Opinião

Futebol sem roque

Todos os árbitros têm o seu “clube do coração” (o que é legítimo), mas para não serem acusados de serem sectários, tendem a esconder a sua preferência ou filiação em vez de a tornar transparente.

A governança do futebol português está em crise, mas as autoridades do sector e alguns dirigentes desportivos continuam a enterrar a cabeça na areia. Atacar os sintomas de uma crise há muito anunciada com medidas paliativas é tentar tapar o sol com a peneira. É preciso ir à raiz do problema.

Há uma percepção negativa em relação à ética profissional da arbitragem portuguesa que tarda em ser analisada. Iniciar uma discussão desta natureza no actual contexto não é tarefa fácil, atendendo à clivagem que o tema abriu no debate público. Do lado de quem lidera o campeonato, considera-se que há um escrutínio quase doentio de qualquer decisão – dentro e fora de campo – e que toda esta indignação não passa dum queixume sem jeito de quem perde e que procura ofuscar o mérito do colectivo de quem ganha. Do lado de quem se sente lesionado, há a percepção de que a arbitragem tem influenciado os resultados e que a diferença de pontos entre a liderança e a concorrência directa não seria tão significativa se o campo estivesse mais nivelado.

É preciso espaço e abertura para reflectir sobre as questões que estão na base da crescente indignação por parte dos adeptos e amantes desta modalidade desportiva. A alegada falta de imparcialidade da arbitragem é apenas uma dimensão de uma série de problemas que afectam a qualidade da governança do futebol português: da falta de transparência na gestão dos clubes ao sectarismo mediático; do proteccionismo político sob a forma de perdões e benefícios fiscais à influência indevida dos clubes nos órgãos de governo da modalidade; da manipulação de resultados à oferta de prendas e hospitalidade aos árbitros (Recordamos a este propósito que num inquérito realizado pela TIAC [Transparência e Ingeridade] aos membros da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol em 2013, aproximadamente um em cada dois árbitros admitiam a oferta de serviços de prostituição a árbitros portugueses em competições nacionais).

Todos estes problemas resultam numa péssima imagem da governança do futebol português. Ignorar as questões de fundo ou assumir uma postura corporativa, não é solução. A tentativa de agravamento das sanções disciplinares para quem levantar suspeitas sobre a conduta dos árbitros veiculada durante a última reunião do Conselho de Arbitragem, é deitar óleo na fogueira.

Bem mais útil seria reflectir sobre a forma como os conflitos de interesses na arbitragem estão regulados e são (ou não são) geridos. Todos os árbitros têm o seu “clube do coração” (o que é legítimo), mas para não serem acusados de serem sectários, tendem a esconder a sua preferência ou filiação em vez de a tornar transparente. (In)felizmente, essas relações acabam, mais cedo ou mais tarde, por serem descortinaras na imprensa e redes sociais, com enorme prejuízo para a imagem de rigor e imparcialidade da arbitragem portuguesa. As preferências clubísticas do árbitros seriam um mal menor se estes não tivessem funções de arbítrio e decisão. Há um fraco entendimento do que é um conflito de interesses, aparente, potencial ou real por parte dos árbitros e das autoridades que tutelam o seu trabalho.

É necessário que instâncias de governo do futebol português façam um diagnóstico dos riscos de integridade no sector e desenvolvam, de acordo com as melhores práticas internacionais, um conjunto de medidas que lhes permitam intervir de forma oportuna e fundamentada, algo que tem sido preterido em favor de uma repressão selectiva e pouco convincente.

Pensarmos que tudo isto é ruído, normal ou expectável, atendendo à natureza do campeonato português (rotativismo de dois clubes e concentração da quase totalidade dos recursos e adeptos em três grandes clubes), é um discurso que obviamente convém a quem beneficia deste estado de coisas, mas que em nada contribui para elevar a imagem do futebol português.

P.S. – Declaração de interesses: o autor é sócio do SCP.

Sugerir correcção