Luís J. Santos
Luís J. Santos

A viagem do sr. Olhos Grandes ao Japão

Uma semana dá para uma vida inteira a ter vontade de voltar. Vamos por Tóquio, Quioto, Hiroxima, pela natureza de Hakone, pela beleza da ilha de Miyajima, por vislumbres de Osaka. Uma viagem íntima sob o encanto do Japão.

Fiz sushi e meditação, recebi uma lição de vida em Hiroxima, lições de filosofia de um artista, conversei com meninas que pareciam desenhos animados, vi Godzillas e robots a dançar, neóns do tamanho do mundo, gritos de karaoke, pus umas orelhas de coelho. Andei por ruas com milhões, ruelas e bares para seis convivas, cruzei o país em comboios-bala, parei o tempo em jardins zen, flutuei em templos e edifícios, fui rebaptizado como Sr. Olhos Grandes, fiz amigos. Eu vi plantar um clone de uma cerejeira com 400 anos. Tenho que voltar para ver a minha árvore. 

Tóquio, um futuro

E se de repente um viajante aterrar em Tóquio por volta do meio-dia vindo doutra ponta do mundo, trazendo no corpo umas 20 horas de voos e aeroportos e um salto de oito horas no seu fuso horário natural? O que fazer? Descansar? Era o que faltava. A minha guia, no seu português aprendido no grande bairro japonês fora do Japão (o da Liberdade, em São Paulo), treme no sorriso e no relógio, que o tempo aqui é mesmo regulado ao segundo. É chegar ao hotel, arregalar os olhos para a cidadela que é a minha casa por duas noites, um dos grandes hotéis da cidade com as suas torres – que afinal são apenas mais duas nesta área de Shinjuku dominada por prédios de tirar o fôlego –, perder-me logo entre elevadores e pisos e os 1500 quartos. Tenho 20 minutos para mudar de roupa, descansar, tomar duche. Preparados?

Um pé na rua e Tóquio abalroa-nos de imediato. A exuberância da megametrópole é impactante a cada passo por este bairro onde está a mais movimentada estação de comboios do mundo, uma aventura por si própria – junte-lhe o imenso metropolitano e temos o caos instalado (na nossa cabeça). Os olhos fogem-me para os céus, arranham os prédios, caem-me no chão à procura de espaço para o corpo. “Tóquio vem do futuro”, li algures. Seguimos pelas ruas de Shibuya, por Harajuku, olimpos das compras, tento sobreviver à corrente humana que pulsa pela capital japonesa. É complicado e o jet-lag só complica mais. Mas consigo seguir Naomi para o nosso encontro com umas das maiores embaixadoras do Japão no primeiro “templo” de muitos desta viagem.

Este é especial e a religião é outra: chama-se KiddyLand e conheço muito boa gente que passaria de bom grado o resto da semana aqui. São seis andares sob o mote “paraíso dos brinquedos”. Há bonecada, japonesa e americana e etc., para todos os gostos, mas Hello Kitty é omnipotente e omnipresente. A birra aérea faz-me resistir à sedução da gatinha-menina e fujo da loja a sete pés, cruzando fãs da bonecada, piso a piso, que se exaltam a cada novo personagem, a cada nova roupagem, a cada nova Kitty, até com o Charlie Brown (tenho selfies que provam isto tudo).

Como hei-de aprender rapidamente, atrás das grandes avenidas sobrepovoadas há sempre algures, nos interstícios do gigantismo do betão – enquanto um “Big in Japan” continua a tocar-me em loop na cabeça –, umas ruelas para respirar fundo antes de voltar a mergulhar na multidão. “Por aqui, por aqui”, vai-me dizendo a minha nova amiga Makiko, jornalista e auxiliadora de visitantes lost in translation (sim, para a lenda da viagem, ela será a Scarlett deste filme). “Por aqui há uma ruazinha com uma esplanada onde se pode beber um cafezinho e fumar” – atenção fumadores: Tóquio é praticamente toda proibido-fumar, bairros inteiros, em todas as ruas; é preciso encontrar a smoking area ou ir a um bar ou restaurante com espaço de fumos.

