Uma câmara fotográfica como extensão do corpo

Para o curador, investigador e jornalista alemão Hans-Michael Koetzle, é preciso mostrar a fotografia portuguesa ao mundo.

Hans-Michael Koetzle: "Não há dúvida de que existe uma boa tradição fotográfica em Portugal"
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Hans-Michael Koetzle: "Não há dúvida de que existe uma boa tradição fotográfica em Portugal" Enric Vives-Rubio

O que tornou a Leica uma marca tão querida pelos fotógrafos?
A Leica foi a primeira câmara de 35 mm de sucesso na história da fotografia. A combinação de um tamanho pequeno, um obturador subtil e lentes especiais tornou-a uma ferramenta de alta tecnologia e, certamente, a câmara mais sofisticada do tempo. No início, os fotógrafos profissionais recusaram usá-la (o preço, cerca de três salários mensais na época também foi um problema). Mas uma Leica pode ser usada durante muitos anos, o que a torna, de certa forma, barata. Uma nova geração de artistas, fotojornalistas e documentaristas aclamou o aparecimento da Leica

Existe uma cultura visual fotográfica exclusiva da Leica?
Há certas especificidades que criaram (e continuam a criar) um certo estilo que pode ser visto na maior parte das fotografias da exposição. É uma câmara pequena, leve e de manuseamento fácil, o que lhe permite estar sempre ao alcance e pronta para captar momentos inesperados. Depois, o uso do filme de 35 mm deu-lhe a possibilidade de fazer séries ou sequências sobre o mesmo assunto. Muito importante também: a Leica foi pensada para funcionar com lentes de curta distância. Isto significa que o fotógrafo tem de estar perto do sujeito, o que resulta em imagens mais íntimas e autênticas. Veja-se a fotografia de Bruce Davidson por exemplo: o fotógrafo faz parte daquilo que é fotografado. A Leica trouxe outro dinamismo à fotografia. A câmara passou a fazer parte do corpo do fotógrafo, passou a estar em movimento.

A exposição do Porto é diferente das outras?
No Porto houve a oportunidade de criar um espaço desafiante na bela Galeria Municipal. O desenho expositivo do arquitecto Tiago Casanova é emocionante e torna a exposição uma experiência extraordinária. Com a ajuda de Emília Tavares e do Centro Português de Fotografia, foi criado um núcleo especial de homenagem aos fotógrafos portugueses que usaram Leica. Claro que não é um trabalho completo, mas as imagens e os livros presentes na exposição mostram a importância destes fotógrafos.

Que importância atribui a esses fotógrafos portugueses?
Não há dúvida de que existe uma boa tradição fotográfica em Portugal. O único problema: a sua história não é bem conhecida no mundo. A maioria dos curadores e directores de museus acentua o que é conhecido. Em contraciclo, o objectivo desta exposição é combinar ícones da fotografia Leica com movimentos fotográficos pouco conhecidos. O contributo dos fotógrafos portugueses para a estética Leica dos anos 50 é extraordinário. O livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre é um tesouro da história da fotografia. Nos anos mais recentes, artistas como Paulo Nozolino surpreenderam o mundo da arte.

Há algum fotógrafo português que não conhecia antes da exposição que o tenha surpreendido?
Para ser honesto, não conhecia a maior parte dos nomes. Mas a Emília deu-me uma grande ajuda. Ele também escreve um importante ensaio no catálogo. Fiquei especialmente surpreendido com o trabalho de Victor Palla e Gérard Castello-Lopes. Jorge Silva Araújo também foi uma revelação. Temos de admirar o que estas pessoas conseguiram fazer durante uma situação histórica difícil, com uma ditadura, meios de comunicação deficientes e recursos económicos reduzidos, de certa maneira uma realidade distante daquilo que se passava no resto do mundo. O que mais me dá prazer agora é poder mostrar estes contributos ao resto da Europa e do mundo. E mostrar agora aos portugueses o que os seus conterrâneos fizeram com a Leica.