Crítica

Matar no ecrã

Uma análise lúcida dos efeitos dos drones militares, a tecnologia que faz a guerra à distância: Drones — Guerra Por Controlo Remoto, de Hugh Gusterson.

Os pilotos e os operadores matam por um controlo “espacialmente remoto, culturalmente remoto e emocionalmente remoto”
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Os pilotos e os operadores matam por um controlo “espacialmente remoto, culturalmente remoto e emocionalmente remoto” REUTERS/Dado Ruvic

Os drones banalizaram-se no discurso jornalístico e, no entanto, o debate sobre o seu uso bélico tem permanecido, entre nós, razoavelmente discreto. Sabe-se que esta tecnologia militar, desenvolvida e aperfeiçoada pelos Estados Unidos é usada para matar, coberta pelo manto da distância, longe dos olhares e da consciência dos cidadãos dos países ocidentais. A tradução, pela Antígona, de Drones — Guerra Por Controlo Remoto, de Hugh Gusterson, propõe-se contrariar tal afastamento, problematizando o uso desses veículos aéreos não-tripulados que têm nomes como Reaper ou Predator. Não se trata de um ensaio de filosofia da tecnologia ou de ciência política, mas de uma análise de livros (dos quais se destaca Théorie du drone, de Grégoire Chamayou) textos jornalísticos, relatórios, argumentos políticos e jurídicos. Organizando e comparando uma pluralidade de fontes e textos, este ex-professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e antropólogo da Universidade George Washington diz-nos o que os drones militares estão a fazer no e ao mundo.

Embora longínquos, os lugares nomeados e descritos são familiares. Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iémen, cenários da guerra contra o terrorismo conduzida pelos Estados Unidos no Médio Oriente desde 2001. O autor faz-nos descer às montanhas do Vaziristão (no noroeste do Paquistão), às margens do rio Tigre, mas, também, ao interior das roulottes onde, no Arizona ou no Nevada, pilotos controlam as máquinas que eliminarão os combatentes inimigos.

É entre duas realidades — distintas e representativas de uma relação desigual — que os capítulos avançam. Logo no primeiro, expõe-se dois relatos. O de um ataque feito a partir de um centro de comando da CIA, em que o operador tem um ponto de vista cimeiro, invulnerável, quase divino; e os de três paquistaneses que relatam, traumatizados, a morte de uma familiar no ataque de um drone. Apresentam-se e confrontam-se dois pontos de vista: o do observador e executor, e o das vítimas de uma “erupção súbita e incompreensível de força bruta, literalmente vinda do nada, que deixa aos sobreviventes a sensação de que a previsibilidade segura da vida foi destruída para sempre (página 16)”. A guerra dos drones é uma guerra com uma assimetria inédita e são os modos desta assimetria que se abordam nas páginas seguintes.

Os pilotos e os operadores matam por um controlo “que é espacialmente remoto, culturalmente remoto e emocionalmente remoto”, mas que produz efeitos concretos na vida das populações civis. Recorrendo a estudos e a peças jornalísticas, Gusterson refere que em certas zonas do Paquistão os ataques com drones alteraram irreversivelmente o quotidiano dos habitantes. Adiam-se funerais, cancelam-se reuniões e encontros das comunidades, mantém-se as crianças em casa, olha-se para o céu, de ouvidos atentos a qualquer zumbido suspeito. As máquinas da nova tecnologia invadiram a vida das populações, como as imagens dos tapetes pachtuns deixam observar. Para os pilotos e operadores, distantes e protegidos dos cheiros, dos sons, do calor e do frio, as pessoas tornam-se abstracções feitas de cores e formas, manchas apanhadas pelos infravermelhos. Mas esta impessoalidade tem um reverso: o de uma intimidade remota. Isolados a milhares de quilómetros e a continentes de distância, os militares dos drones vêem de perto, nos ecrãs, aquilo que permanece longe. Confrontam-se com as possibilidades de erro de percepção e análise, com a imprevisibilidade das acções e dos comportamentos humanos — o idoso que se aproxima, fatalmente, da zona de impacto quando o míssil já foi lançado (ver página 74) — e com o seu próprio dia-a-dia, banal, corriqueiro, doméstico. Realizado o assassínio selectivo do terrorista ou do potencial terrorista, o piloto reencontra a família no lar, faz as compras, adormece o filho, fala com a mãe ao telefone. É uma passagem que não se faz sem obstáculos. Hugh Gusterson menciona o caso de uma mulher que se recusou a voltar a matar à distância e acabou num tribunal de guerra, e de pilotos que se afundaram em remorsos e pesadelos.

As imagens visuais permanecem depois da cada missão e as perturbações aumentam quando se assassinam inocentes. Mas mesmo não podendo ver tudo, saber tudo, ouvir tudo, os soldados continuam a matar no ecrã, alguns com a convicção de que fizeram justiça, outros apenas com o juízo de que asseguram a segurança dos seus compatriotas e do seu país. Hugh Gusterson apresenta uma explicação para este paradoxo. Longe da realidade local, sem qualquer contacto físico com as pessoas, alheios às especificidades culturais, os militares fazem juízos de acordo com “uma ideologia americana dominante que estabelece que as pessoas escolhem o modo como se comportam — escolhem quem querem ser — e essas escolhas refletem o seu mérito moral como indivíduos” (108). Deste enquadramento, que valoriza as acções observadas e as informações na lista de alvos a abater, são excluídas lógicas sociais suscitadas por necessidades económicas ou relações de protecção ou lealdade (frequentes nos territórios visados, em particular no Afeganistão). O contexto cultural ou social fica irremediavelmente fora de campo, sinal da alienação do mundo que o ponto de vista do drone afirma.

Nos últimos capítulos, Drones Por Controlo Remoto foca-se no debate entre os governos dos EUA e os críticos do uso de drones. As derrapagens na utilização dos aparelhos, com o alargamento das listas de alvos, as discrepâncias no número de vítimas de civis segundo fontes distintas, questionam os argumentos éticos e militares na defesa da tecnologia. O drone  militar não só não evita baixas entre os civis, como prolonga indefinidamente a guerra. Gusterson identifica as causas: o aumento de assassinatos preventivos, a diminuição de rigor nos protocolos de seleção, e uma deriva na reacção dos governos dos EUA ao aumento das insurreições.

Barack Obama é particularmente responsabilizado. Se George W. Bush criou Guantánamo, o ex-presidente democrata vulgarizou o uso dos drones. Ao argumento de que os drones são armas selectivas, utilizadas moderada e judiciosamente contra terroristas sem escrúpulos, contrapõe-se o facto de que os drones (“uma tecnologia de guerra neocolonial”, assim a define Gusterson) matam sem controlo ou transparência, à margem da lei, dissolvendo as distinções entre a paz e a guerra, diluindo as fronteiras que delimitam o campo de batalha ou, no pior dos cenários, prefigurando um militarismo democrático. Hugh Gusterson não advoga o fim do drone armado, mas do drone armado utilizado como instrumento da morte fora do contexto permitido pela guerra. Para tal, defende, é escusado contar com o apoio dos EUA. A sedução dos drones é irresistível no âmbito dos objectivos da guerra contra o terrorismo, entre os quais se conta assegurar o menor número de baixas americanas. Se Obama cedeu ao seu encanto, é muito pouco provável que Trump lhes resista. O exército dos EUA pode vir a abandonar os drones, mas, defende Gusterson, apenas se estes se revelarem claramente ineficazes em termos militares. Até lá, continuaremos a encontrar relatos e testemunhos semelhantes aos que este livro guarda.