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Shibuya

Cá fora, lá vamos nós, num desfile de prédios de “arquitectura zen”, como me diz Makiko, “uma tendência linda muito actual”, tipo minimal high tech meets zen. São belos, de facto. Além fica Omotesando, zona de modas, grandes marcas, galerias, forças gourmet. A meio da tarde, exércitos de trabalhadores deslizam os fatos mais afinados que me já foram dados a ver e fazem caminho neste caos ordenado, por entre grupos de jovens onde cada subcultura é marcada por uma identidade tão única quanto colectiva – feita de símbolos, roupas e bonequinhos, tatuagens, cortes e cores de cabelo do arco-da-velha. Eles sabem os passos todos, eu é que ando sempre a embater nesta cacofonia, como se estivesse num videogame qualquer, o pacman provavelmente, a tentar sobreviver no labirinto até conseguir devorar tudo o que me seja possível devorar, até devorar o Japão. A calma só vai chegar com uma aula de sushi com o sr. Sushizanmai, na escola Kiyomura Juku – na zona de Tsukiji, onde fica o mais espantoso e movimentado mercado de peixe.

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O sr. do sushi, Shimoyama Luís J. Santos

A noite cai sobre Tóquio e a cidade começa a vociferar em neóns, embora, obviamente, a capital japonesa até dispense a escuridão para acendê-los. É todo o santo dia. Milhões deles, uma poesia visual que nos invade. Ando a catrapiscar entre gigantescos anúncios e ainda hoje sonho com desenhos de luzes, bonecos e caracteres japoneses. Naomi e Makiko vão-me guiando por este caleidoscópio que deixa qualquer português rendido pelo choque contínuo. “E por que anda tanta gente de máscara na boca e nariz?”. “Oh, uns é porque estão gripados, outros porque não querem gripar”. O certo é que é opção de muitos e refira-se que, para a dimensão, Tóquio até tem uma qualidade de ar satisfatória, segundo as medições oficiais.

Vamos por Ginza, coração vibrante da riqueza japonesa, sítio fino, milhões pelas ruas, como sempre, os prédios a faiscarem de neóns. Vamos num entra-e-sai de lojas e damos por nós no Dover Street Market, grandes armazéns que albergam luxos de Prada a Vuitton e que são também uma instalação artística. Há ali uma escultura dum grilo gigante a olhar-se no espelho que me vidra. Há vendas e exposições, artes e a fina nata da vanguarda da elite japonesa cool e com muitos ienes na carteira. Para não sentir palpitações, é melhor desviar o olhar dos preços nas etiquetas, é melhor descer à cadeia japonesa Uniqlo, mais em conta, ou subir ao último piso. “É um segredo”, diz-me Makiko. No topo, a céu aberto, um jardim nos ares com um santuário xintoísta, Tenku Jinja, que, embora na localização mais moderna da cidade segue todo os preceitos tradicionais. Um sossego com vista para o desassossego de Tóquio. Respira fundo, desce de novo à terra.

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Kabukicho, Shinjuku-ku Luís J. Santos

Cá em baixo, entramos no fabuloso e exclusivíssimo supermercado, de onde entre cogumelos a centenas de euros e vegetais que nunca os meus olhos tinham visto a preços idem, ibidem, surge uma prendinha doce para mim. Makiko compra-me uma fatia de kasutera, melhor dizendo castella, melhor dizendo o pão-de-ló japonês que deve tudo ao pão-de-ló levado pelos portugueses. E por acaso aqui pela zona fica um dos restaurantes preferidos de Makiko, sim é português (há muitos mais pela cidade e país) e chama-se Manuel (há mais Manuéis ou um Caravela) e até tem fados. Querem melhor final feliz para a primeira noite?

Está bem. Entramos no colossal prédio da Nissan, o Nissan Crossing, onde brilham exemplos extraordinários da indústria automóvel japonesa. Algures por um dos pisos, uma diversão maravilhosa: um portal de realidade virtual permite-me, com os óculos especiais, conduzir um Nissan pelas curvas de Monza. Quem diria que o jet-lag faria de mim tão bom condutor?

Depois desta adrenalina e de novo mergulho na noite de Tóquio, enquanto os meus 14 milhões de vizinhos parecem ainda estar todos na rua, conduzo-me até ao meu hotel-cidadela. Entre HelloKittys, sushis, hightechs, neóns, a imparável vida desta cidade, a minha cabeça é um farol. Foi longo o primeiro dia, naturalmente, e termina comigo a olhar das janelas do meu quarto no 33º andar para a vizinhança da frente, um portento do poder local. É o prédio do governo metropolitano. Sobe a 243 metros e duas torres. Num longo dia de corridas para o passado e para o futuro, eis aqui os sinais do futuro que se segue. A decoração deste titã são apenas dois cartazes onde se lê Tóquio 2020, sob anéis olímpicos. O futuro está à porta.

