Alqueva não tem capacidade para fornecer água a todos os sistemas de rega em período de seca

Sistema de captação dos Álamos de onde parte água para o sub-sistema de rega do Alqueva tem capacidade instalada para seis electrobombas mas só duas é que estão a funcionar.

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Miguel Manso / PUBLICO

O período de seca que está a afectar toda a região Alentejo, aliado à publicação tardia do novo tarifário que estabelece o preço da água destinado a rega em Alqueva, acabou por provocar inesperadas dificuldades no fornecimento de caudais. Pressionadas pelos baixos níveis de armazenamento na maioria das albufeiras que servem os 12 blocos de rega do sub-sistema Alqueva, (71 mil hectares), as associações de regantes, assim que foi anunciado o novo tarifário da água, solicitaram os volumes de água de que tinham necessidade para as culturas Primavera/Verão. E de repente a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas dos Alqueva (EDIA) foi confrontada com um volumoso pedido de água a que não está conseguir responder.

Manuel dos Reis, presidente da Associação de Beneficiários da Obra de Rega de Odivelas (ABORO), disse ao PÚBLICO que a EDIA se comprometeu com programa de transferências de água da albufeira de Alqueva e Alvito para Odivelas, acordado entre as duas entidades para 2017, mas que “não está a ser cumprido”. Esta situação “é preocupante” uma vez que põe em causa o fornecimento de água pela associação aos regantes, nos próximos meses de Julho e Agosto, afectando cerca de 9000 hectares de culturas neste perímetro de rega, referiu Manuel dos Reis, frisando que “neste momento está a sair mais água para a rega que aquela que entra enviada pela EDIA”, acusando este entidade de “má gestão”.

As razões desta situação anómala, descreve o presidente da ABORO, “deve-se ao facto de só estarem duas electrobombas a captar água” quando a capacidade instalada é para seis.

Capacidade insuficiente

O presidente da EDIA, Pedro Salema, adiantou ao PÚBLICO que, de facto, “não é possível abastecer o sistema de rega em simultâneo e em período de seca”, confirmando que a estação de captação dos Álamos, de onde é bombada a água para irrigar os 71 mil hectares do sub-sistema Alqueva, “só tem em funcionamento duas electrobombas” que se revelam insuficientes para fornecer em “simultâneo” a água que é solicitada.

Pedro Salema acrescenta que a EDIA já abriu um concurso internacional para o fornecimento de mais duas electrombas, que só serão entregues dentro de dois anos e vão custar, os dois equipamentos, 13 milhões de euros. “Até lá, vamos ter que viver com duas”, adiantou. O presidente da EDIA recusa a acusação de Manuel dos Reis, garantindo que “não há má gestão” do sistema de rega mas “não se pode esperar milagres” quando “toda a gente pede água ao mesmo tempo”. A estrutura de fornecimento do sistema “não foi pensada para fornecer a água toda ao mesmo tempo”, admite o presidente da EDIA, lembrando o articulado do despacho que fixa o novo tarifário onde se apela às associações de regantes para pedir água “atempadamente”.

Acontece que os agricultores a solicitaram quando poderiam fazê-lo. Por exemplo, a ABORO apresentou o pedido a 19 de Abril (oito dias após a publicação do despacho) e pretendia ter toda a água de que necessitava, na barragem de Odivelas, até ao final do mês de Maio, um pedido que a EDIA considerou impossível de satisfazer. Ficou acordado que a entidade fornecedora debitaria 7,5 hectómetros cúbicos por mês entre Abril e Julho. Mas Manuel dos Reis alega que não está a entrar na albufeira a água que foi acordada. Pedro Salema contrapõe que no último mês foram enviados 7,1 hectómetros. Para a associação, a situação que se vive é “muito preocupante”.

Apesar da redução do preço da água, os agricultores consideram que este ainda está elevado, obrigando-os a reduzir áreas de cultivo ou a optar por culturas que exijam menos água.

Manuel dos Reis descreve também o que se passa nos blocos de rega de Campilhas e Alto Sado, onde os produtores de arroz “deixaram de cultivar uma área significativa” por causa do custo da água.

Seca prolongada

Entretanto, a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA), em comunicado enviado ao PÚBLICO na tarde desta quarta-feira, refere que já enviou ao ministro da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural uma carta alertando para a necessidade de implementação de “medidas imediatas” que possam “contrariar os impactos negativos da seca prolongada que já se estão a fazer sentir por todo o Alentejo”.

Aquela organização representativa das associações de agricultores garante que o esgotamento das reservas hídricas no Alentejo “são visíveis e muito preocupantes”, afectando as culturas de sequeiro, como os cereais, as oleaginosas, as pastagens e forragens, os sistemas de abeberamento dos efectivos pecuários e o regadio. A situação que se está a viver exige a aplicação “urgente” de medidas de apoio para “abeberamento dos animais, através da abertura de furos, construção de charcas, aquisição de cisternas, e instalação de bombagens”, assinala a FAABA.