Um acordeão (sem bigode) plantado no jazz

Aos 24 anos, João Barradas lança o seu álbum de estreia, Directions, apadrinhado por Greg Osby, e reclama o acordeão como um instrumento de liberdade e o veículo perfeito para ocupar as terras do jazz.

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Alfredo Matos

Um tipo de bigode, provavelmente pançudo, com o acordeão empinado na barriga, chapéu enterrado na cabeça, a tocar música popular para animar bailes de província. Perguntando aleatoriamente a alguém à nossa volta, acredita João Barradas, a imagem de um acordeonista corresponderá mais ou menos a este estereótipo. A música de João, acordeonista, faz-se contra esta ideia parasitada por preconceitos. Embora tenha sido pelo acordeão que começou aos cinco anos, quando o músico fala das suas influências são homens do jazz que lhe saltam da boca, gente como Andrew Hill, Steve Coleman, Charlie Parker, Oscar Peterson, Herbie Hancock, Kenny Kirkland, Greg Osby ou Wayne Shorter (a estes dois últimos voltaremos já em seguida).

Daí que João Barradas tenha rejeitado uma proposta de contrato com uma grande editora internacional para gravar um disco de improvisações sobre temas de Astor Piazzolla, o mítico tocador argentino de bandonéon (primo do acordeão popularizado no tango). Aos 17 anos, Barradas cruzou-se com o saxofonista nova-iorquino Greg Osby numa masterclass e foi encontrando nele um mentor, alguém que o aconselha sobre os mais diversos aspectos de uma carreira, desde questões de secretaria a interrogações musicais. Osby, assim como Steve Coleman, é um dos principais defensores do m-base, uma forma de pensar a música que tanto tem implicações na abordagem à improvisação como na concepção da criação como uma extensão da vida de cada um. Tudo isso está presente no primeiro álbum de João Barradas, Directions, editado pela Inner Circle Music, de Osby, em parceria com a novel Nischo, de Carlos Martins.

“Todo o álbum é muito autobiográfico”, confirma o acordeonista. “Não é um best of daquilo que fui fazendo; é antes a forma de encontrar uma solução em que tudo soasse coeso, passando pela minha vida toda.” É música feita e gravada em 2016, mas a que se agarram partes de melodias compostas por Barradas aos sete, oito, doze, catorze anos. É uma música presente, mas consciente de todo o passado que transporta consigo. Daí que Directions possa conter ecos dos tempos em que ouvia “de uma forma quase doentia” Richard Galliano, Art van Damme, Frank Marocco ou Tommy Gumina, nomes que uniram os pontos entre acordeão e jazz. “Só que, não tendo nada contra os acordeonistas, nunca nenhum me marcou no sentido de dizer que também queria ser assim.” Algo que, ao invés, lhe sucedeu repetidas vezes com saxofonistas e pianistas da história recente do jazz.

Um deles, Wayne Shorter, inspira o tema de abertura, Expressive idea. É a sua voz que ouvimos numa entrevista a Joe Lovano realizada para a Blue Note, que João descobriu no YouTube nas suas infindáveis buscas por informação de toda a espécie – “Estou sempre a pesquisar entrevistas de pessoas que admiro, não apenas músicos”, justifica. “Nessa entrevista o Wayne Shorter diz que ao longo dos tempos alguns instrumentos se perderam para a música popular ou para a clássica, e não ficaram no jazz ou na improvisada. E fala de casos como o trombone, o clarinete e até ‘o nosso pequeno acordeão’.”

João cedo percebeu que esse teria de ser o mote para reclamar o acordeão para um espaço de liberdade e aventureirismo, emulando a melodia da voz falada de Shorter e partindo daí para um tema funciona como manifesto para toda a música de Directions.

O sotaque primeiro

A força desse manifesto, incendiado pelo saxofone de Greg Osby, liberta de imediato João Barradas para poder fazer-lhe suceder Letter to a Mother’s Immersion, tema com um evidente rasto de música popular portuguesa, que poderíamos ligar sem dificuldade à característica de composição do pianista João Paulo Esteves da Silva, cuja presença efectiva no tema faz parte de uma família alargada que o acordeonista estende ao guitarrista André Fernandes – “escrevi mesmo para eles os dois, estão completamente embebidos no quinteto”. Tudo parte, no entanto, do trio em que é acompanhado por André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria), uma sonoridade que idealizou ao ouvir discos dos pianistas Brad Mehldau e Kenny Kirkland. “Esse formato de trio permite tornar a música mais agressiva e tocar formas como o swing de uma maneira mais autêntica”, diz. Tal protagonismo assumido pela secção rítmica ouve-se claramente na belíssima balada Varazdin landscape, em que o acordeão midi de Barradas incorpora o som de um Fender Rhodes para relatar uma viagem entre a cidade croata e Paris em 2010.

A mais típica linguagem do acordeão surge em Amalgamat, peça de adolescência de João Barradas, que não esconde um mundo de referências que pode tocar tanto em Galliano quanto em Piazzolla e Eugénia Lima, em parte porque entende ser errado menosprezar a fundação popular do instrumento como suposto acto de dignificação do mesmo, mas também porque, mesmo se de forma inconsciente, essa é também uma linguagem que está entranhada naquilo a que chama o seu “sotaque” no instrumento. Um sotaque que pretende reforçar que primeiro está o músico, as suas propostas musicais, a sua natureza, a estética que pretende desenvolver e só depois o instrumento, como ferramenta mais à mão, mas sem se assumir como elemento limitador das suas possibilidades criativas. Por isso, Amalgamat termina e dá lugar a Amalgamat (outro), uma desconstrução do tema original com a participação de João Paulo e Sara Serpa, que se ouve como uma declaração do músico na recusa em se deixar definir pelo instrumento.

Aliás, seguindo um modelo que Osby (também produtor de Directions) desenvolveu na Blue Note, Barradas cita em vários momentos temas que classifica como “desfigurados”. Aquilo que ele faz a Amalgamat, Gil Goldstein faz a Giant Steps, num arranjo para dois acordeões intitulado Tiling the plane, em que a fonte original (John Coltrane) se torna uma miragem distante. É mais um momento partilhado pelo músico com um dos seus heróis pessoais, num álbum que afirma a sua claríssima personalidade de improvisador – seguir-se-ão um disco de música a solo com peças de música contemporânea e a estreia Home, grupo em avançado namoro com o rock –, num estado de felicidade proporcionado por fazer a música que quer, sem ter de obedecer às ideias de terceiros, e que lhe permite dizer que, afinal, não consegue “imaginar melhor instrumento para tocar jazz”.