Tóquio, um filme

Reerguida das cinzas, destruída pelas bombas da 2ª Guerra Mundial, esta cidade, toda ela novíssima, é deslumbrante nas suas idiossincrasias. E por que nós portugueses nos vamos dando tão bem com os japoneses, pergunto-me? Desconheço a resposta, mas com mais língua ou menos língua (o inglês é, ao contrário do que se possa pensar, pouco frequente), há um qualquer elo secular. Será porque chegamos ao Japão já lá vão quase cinco séculos? Está bem que foi particularmente para cristianizar e negociar (foco: espingardas), é um facto. Mas há uma relação qualquer de afecto aqui, garanto-vos, e isto deixou heranças na língua, na gastronomia, na cultura. “Porque toda esta gente do Japão é naturalmente muito bem inclinada e conversável”, já escrevia Fernão Mendes Pinto na sua seminal Peregrinação (lembra-te de fazer sempre uma vénia bem inclinada a cada cumprimento e despedida) – só é pena a maioria falar naturalmente japonês.

Mas o segundo dia é passado pela mão de Masatoshi Watanabe, que fala português, espanhol e catalão e aprendeu isto tudo na também minha Barcelona. Isto vem a propósito daqueles momentos inesquecíveis que cada um de nós tem nas suas viagens. Sabem aquela de um português e de um japonês num comboio-bala a uns 300km/hora (sendo que o extraordinário Shinkansen pode acelerar ainda mais) pelo Japão fora a cantarem o hino da Catalunha num catalão quase perfeito? Pois. É o que vai acontecer mais logo.

Por agora, Luís e Watanabe vão pela Tóquio mais tradicional, pelos vestígios do que sobrou. O programa aqui é mais convencional, com obrigatória e abençoada paragem nos jardins do Palácio Imperial (que só se pode espreitar em ocasiões especiais), onde reside a família imperial, outrora o castelo da era Edo, tempo do poder dos shoguns até estes serem superados pelo imperador, na altura em que a antiga capital, Quioto, foi trocada pela nova, Tóquio, em meados do séc. XIX.

Além, as cerejeiras em série, que na Primavera são um espectáculo sakura por si só. Aqui, um parque imenso, pulmão de Tóquio, por onde espiamos pontes, jardins e jardineiros, sumptuosas portas de entrada, casas de guardas – e até, por entre a folhagem, nós e demais turistas nos entretemos a ver à distância os agentes em vestes tradicionais nos seus treinos marciais, no caso, kendo, quis-nos parecer pelo tak-tak tak-tak das espadas de madeira.

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Luís J. Santos

É um passeio demorado e prazenteiro que abre o apetite, por isso, para interligar a História imperial e actual, vamos agora por Nagatacho, no centro político do país - zona do Parlamento e da residência do primeiro-ministro - e por muito do imaginário do Japão à mesa. Porque saltamos logo a seguir para um restaurante de cinema, o Kurosawa. Sim, precisamente como o grande Akira, que tanto Japão deu ao mundo nos seus filmes – e que no meu caso é muito do meu olhar para este país. 

Sapatos à porta (como em todos os locais que usam tatami, o tapete japonês), casa rústica de madeira que parece saída das películas, salinhas quase íntimas, este Kurosawa, ligado à família e equipa do realizador, presta homenagem ao mestre, confesso apaixonado pela gastronomia. Ora aqui, cercados por grupos de profissionais a almoçar (por acaso nem dei por turistas, “vêm aqui muitos políticos e famosos”, segreda-me Watanabe), passados corredores decorados com posters e memorabilia de filmes do criador (olha os Sete Samurais, o Ran, o Yojimbo) é tempo para deleite, soba (massa japonesa), shabu shabu (um cozido, porco, vaca), sopa de miso ou muito especialmente de tempura, mais uma herança lusa, tipo peixinhos da horta, aqui em edições vegetais ou de mariscos. Duas bolas de perfeito gelado de chá verde selam o filme do almoço, um chá serve de brinde ao sr. Kurosawa que à saída deste cenário me observa com um semisorriso de fotografia e óculos escuros e a quem rapto um envelope com uma dúzia de belos postais com imagens de storyboards dos seus clássicos. A sua bênção, mestre.

