Crítica

Corpo político

Mais do que registos anteriores de Jorge Roque, Tresmalhado olha para o mundo como corpo político. Esta escrita move-se, antes de mais, por um impulso ético. Porque longe do que é descartável e esquece, mas atenta ao humano.

Foto
Esta escrita move-se, antes de mais, por um impulso ético Nuno Ferreira Santos

No âmbito de uma produção escrita das mais diferenciadas entre nós, eis um livro que se distingue e cava o seu próprio fosso. Um lugar onde só ele parece caber, aquele em que tudo o que existe é a realidade por ele engendrada, ou aquela que ele reflecte e recria. Esclareça-se. Ou, pelo menos, tente-se. Jorge Roque é dos muito poucos a escrever neste país que tem conseguido fazer da poesia escrita em prosa — à falta de expressão mais justa — uma forma conseguida de dizer, para lá dos limites estritos do verso e da prosa.

Com Tresmalhado, o autor prossegue a sua senda por lugares nem sempre explicitados até agora: “o estado português é um negócio de trocar chouriços por porcos” (p.26). Não que sejam inéditas, na produção de Jorge Roque, a circunstância histórica, nem a resistência ao que, nela, é nefasto. Simplesmente, adquire agora nova força enunciativa, maior explicitação, a revolta de quem já escreveu: “Uma a uma, as palavras emergem da pedra informe, brilham como o aço quente das brocas. Agarra-as com as mãos feridas, confunde-as com o tacto, mistura-as com o sangue, enquanto a tinta regista a negro o seu traçado. Há quem lhe chame poesia. Eu só lhe posso chamar combate.” (Canção da Vida, Averno, 2012) Nem a inserção de uma realidade designada por “chouriços” e “porcos”, nem a própria destituição do Estado, reduzido a vocábulo minúsculo, são introduções feitas ao acaso. Em Tresmalhado, sem se intentar fazer poesia política, a escrita está imersa no mundo. E, se não há um desígnio político, em sentido estrito — é sobretudo de ética que se deveria falar —, os dados da realidade são tematizados por um prisma que é também político. Sirva de simples exemplo um texto como “Coelho no Tacho”. Mas, mesmo aí, significativamente, a tragicomédia de um país (mais trágico do que cómico) é, concomitantemente, um drama pessoal.

O do indivíduo anónimo que se atreve a levar longe de mais a expressão do seu ponto de vista, empolgado por um instante de aceitação em redor. De um modo análogo, quando o enfoque do texto se situa no próprio sujeito da escrita, há vectores de teor biográfico que se exprimem de modo, eventualmente, mais patente do que antes — “Jorge, tens de publicar mais, ainda não te afirmaste como escritor. Como contestar, não me afirmei como escritor, é um facto. Afirmei-me como Dr. de uma cadeira e de uma secretária num gabinete de seis funcionários na tal torre de vidros fumados. Dr. de um cartão de ponto e de um programa informático que regista ao segundo as entradas e as saídas, faz a soma e preenche a linha dos dias com uma barra cinzenta do horário cumprido ou vermelha, acusadora do processo, do requerimento em minuta ao Director.” (p.43) Não se trata de ser, finalmente, “casado, fútil, quotidiano e tributável”, nem “o contrário disto”. Porque não está aqui em apreço o escrutínio de nenhuma entidade a que o poeta se queira ou possa dirigir, como em Campos. Uma prorrogativa de que aqui se prescindiu, ou que não é viável. A sós com os seus próprios debates, aquele que escreve, olha em seu redor e reage. Descreve para increpar, analisa para obliterar.

Caso dúvidas subsistissem, é de poesia que se trata, quando o trabalho da palavra e da sua existência frásica rechaçam implacavelmente abrandamentos de prosódia e ritmo. Aqui, a unidade textual — graficamente apresentada como prosa — submete-se a um tratamento de choque, porque nada flui com a transparência da facilidade, nem com a placidez de um simples relato — “E este retrato, esta parábola, reflectida, multiplicada, em empresas, sociedades, países, constitui o admirável mundo democrático e liberal que empenhadamente luta por livrar a besta dos constrangimentos morais, jurídicos e sociais, que o velho mundo lhe impõe em nome de utopias de ética e de justiça, nascidas de idealismos voluntaristas” (p.16). Tudo se combate até ao mais ínfimo fôlego. As medidas lexicais e os sintagmas que compõem o texto são repassados de sentidos que são sonoridades ritmadas. Mas com a força de uma espadeirada.

