soniasmc/ Pixabay
Foto
soniasmc/ Pixabay

Megafone

A vida resiliente

Porque é que se fala tanto em resiliência como resposta aos perigos por nós criados? Não era mais eficiente apostar em eliminar esses perigos?

Cada vez mais se apela à resiliência: das pessoas, das economias, das comunidades, dos territórios, como resposta a situações adversas, que são representadas como fazendo fatalmente parte da vida e da sociedade. Mas qual a inconsistência em muitos destes apelos?

O facto de pretenderem ser solução para perigos e vulnerabilidades que, nós próprios, continuamente criamos.

“Resiliência” é actualmente uma palavra muito recorrente, sem excepção na área disciplinar que investigo – Território e Arquitectura. O termo desdobra-se em conceitos diferentes, em âmbitos científicos específicos, mas podemos dizer, de uma forma geral e grosso modo, que se refere à capacidade que demonstra um organismo, matéria, entidade, ou sistema, de se adaptar à exposição a condições ou forças adversas.

No domínio da linguagem comum, o termo gera emocionalmente empatia. Resiliência é um mecanismo adaptativo que permite reagir positivamente, ultrapassar obstáculos, sobreviver à catástrofe e fazer da adversidade oportunidade. Ser-se uma pessoa extremamente resiliente é até Romântico. O imaginário da palavra remete para as histórias heróicas, cheias de poéticas da fatalidade, sublimes do perigo, pitorescos do triunfo - a criança que perde os pais na guerra e sobrevive, os habitantes de ghettos que reconstroem as suas casas, o pobre que ficou rico com o suor do seu trabalho.

Num âmbito social e colectivo muitos dos resultados da nossa resiliência desregulada não evocam imagens tão triunfantes. Ao nível do Território e da Arquitectura há muitas vezes a desordem, a especulação, a gentrificação e turistificação excessiva, a habitação desqualificada, o impacto ambiental negativo, o aumento da vulnerabilidade à catástrofe... Mas há quem represente este tipo de fenómenos apelando à resiliência, tirando até partido da fotogenia do caos – é a vida que “naturalmente” acontece.

Nas Ciências Naturais é aceite, desde o século XIX, que a resiliência é um conceito intrínseco à evolução de todas as espécies – mas não foi Darwin quem inventou propriamente esta ideia (apesar de lhe ter adicionado detalhes factuais). Já antes, com o despertar do Romantismo no final do séc. XVIII, Kant considerava a vida biológica como um fenómeno de vulnerabilidade, onde o confronto com a adversidade constitui o processo de evolução natural. Na melhor das hipóteses ocorre uma adaptação inovadora, na pior das hipóteses há a decadência e a morte.

Evocar imagens da Natureza no estudo dos Homens, sempre ocorreu e sempre se revelou útil à ciência. Mas neste caso, é justamente no carácter análogo que reside o potencial problema da “resiliência” – um conceito que é muitas vezes transposto tal como entendido no âmbito das Ciências Naturais, para as Ciências Sociais e Humanas.

Esta transposição nem sempre é intelectualmente honesta, por uma simples razão: há uma diferença fundamental entre todos os seres naturais e os seres humanos – a capacidade de alterar o mundo através do artifício (sendo artifício aquilo que só o homem pode fazer, como por exemplo a ciência, a política, ou a arte - raíz do termo). A nossa capacidade crescente de alterar o que nos rodeia torna-nos o principal arquitecto do planeta, com poder superior ao das forças geológicas - inclusivamente, diz-se por aí que a actual era é o Antropoceno. Consequentemente somos também os principais arquitectos do perigo. O mesmo perigo ao qual temos que ser resilientes.

Também somos nós os arquitectos do perigo em cenários de catástrofe puramente natural e inevitável (como um terramoto, ou um furacão) - na medida em que possuirmos meios para conter o seu impacto. O desinvestimento em mecanismos de contenção da vulnerabilidade colectivamente regulados deixa-nos como alternativa a resiliência pós-catástrofe, que já nada pode fazer pelos mortos. E aos vivos não se solicitará em igual abundância: as assimetrias sociais por nós geradas implicam uma assimetria na resposta à catástrofe. A vulnerabilidade não é uma condição de que todos soframos em igual quantidade.

Então porque é que se fala tanto em resiliência como resposta aos perigos por nós criados? Não era mais eficiente apostar em eliminar esses perigos? A resposta é complexa mas, do ponto de vista ideológico, podemos dizer que este discurso corresponde ao fim das narrativas utópicas do estado social e à sua substituição pela narrativa neoliberal.

No final do séc. XX, inúmeros cientistas do campo da Biologia molecular (como ex. Stuart Kauffman) começaram a argumentar que sistemas vivos, não podem, por definição, ser resguardados do perigo, pois a sua própria capacidade de continuar a viver depende da exposição a este. Neste sentido a evolução passa a ser ditada pela lei fundamental da “emergência”. O perigo já não é apenas inevitável, é condição determinante para a existência da própria vida.

O tomar de exemplos deste tipo, analogamente a um modelo ideológico, produz um resultado de extrema utilidade à agenda política neoliberal. O perigo torna-se condição sine qua non para que o progresso aconteça. Faz naturalmente parte da vida estar eminentemente exposto, por exemplo: a ficar sem trabalho, aos bancos falirem, à economia colapsar – são fatalidades inevitáveis. Quem for resiliente torná-las-á oportunidade, em sublime graça criativa e empreendedora. O argumento económico por detrás disto é que o neoliberalismo oferece a melhor forma de estimular as populações, proporcionando uma distribuição mais eficiente de recursos escassos... (porque serão os recursos assim tão escassos?).

Distribuição de recursos à parte, a uma explosão nuclear só sobrevivem as baratas. E nós não somos baratas infinitamente resilientes. Somo humanos com a capacidade de se resguardar do perigo, num ambiente de responsabilidade social. Ou de reivindicar para que o sejamos.

A morte das narrativas utópicas do estado social não é fenómeno novo, nem a substituição destas pela crença numa espécie de “selecção natural” com contornos morais duvidosos. No contexto da ascensão do nacional-socialismo Walter Benjamin captou algo semelhante, dissertando sobre o quadro de Paul Klee, Angelus Novus. O anjo da história, cego, não consegue ver a destruição aos seus pés, ou as nuvens que paralisam as suas asas. Sem memória histórica, está preso na intempérie do progresso, intemporal e sem tempo.

Contra todas as intempéries, precisamos de mais utopia e menos resiliência. Como dizia Eduardo Galeano, a utopia, apesar de inalcançável, é o nosso horizonte, o que nos faz caminhar em frente. Sem utopias sociais ficamos como o anjo de Paul Klee - sem ter para onde ir, sem passado e sem futuro. Só nos resta sermos resilientes.