PSD segura André Ventura. Candidato diz não ser racista, mas não retira o que disse

O candidato do PSD/CDS em Loures reage por comunicado.

Nuno Fox/Lusa
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Durante o dia, até mereceu uma palmada nas costas de elogio, via Twitter, do líder do PNR, mas depois de o vendaval ter agitado as redes sociais, ter indignado tanto a esquerda como a direita, o candidato do PSD/CDS à autarquia de Loures veio justificar-se, recusando as acusações de racismo e garantindo até que sempre conviveu “bem com pessoas de várias raças ou etnias”. Pelo caminho, reafirma o que disse: “Boa parte das pessoas que fica muito incomodada quando são denunciadas estas situações nunca se deslocou a algumas dessas zonas e não tem ideia do ‘barril de pólvora’ que lá se vive diariamente.” Mas o PSD continua a apoiá-lo.

Depois de os protestos terem alastrado ao CDS, depois de até o líder do PNR, José Pinto Coelho, se ter referido ao caso nas redes sociais – “Infelizmente, ao que parece, alguns dos ‘meus’ ainda andam pelos partidos do sistema – o candidato emitiu um comunicado em que a parte mais categórica é aquela em que se afasta daquele tweet. "Finalmente queria repudiar veementemente qualquer associação de pessoas ou grupos, políticos ou civis de carácter racista ou xenófobo, pois nunca foi minha intenção estimular ou aprofundar este tipo de sentimentos no debate político."

Apesar deste distanciamento que André Ventura faz questão de que seja inequívoco em relação ao PNR, sobre o teor das suas declarações o candidato começa por dizer o seguinte: "O que preocupa a candidatura são questões de segurança e cumprimento da lei, na defesa do património público e das pessoas de bem, independentemente da raça ou etnia." De seguida, garante que nada o move contra a comunidade cigana: "Ao longo da minha vida sempre convivi bem com pessoas de várias raças e etnias e diferentes credos. Quando digo que somos tolerantes com algumas minorias, refiro-me a certos casos em que manifestamente a lei não é cumprida. A verdadeira discriminação é permitir que alguns não cumpram a lei, em detrimento daqueles que vivem com as regras do Estado de Direito. Compreendo todas as especificidades, costumes e padrões civilizacionais de todas as raças, mas eles não podem esbarrar com os princípios do Estado de Direito constitucionalmente consagrados."

Neste comunicado, mais do que recuar no que disse, André Ventura justifica o que afirmou: "O Estado e o poder autárquico não se podem conformar com situações de desordem pública e com guetos onde as forças da autoridade não conseguem repor a ordem, por falta de meios humanos e materiais. Frequentemente a polícia é recebida com actos de violência, designadamente em algumas zonas mais problemáticas do concelho de Loures. Esta situação tem de ser denunciada e corrigida. Boa parte das pessoas que ficam muito incomodadas quando são denunciadas estas situações nunca se deslocou a algumas dessas zonas e não tem ideia do 'barril de pólvora' que lá se vive diariamente."

O PÚBLICO tentou ouvir André Ventura, depois de ter recebido o comunicado, mas sem sucesso. No texto enviado às redacções, o candidato continua a explicar melhor o seu pensamento: "A reposição da legalidade tem de ser feita em paralelo com políticas de integração dessas comunidades e de requalificação dos bairros onde habitam, que foram votados ao abandono pelo executivo autárquico. Não se corrige a situação enquanto não se assumir que o problema existe. A coligação 'Primeiro Loures' esclarece que o turbilhão de reacções adversas, algumas a roçar o insulto, não vão inibir esta candidatura de denunciar situações anómalas, em defesa do bem-estar de todos os lourenses, para que no futuro seja possível viver com qualidade de vida neste concelho."