Tudo vai a eito. Nada é deixado a oscilar, sobrante, decorativo. Apenas fica a dicção dura e impiedosa do que se pretende o firme desenvolvimento de uma ideia que é uma forma de expressão — “E ser livre enfim, nada com o nada, nos átomos e moléculas do universo vasto. E ter por antecipado alívio a certeza de não fazer falta. Estar vivo, para os que vivem, é uma razão completa. Tudo o que morre se torna, vencido o espanto, supérfluo.” (p.52) Daí que a questão do verso ou da prosa acabe, paradoxalmente, por ser um pouco ociosa, ao ler este poeta. Jorge Roque escreve numa prosa desbastada, castigada, não à maneira do esteta, mas como um asceta. Não há um polir que se limite à luta pelo efeito da estesia; há, antes de mais, um compromisso vital em que “a mão que assinou o papel” deixa na escrita a sua marca — mas porque não há forma de assim não ser. É esse o entendimento da escrita, aqui. O autor escreve o que é, e nada mais pode subsistir a partir desse ponto sem retorno. Errará quem pretenda, cinicamente, reler aqui um postulado evocativo da gesta do romantismo. Não se trata de confessionalismo, bem pelo contrário, mas apenas da recusa de habitar o edifício modernista, com os seus postulados que separam entrega existencial de fazer artístico, pacto intelectual (e afectivo) de expressão poética. A poesia de Jorge Roque está antes — ou depois, muito depois, dir-se-ia — dessa atomização. Para este autor, não haverá como compartimentalizar membros de um mesmo corpo, órgãos de um só sistema. Porque é nessa ordem de grandeza que se encontram as coisas. Numa fusão inquebrável. Como se lia num livro anterior (O Martelo, Ed. Autor, 2012), “Mas a vida, estou em crer, é coisa mais simples. Nela escrevo a tinta morte a verdade de um só homem. Letra a letra, cada traço, cada ponto, deste rosto que me sou.”

Poema tocado pelo mundo, por ele batido, Tresmalhado é também agressor desse mesmo mundo, pela recusa de uma aceitação passiva. A luta conhece as duas vias; tanto se leva como se dá. Se lermos o terceiro andamento (um termo que Jorge Roque tem usado) do poema epónimo de Tresmalhado, perceberemos como o lugar do sujeito é um centro marcadamente nervoso. O que significa que o olhar do sujeito, que se detém, compenetrado e inexorável, no acontecer do mundo, volta para si o mesmo grau de exigência — “Nunca vais encontrar mundo para ti, quero dizer, mundo em que o teu mundo faça sentido. O teu horizonte é este cerco, o teu chão este passo em falso, na falha, na falta, no erro em que fundaste a vida toda e, teimoso nato, voltarias a fazê-lo.” (p.21) Aqui, como em vários casos, as palavras transmitem o seu batimento ao poema. Oscilam rapidamente entre uma e duas sílabas, poucas vezes mais do que isso, carregando o texto com a sua alta voltagem.

A tensão que percorre o texto abrange, num mesmo arco comprimido, o desajuste do sujeito, na sua autognose implacável, e o mundo que lhe serve de solo — e abismo. Poucas vezes a expressão “corpo político” terá adquirido ressonâncias tão significativas e operantes. É sempre um organismo o que está sob o crivo desta escrita; mas é também central — e de modo mais premente em Tresmalhado — um conjunto de órgãos, agregados numa estruturação de ordem política. Não há como deixar de perceber, nesta orgânica, sintomas de doença. É esse mal — perseguido, esconjurado, mas sempre acolhido pela escrita de Jorge Roque — o elemento corrosivo, mas também atmosfera que alberga a corrosão. Se é impossível erguer qualquer postulado que não seja, de uma maneira ou outra, político, Tresmalhado reclama, do modo mais decisivo, esse inescapável, mas como um fundo, um chão que há que percorrer. Lugar de uma ruminação demasiado antiga cujos ritmos parecem uma mandibulação, um eco de idades perpétuas; o eixo inimaginável do mundo repete esse movimento instintivo que tudo traga, tudo engole. O próprio texto repercute a força motriz dessas movimentações, que se deixam imprimir na forma da frase, na ritmação de cada termo — “E farto dos políticos, economistas, comentadores, analistas, vendedores, compradores, de algo que nem eles sabem, mas que enche noticiários, jornais, olhos e ouvidos, enquanto os dentes mastigam e a língua indaga a espinha que se confundiu com o peixe, revolve escrutina, e nada a distingue da massa informe que os dentes continuam a mastigar, mas o que conta é o lucro” (p.32).