Costa sobre a lista de Pedrógão: "Só numa ditadura é possível tentar esconder o número de vítimas"

Primeiro-ministro declara-se "muito satisfeito" com o fim da "especulação" em torno do número de mortes no incêndio de Pedrógão Grande. Costa afirma que “a dramaticidade dos momentos que temos vivido já é suficiente”, pelo que não é favorável que sejam divulgadas “informações não confirmadas".

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

O primeiro-ministro António Costa declarou-se esta quarta-feira "muito satisfeito" com a decisão da Procuradoria-Geral da República de divulgar a lista das 64 vítimas mortais do incêndio em Pedrógão Grande tenha "posto termo" ao que qualificou de "especulação".

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O primeiro-ministro António Costa declarou-se esta quarta-feira "muito satisfeito" com a decisão da Procuradoria-Geral da República de divulgar a lista das 64 vítimas mortais do incêndio em Pedrógão Grande tenha "posto termo" ao que qualificou de "especulação".

"Estou muito satisfeito que a lista tenha posto termo a esta especulação e confirmado aquilo que todas as autoridades tinham dito desde há várias semanas", afirmou durante uma conferência dada no fim de uma reunião na sede da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), em Carnaxide, durante um ponto de situação sobre os incêndios que continuam a lavrar com especial incidência na região centro do país.

"Que esta semana tenha servido de lição a toda a gente e que passemos a respeitar as instituições democráticas, o rigor e a verdade", sublinhou Costa. Em causa estava a informação avançada esta semana de que haveria pelo menos 65 mortos no incêndio de Pedrógão Grande, informação que foi posteriormente desmentida pela Protecção Civil e pela Procuradoria-Geral da República, que divulgou a lista com os nomes e reiterou a existência 64 vítimas mortais. "Era falsa a ideia de que o Governo estava a esconder o número de vítimas. Os ultimatos e ameaças de censura foram formas de aproveitamento político lamentável", reiterou Costa. 

"Gostaria só de dizer o seguinte: estive aqui na ANPC na noite de 17 para 18 de Julho", na "maior tragédia humana de que havia memória", disse Costa. "Visitei concelhos afectados e sempre assumi que até poderia haver mais vítimas do que os 63 identificados. Felizmente foi feita uma verificação casa a casa de todas as aldeias afectadas pelo incêndio e não houve mais nenhuma vítima a não ser o bombeiro", afirmou, explicando que as Forças Armadas também fizeram batida em toda a zona florestal para assegurar que não havia mais vítimas. 

"[Fomos] cautelosos a admitir que poderia aumentar o número de vítimas. Chamo a atenção que até ao dia 14 de Julho não havia segredo de justiça e ninguém solicitou essa lista de nomes", afirmou.

"A polémica surge quando resolveram especular e acusar o Governo de esconder o número de vítimas. Seria das situações mais parvas que já vi. Só numa ditadura é possível tentar esconder o numero de vítimas. Se havia alguém que tinha interesse era o Governo em acabar com a especulação", disse o primeiro-ministro.

Condições "particularmente adversas" este ano

No início da conferência de imprensa – em que também estava presente a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, assim como a adjunta de operações da ANPC, Patrícia Gaspar – o primeiro-ministro quis deixar palavras de alento, confiança e alerta. “Alento dirigido a todos aqueles – em particular aos bombeiros voluntários – que travam uma batalha muito dura em todo o país para enfrentar as chamas”, assim como às populações, aos autarcas e aos responsáveis da Protecção Civil.

De seguida, Costa defendeu que a resposta aos incêndios tem sido adequada e célere, sublinhado que, só nesta quarta-feira, foram controladas 77 das 88 ocorrências nos primeiros minutos. “Desde 1 de Julho já tivemos 2007 ocorrências em que 81% foram controladas nos primeiros 90 minutos”, disse ainda, considerando que “não se pode avaliar o desempenho deste dispositivo por cada incêndio que não é possível controlar”.

Por fim, o primeiro-ministro pediu atenção redobrada face às “condições particularmente adversas” que atingem Portugal este ano, como a seca que afecta 80% do território, a baixa humidade relativa do ar, vento e calor. Isto a juntar aos “riscos estruturais que são conhecidos: floresta com grande nível de abandono” e “povoamentos altamente inflamáveis como pinheiros e eucaliptos”. “Uma chama todos apagamos, um incêndio de larga dimensão dificilmente é apagado”, disse Costa, que afirmou ainda que a reforma da floresta levará "vários anos" até produzir efeitos no terreno.