PSD do lado de André Ventura, BE com nova queixa

Já depois de o comunicado estar a circular, Ricardo Andrade, líder da concelhia do PSD em Loures, mostrou-se satisfeito com os esclarecimentos feitos pelo candidato e garantiu que André Ventura continuará como candidato. Ricardo Andrade diz que para esta candidatura "ninguém tem menos direitos" e todas as pessoas têm "as mesmas responsabilidades". E tenta contextualizar as declarações de André Ventura: "Estávamos a falar de integração." Acrescenta que há problemas em Loures no cumprimento de leis, que é "altura de os resolver", que este "show mediático" alertou "para problemas que existem em Loures", e que esses problemas não estão na etnia, mas nos que não cumprem a lei. Então por que razão associou André Ventura um pressuposto a outro? Ora, para Ricardo Andrade, o candidato não fez isso. 

Uma visão bem diferente tem o candidato do Bloco de Esquerda a Loures, Fabian Figueiredo, que apresentou nesta segunda-feira uma segunda queixa na Procuradoria-Geral da República contra André Ventura, por causa das declarações que este tem proferido acerca da comunidade cigana. Quanto ao comunicado de André Ventura, o bloquista diz que o candidato da direita percebeu que o que disse é "intolerável", até porque mereceu o "repúdio" de vários partidos, mas não é suficiente. Para Fabian Figueiredo, o candidato do PSD/CDS continua a olhar para Loures como um "faroeste", numa "caricatura" que não corresponde à realidade. E deixa uma sugestão à candidatura de André Ventura, por causa do léxico usado no comunicado, concretamente por causa da palavra "raça" que para o bloquista já não se devia usar: "Alguém lhe devia dizer que raça só há uma, é a humana."

Também a candidatura do PS enviou um email ao PÚBLICO no qual se lê que "a candidata do PS, Sónia Paixão, considera que as declarações de André Ventura são racistas e que o candidato discriminou cidadãos portugueses. Sónia Paixão considera ainda que a actual autarquia comunista coligada com o PSD na câmara contribuiu  para um aumento do sentimento de insegurança em Loures, ao ter liquidado os contratos locais de segurança que o último executivo do PS tinha criado."

Segundo a agência Lusa, o PS "exortou" “formalmente" o líder do PSD a retirar a confiança política e a demarcar-se daquelas declarações "xenófobas" e "racistas". Esta posição foi transmitida pela secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, em conferência de imprensa, em que esteve acompanhada por Sónia Paixão. "Este é o momento de Pedro Passos Coelho demarcar-se daquelas declarações ou tornar-se-á cúmplice de semear o discurso da intolerância, do racismo e da xenofobia", disse Ana Catarina Mendes.

O que disse André Ventura?

Tudo isto está a acontecer, porque o candidato do PSD/CDS-PP à Câmara de Loures tem lançado acusações à comunidade cigana. Esta segunda-feira, numa entrevista ao jornal i, o candidato autárquico teceu duras críticas a “grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem exclusivamente de subsídios do Estado”, acusando especificamente uma comunidade de ter uma cultura de "impunidade".

"A etnia cigana tem de interiorizar o Estado de Direito, porque, para eles, as regras não são para lhes serem aplicadas. Há um enorme sentimento de impunidade, sentem que nada lhes vai acontecer", disse.

Na mesma entrevista, André Ventura dizia que sempre se tinha dado “com todo o tipo de etnias” e dizia ainda: “Nada tenho contra as pessoas de etnia cigana, isto tem a ver com um grupo que acha que está acima do Estado de Direito.” À pergunta “Recentemente disse que somos demasiado 'tolerantes com algumas minorias'. De que minorias falava?”, André Ventura inicia a resposta desta forma: “Vou-lhe ser muito directo: eu acho, e Loures tem sentido esse problema, que estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana.” Outras frases pontuam a entrevista: “Nos transportes públicos é a mesma coisa: vários munícipes queixam-se de pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos.” Ou: “A etnia cigana, quer em Loures quer no resto do país, tem de interiorizar o manual do Estado de Direito.”

Ventura já tinha proferido acusações semelhantes, na semana passada, numa entrevista ao site Notícias ao Minuto: “Temos tido uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas. Não compreendo que haja pessoas à espera de reabilitação nas suas habitações, quando algumas famílias, por serem de etnia cigana, têm sempre a casa arranjada. Já para não falar que ocupam espaços ilegalmente e ninguém faz nada”, afirmou o candidato.