Editorial

De Srebrenica a Alepo

Às vezes reduzimos os factos a títulos, resumindo ansiedades e projectando expectativas. Mas na crise síria tudo é difícil entender, quanto mais explicar. A realidade raramente se compadece com desejos ingénuos de quem entende mal o que passa as fronteiras das democracias ocidentais. A realidade de Alepo é uma confirmação triste de tudo isto.

Fartos do regime brutal de Assad, muitos no ocidente esperaram que os rebeldes sírios pudessem dar sinais de uma nova primavera árabe. Esses sinais não vieram e o que chegou foi a ameaça do Estado Islâmico, que levou europeus e americanos a engolir em seco – e a deixar que o ditador sírio se aliasse aos russos, que aproveitaram a oportunidade para recuperar relevância numa região fundamental para o seu futuro imediato.

A queda de Alepo deverá significar o princípio do fim da guerra síria. Mas isso deverá representar o eternizar do poder de Assad e do seu regime brutal – para além de reforçar o peso de Putin na cena internacional. Ao mesmo tempo dará mais peso aos xiitas iranianos e iraquianos que quererão reforçar ainda mais o seu peso na região.

Nada no Médio Oriente é fácil, por vezes agir é tão dramático quanto ficar parado. E se a “libertação de Mossul” se parece de forma tão dramática com “a desgraça de Alepo” é porque podemos escolher olhar apenas para um dos aspectos da realidade. Mas ambas são desastres civilizacionais com consequências devastadoras para quem não fez mais do que nascer no bairro errado, no século errado. Isso, sim, é fácil de identificar: continuamos a deixar que a barbárie impere e se sobreponha a valores básicos de humanidade.

A Síria é um dos mais tristes falhanços de 2016, mas não é o único. Os corpos dos migrantes no Mediterrâneo ajudam a compor um ano particularmente infeliz para quem acredita que a moral se deveria sobrepor aos desmandos da geopolítica simplista que nos resguarda das tristezas alheias. Quando as equipas humanitárias entrarem na cidade-mártir de Alepo, todos vamos usar o Facebook para chorar a imensa destruição. Alguns de nós vão até doar umas camisolas ou umas latas de atum para apoiar as vítimas. Mas depois vamos voltar alegremente para as nossas vidas, até à próxima Alepo. Ou Mossul. Ou Srebrenica. Ou outro desastre qualquer em que tenhamos falhado também enquanto civilização.