Um arremesso de perguntas para desequilibrar o outro

Crime e Castigo, de Dostoiévski, dá o nome mas talvez pouco mais à performance que os Rabbit Hole estreiam na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa. Um espectáculo em forma de duelo e em que se tenta apanhar o outro desprevenido.

Fotogaleria
Nesta performance as perguntas pretendem, em cada momento, arrancar o tapete sob os pés do outro
Fotogaleria
O ensaio

João Estevens e Mafalda Miranda Jacinto perguntam. Perguntam muita coisa. Perguntam aquilo que lhes vier à cabeça, sabendo que com as suas perguntas pretendem, em cada momento, arrancar o tapete sob os pés do outro, roubar-lhe a segurança e o equilíbrio. Se possível, provocar a queda. Crime e Castigo, espectáculo assinado pelo colectivo transdisciplinar Rabbit Hole, desfia-se como um jogo constante entre duas pessoas, como um duelo e uma provocação feitos dessa tensão de testar os limites e nunca saber, ao certo, o que vai acontecer no minuto seguinte.

Não quer isto dizer que Crime e Castigo é uma rebaldaria, uma invenção sem quaisquer balizas em que ao deixar que tudo possa acontecer acabe por não resultar em nada com um mínimo de solidez. João e Mafalda seguem uma estrutura definida – que os manda começar por uma troca de perguntas e dever obediência aos pedidos do outro, para depois avançarem para uma história e terminarem num diálogo estruturado, na zona mais teatral da sua performance. Mas a verdade é que aquilo a que se poderá assistir entre esta quinta-feira e domingo, 28 de Maio, no espaço Rua das Gaivotas 6, em Lisboa (segue depois para o Teatro Sá da Bandeira, Santarém, a 10 de Junho, e para o Teatro Rivoli, Porto, a 8 de Julho), assenta em grande parte nessa falta de segurança absoluta em relação à forma final do espectáculo. Existe estrutura, mas não uma forma certa para ser preenchida.

“O que me alicia nesta proposta é poder ser diferente quase todos os dias”, justifica João Estevens. Ou seja, não se valendo de um grande aparato cénico, não se baseando num texto de enorme deslumbramento técnico ou poético, interessa-lhes “a agilidade e a cumplicidade entre dois bonecos – e que eles possam mudar todos os dias”. Essa cumplicidade entre os dois vem de trás e “nasce fora do próprio espaço do teatro”, conforme explicam. É, por isso, muito anterior a Cápsula, espectáculo dos Rabbit Hole de 2015 em que Mafalda (na altura a estudar em Londres) participava via Skype, sentada em frente ao computador a aviar um prato de massa.

Desta vez, querendo partir de um ambiente de informalidade – que a sala das Gaivotas, com as cadeiras para o público e a iluminação para teatro ajudaram a desvirtuar, impondo alguns códigos próprios de uma sala de espectáculos –, João e Mafalda cuidaram sobretudo de trabalhar sobre este dispositivo em que a improvisação tem um lugar nevrálgico. E em que a ideia de transgressão é, desde logo, atirada para cima da mesa com um título que pretende enganchar de imediato no universo literário e na expectativa de como poderá o texto de Dostoiévski relacionar-se com esta performance de características mutantes.

“Normalmente” comenta Estevens acerca da vaga inspiração literária, “há uma espécie de autoridade intelectual do artista que pegou e esmiuçou a obra e está numa posição de maior conhecimento para a apresentar ao público. Mas e se trabalhássemos com as referências do quotidiano? Com a wikipédia, com uma amiga que já leu e nos contou a história? Como é que se monta uma dramaturgia que relaciona a obra dentro disto tudo?”

Crime e Castigo é a tentativa de resposta a essas perguntas, servindo-se da presença dos dois em cena para brincar com as dicotomias crime/castigo, ordem/transgressão, certo/errado, sucesso/fracasso ou inclusão/exclusão. “Não temos por hábito pegar um texto e segui-lo à risca e fazer trabalho de personagem”, diz Mafalda Jacinto. Daí que Dostoiévski seja um rastilho para explorar estas relações tensas, mas sobretudo para delas extrair um divertimento em cena que só aos mais atentos e preciosistas despertará reminiscências como a personagem Raskólnikov “atravessar muito as questões da culpa”. Como fazem questão de afirmar, se há muito espaço para “a patetice” na performance, essa patetice nunca é gratuita e os dois sabem sempre de onde vem. Mesmo que para o público nunca seja claro se João e Mafalda alguma vez leram Crime e Castigo. Admitamos que sim.