem a proposta que tinham relativamente ao teatro. Todos o fizeram com excepção de Manuel Machado, que procurava então a re-eleição, conta Luís Sousa.  

No seu entender, a superfície cedida à autarquia é um ponto positivo, mas lamenta a instalação de um empreendimento imobiliário na área restante. A ocupação do edifício poderia passar por actores cívicos e culturais que “dinamizam o tecido e transformam a vida dos espaços”. 

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