Mulheres não reagem a dois em cada três actos de violência

Primeiro inquérito municipal à violência doméstica e de género foi apresentado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

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CARLA CARVALHO TOMAS

As mulheres continuam a silenciar muita da violência de que são vítimas. O primeiro inquérito municipal à violência doméstica e de género foi feito no concelho de Lisboa e revela que as mulheres não se queixam de dois em cada três actos de violência que sofreram.

Ao sociólogo Manuel Lisboa, director do Observatório Nacional de Violência e Género, coube coordenar o primeiro inquérito municipal feito no país à violência doméstica e de género, que foi apresentado nesta terça-feira à tarde na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O estudo vai ao encontro de outros feitos a nível nacional. É uma espécie de zoom sobre um dos territórios nacionais com maior número de ocorrências criminais. Chega ao nível das freguesias.

O questionário foi aplicado, porta-a-porta, a 1314 mulheres e 1302 homens com mais de 18 anos. E revela, desde logo, que a prevalência de vitimação física, psicológica e sexual, em geral, é maior entre homens (61,9%) do que entre mulheres (50,3%). “Eles têm uma maior exposição pública e também uma maior interacção”, justifica aquele investigador do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa. Ficam, por isso, mais expostos a situações de violência.

Não é que os homens desempenhem sempre o papel de agressores e as mulheres sempre o papel de vítimas. É que os homens são mais agredidos por outros homens (53,3% dos que foram vítimas de alguma forma de violência foram alvo de agressores masculinos). E as mulheres são também, sobretudo, agredidas por homens (83%). As características da violência que sofrem também difere.

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No universo masculino, a violência tende a ocorrer em idades mais baixas e em espaços públicos, muitas vezes pela mão de desconhecidos, amigos, colegas. Envolve “relações quotidianas”, o “encontro com pessoas desconhecidas ou as quizílias entre amigos”.

No universo feminino, a violência ocorre em todas as idades, mais nos espaços privados, no seio de relações familiares ou íntimas. “A violência contra as mulheres é fundamentalmente baseada na desigualdade de género, nas relações de poder”, salienta.

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A realidade, como é sabido, não é a preto e branco. Tem, como diz Manuel Lisboa, “muitas nuances”. Também há mulheres que agridem os seus parceiros. Desencadeiam violência ou assumem um papel numa cadeia de violência. Um agride, o outro reage de forma violenta, o outro reage, agredindo...

A prevalência, na violência doméstica, até é semelhante: 28% das mulheres e 26% dos homens afirmam já ter sido vítimas. Só que esses valores, nota o sociólogo, correspondem a “violência acumulada”. Tem, explica Manuel Lisboa, “muito a ver com processos de socialização, que ocorrem durante a infância”. Os rapazes são mais vítimas de violência por parte do pai e da mãe do que as raparigas.Quando se analisa apenas a violência dentro das relações de intimidade abre-se um fosso de género: 23% das mulheres e 10,85% dos homens afirmam já ter sido vítimas.

O impacte da violência é maior no quotidiano das mulheres. Mais de metade (52,9%) já mudou as suas rotinas depois de ter sofrido um acto de violência. Um terço desenvolveu problemas psicológicos. Uma em cada dez julga que a sua sexualidade ficou afectada. Uma em cada 20 pensou em atentar contra a sua vida.

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Apesar de tudo, o número de participações que fazem às forças de segurança mantém-se baixo. Dizem que nada fizeram em dois em cada três actos de violência de que foram alvo. Só uma pequena parte as levou a contactar as autoridades (6,4%), os serviços de saúde (1,4%) ou alguma organização não governamental (1,5%).

E se não acreditarem...

Tendem a recorrer à polícia apenas perante algum acto grave ou quando se sentem em perigo de vida. Mesmo quando foram ameaçadas com armas de fogo ou armas brancas, muitas tiveram relutância em participar o que lhes aconteceu: em 36,7% dos actos nada fizeram.

Não há um, mas muitos motivos atrás desta relutância em denunciar. Muitas mulheres não atribuem importância suficiente ao sucedido (18%) ou não têm confiança no trabalho das entidades competentes (14,%).

Também há as que se rendem à vergonha (13,1%) ou que se refugiam na esperança de uma reconciliação (10,2%). Algumas mulheres dizem que ficaram com medo de não encontrar do outro lado quem acreditasse nelas (8,2%). Algumas gostavam demasiado do parceiro para reagir (6,3%). E outras temeram que tudo piorasse (5,3%).

Estes números, alerta Manuel Lisboa, mostram que ainda há muito para fazer em matéria de prevenção e combate à violência. Parece-lhe, desde logo, que é preciso garantir protecção imediata às vítimas e apoio, sobretudo, às que se encontram numa situação de vulnerabilidade social.

Na apresentação desta terça-feira, o sociólogo fez a defensa de um centro de atendimento imediato às vítimas de violência que articule diversos serviços e que as ajude a “resolver os problemas nas suas múltiplas funções”. Uma resposta que, segundo João Afonso, o vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro dos Direitos Sociais, já está prevista e em vias de se tornar realidade.

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