Opinião

A aula de História de hoje

Na aula de História de hoje, talvez se pudesse falar dos deuses egípcios, mas, como é possível que seja omissa - vergonhosamente omissa - sobre a biografia e o papel que um estadista com a dimensão histórica que Mário Soares teve para Portugal? Que cidadãos forma esta História?

O Rodrigo de 13 anos chegou a casa depois das aulas.  Como de costume a mãe perguntou-lhe de forma quase rotineira “Como correu a escola hoje?”. Ele respondeu apressadamente “Fixe!”. A mãe quis saber mais… “Fixe, como?” “A aula de História foi bem boa” respondeu o Rodrigo. “Porquê?” quis saber a mãe. “Estivemos a falar dos deuses egípcios: Osíris, Horús e Isis”.  Neste momento, o Rodrigo olhou para o televisor ligado e perguntou: “O que é aquilo?”. A mãe respondeu “Morreu o Mário Soares”. “Quem é o Mário Soares?” perguntou o menino.

É fácil entender porque é que se diz que a discussão sobre o currículo da escola é um dos temas centrais da discussão sobre Educação.  O currículo é como uma rotunda onde confluem as grandes avenidas da Educação. E aí, na rotunda se vê quem tem prioridade, qual o fluxo que é mais determinante, quais os valores e regras que organizam todo o trânsito que ali se concentra.

A discussão curricular sobre quais os conteúdos, quais as experiências que devem ter prioridade na escola é, ela própria, uma discussão de importância central.  De um lado, temos as ideias dos educadores que acham que a prioridade da escola deve ser dada aos conhecimentos que o aluno pode construir, aos conhecimentos que se relacionam com a sua vida quotidiana, com a sua cultura e com os seus problemas atuais. São perspetivas curriculares que valorizam o ponto de partida do aluno, isto é, as suas questões, inquietações e desafios. O ponto de partida para a aprendizagem é o que se sabe e o que se quer saber no contexto em que se pode aprender.  Estas perspetivas curriculares, inspiraram múltiplas escolas pedagógicas e fundamentam as metodologias – hoje muito faladas – de “pedagogia de projeto”.  Nesta perspetiva os aprendizes, constroem um projeto sobre o que querem aprender e elegem – e são apoiados para isso– questões que querem ver respondidas. 

Do outro lado, temos as ideias de educadores que valorizam, acima de tudo a aprendizagem de bases conceptuais e teóricas que são consideradas como imprescindíveis para entender o mundo em que se vive. Estas bases do conhecimento e da cultura são vistas como um valor em si e para serem aprendidas não estão dependentes de qualquer contexto especifico.  Um professor disse-me um dia que a matéria que ele lecionava não tinha a ver com a vida dos alunos nem tinha que ter: era como o património da humanidade que eles teriam que aprender como base comum para serem cidadãos intervenientes e participativos.

Encontramos com diferentes professores, escolas e sistemas educativos perspetivas que se aproximam mais de um modelo ou outro. Mas de certo, é difícil encontrar estes modelos em estados “puro”, isto é, pedagogias que desprezem completamente as necessidades e condições dos alunos ou também modelos que se satisfaçam com a mera resposta pontual a questões ou projetos dos alunos sem as inserir em quadros conceptuais mais alargados e situados em termos do conhecimento.

Sabendo que existe algum “hibridismo” destes modelos curriculares, é justo que se reconheça que o prato da balança mostra que são os modelos mais tradicionais que têm maior prevalência e utilização. As escolas continuam – na sua grande maioria – a viver muito divorciadas das comunidades, dos problemas que os alunos querem resolver e sobretudo desenvolvendo a ideia – muito questionável – que antes de se chegar à prática é preciso encher a cabeça com teoria.  A experiencia dos alunos, as suas questões, a importância do quotidiano continuam a ser “parentes pobres” da pedagogia  nas escolas portuguesas. O edifício do que se chama “currículo” é resultado da construção destas opções.  O certo é que cada vez que pensamos em mudar a escola, sempre pensamos que os obstáculos são os programas que são longos, são os conteúdos que são complexos e precisam de muito treino, etc. Mas os programas e os currículos são eles próprios fruto destas opções que valorizam sobre tudo e sobre todos o conhecimento dos manuais e dos programas em detrimento do conhecimento que se constrói a partir da realidade e da experiência dos alunos.

Na aula de História de hoje, com que começamos este artigo, talvez se pudesse falar dos deuses egípcios, mas, como é possível que seja omissa - vergonhosamente omissa - sobre a biografia e o papel que um estadista com a dimensão histórica que Mário Soares teve para Portugal?  Que cidadãos forma esta História?