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A tarde será passada noutra estranha mistura de tempos, da religião ao universo anime (a animação japonesa que mudou para sempre a nossa infância e a forma como vemos o Japão), melhor espelho duas faces do Japão é difícil. Bem tentaram os portugueses e particularmente São Francisco Xavier no séc. XVI, convencer os japoneses que o cristianismo é que era. O budismo e o xintoísmo venceram mas a pregação do jesuíta deixou marcas. A ilha do sol nascente, um dos poucos países asiáticos a escapar ao colonialismo europeu – o que lhe terá dado força anímica, bélica e espiritual para tornar-se uma força colonizadora e imperialista – optou cedo pelo budismo e pelo seu particular culto do xintoísmo, embora inicialmente tenha recebido bem e guardado boas memórias e ensinamentos de Xavier e companhia – “São Francisco de Xavier é ainda hoje em dia mais conhecido no Japão que o Cristiano Ronaldo”, hão-de garantir-me, se bem que, na minha viagem, o jesuíta tenha perdido com o futebolista 2-0 o jogo da fama: zero referências para Xavier, um belo par de anúncios de Ronaldo.

As duas religiões dominantes convivem no dia-a-dia, beberam e bebem uma da outra. O xintoísmo é uma crença animista praticada no país desde a Antiguidade, uma devoção à Natureza, aos antepassados, a muitos (muitos) deuses, que abarca o tudo e o todo – lembremos aqui que este moderníssimo país superindustrializado com mais de 127 milhões de pessoas, um dos maiores e com maior densidade populacional do mundo, é sistematicamente afectado por catástrofe naturais, por terramotos e tufões. O budismo japonês, repartido por várias correntes e seitas, convive diariamente com a prática xintoísta, “o caminho dos deuses”, tanto nas casas, como nas ruas, como nos templos das duas fés, que frequentemente são vizinhos. Deuses e espíritos são kami. E kami pode ser qualquer coisa (“temos oito milhões de deuses”, diz-me Watanabe).

É no centro dessa união de fés que estamos agora, em Asakusa, bairro tradicional onde ainda se sente o passado e afluem milhares de turistas. Porque aqui está o imponente templo budista Sensoji, o mais antigo da capital, que remonta ao séc. VII. Toda a gente quer fotografar-se na bela porta de Kaminarimon, um ícone com os seus pilares decorados, divindades e gigantesca lanterna vermelha. Às portas do templo e do pagode, reconstruídos após a Segunda Guerra Mundial, crentes e visitantes aglomeram-se pela velha rua comercial de Nakamise, centro de peregrinação dos fiéis dos souvenirs e dos petiscos – há-os para todos os gostos e vale a pena também dar um salto às lojas das redondezas por Shin-Nakamise e Kappabashi.

Ali pelo caminho, um painel de Omikuji dita-nos o destino: é meter uma moedinha, abanar um tubo, receber um número, retirar da respectiva gaveta o papelinho. A mim, sai-me uma “sorte regular” e fico a saber que “se for um bom guerreiro, poderia conquistar e controlar um país inteiro com apenas uma flecha” (espero que seja uma metáfora, que o teclado é mais forte que a flecha). E que “é boa altura para começar uma viagem”. Se a sorte lhe sair má, faça um nó com o papelinho e deixe-o ali amarrado, “para imobilizar os maus espíritos”. Eu trouxe a minha, que os deuses sabem muito. E sabem até conviver: mesmo ao lado do templo, por onde agora vejo a brincar um menino japonês vestido de Super-Homem (os EUA estão por todo lado), está o santuário xintoísta de Asakusa, muito mais calmo e sóbrio nos seus mais de três séculos. Passeiam-se grupos de meninas em quimonos coloridos, vistosos, floridos, visão rara nos dias de hoje. “Turistas”, explica-me Watanabe, “quase todos os que vires de quimono são turistas que alugam a fatiota para se divertirem e fotografarem, os quimonos dos locais são muito discretos e de cores sóbrias”.

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Sensoji Luís J. Santos
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Sensoji Luís J. Santos

Outro Japão espera-nos em Akihabara, bairro feérico para onde se encaminham todos os nerds, fãs das tecnologias e electrónica, todos os otakus – que centram a sua vida no culto obsessivo de algo, especialmente da manga e do anime. Ainda para mais muitos deles vestidos como os personagens que veneram. Meninas vestidas de heroínas anime, meninos à dragon ball, é um sem-fim de animação. Esta é a Cidade Eléctrica. Prédios com neóns? Aqui há neóns com prédios. Rolam vídeos, sopram desenhos animados, rodopiam antropomorfias e efeitos especiais. Luzes, câmaras, animação! Os meus olhos fazem zappings imparáveis.

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Akihabara Luís J. Santos

Cumprimento o Super-Mário, espreito a Sega, bancas de revistas, faíscam salas de videojogos, máquinas, lojas de gadgets e toda a panóplia tecnológica imaginável. “É o paraíso da fantasia”, resume Watanabe. Ora para habitar tanta faiscante fantasia, onde nos poderemos sentar? Talvez num dos muitos cafés-fantasia do bairro, como o Maidreamin Heaven's Gate, onde tudo fofinho, querido, cute, moe moe, e as meninas se vestem de criadas “inocentes”.

Cá fora, a cidade parece-me agora saída do Blade Runner. Para logo a seguir, parecer-me dos tempos dos samurais, mal entramos no Sengoku Buyuden, um izakaya (a taberna japonesa), por Shinjuku. O que é natural, é mesmo um restaurante que homenageia os guerreiros, entre armaduras e reservados com pinturas que imitam as dos seus castelos e retiros. É neste cenário de filmes (mesmo) que relaxamos entre sashimis e espetadas (eu vi ali carne de cavalo na ementa?). Umas cervejas e uns sakes preparam-nos para o acontecimento seguinte, que bem vamos precisar de uns copos.

O corrupio de gente e barulho por Kabukicho, tradicional bairro da luz vermelha de Shinjuku, é uma obra de arte e hoje em dia centro de atracção para turistas, hipsters, viciados em doses várias da má vida (infelizmente, não tivemos agenda para inspeccionar os verdadeiros red ligth spots…). Por ali, um ovni cintila numa musiqueta repetida à exaustão e em luzes popcirco. É o Robot Restaurant que, apesar do nome, é afamado pelo dito show e não pela comida (aliás nem comemos), top das atracções para turistas pelo seu espectáculo maluco com robots, bailarinos e músicos.

Depois disto, por favor, dêem-me um sake ou um whisky japonês (do melhor do mundo) num qualquer barzinho das ruelas da Golden Gai (cidade dourada, por sinal), dois dedos de conversa (pode ser no Kodoji, bar de fotógrafos) e estou arrumado.

Esta Tóquio é uma confusão maravilhosa e um jogo de cintura contínuo entre a alta tecnologia e a tradição enraizada nos corpos. Enquanto sigo Makiko que, no seu vestido vermelho, rola a sua bicicleta por ruelas e pela noite, sei bem que esta Tóquio de filme ainda me vai dar insónias. E saudades.

 

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Golden Gai Luís J. Santos

A paz de Hakone 

Durante toda esta semana outonal é o calor que impera neste nosso Japão. Depois de Tóquio, precisamos de paz e frescura. E a escolha é Hakone, no parque natural de Fuji-Hakone-Izu, caldeira em monte vulcânico (nota: activo, hoje calmo, há notificações diárias). De vez em quando vislumbro o vizinho Monte Fuji, mas hoje está enevoado e só o pressinto, ainda assim, de vez em quando, catrapisco esse deus natural.

O romântico comboio Romance Car (é mesmo romântico, bendito) leva-nos pelo campo – acompanhados de muitos grupos de senhoras idosas a papaguear, afinal vamos para as termas – até à verdura montanhosa de Hakone em hora e meia. E deixa-nos à beira do rio Haya-kawa, onde me perco a ver uma garça pesqueira nas pedras a tentar apanhar um peixinho na corrente. Parece o rapaz do Karate Kid em posição de ataque.

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Lago Ashinoko Luís J. Santos

Temos montanhas, grande lago, fontes termais a pulular por toda a região, complexos hoteleiros baseados nas águas, ryokans (os tradicionais albergues para dormir em futons), banhos públicos, bons ares (tirando o cheirinho a enxofre, particularmente no vale vulcânico, beleza infernal e fumarenta). Um descanso. Vivida a lufa-lufa toquiota, acredite, vai saber muito bem pelo menos um dia de paz em Hakone.

Ora a nossa serena agenda passa por passeio de autocarrozinho a serpentar curvas acima até à Hamamatsuya (Hakone-machi), área de artesãos e seus ateliers, onde está uma metáfora da região: marchetaria, artesanato de origem demarcada. A primeira paragem dá-nos a calma da oficina do sr. Ichiro, onde brilham caixas e caixinhas secretas com muitos segredos…

Ainda com o som da madeira a ecoar nos tímpanos, vamos embalados pela brisa e pelo arvoredo, spirited away, animados até à origem do curso do rio, o lago Ashinoko, na parte ocidental da caldeira do vulcão. Espera-nos um cruzeiro breve em barco turístico que cruza o lago. O cruzeiro imita um veleiro (em kitsch puro) algo entre descobridores e piratas – há estátuas de capitães e à Barba Negra por aqui, os turistas disparam selfies como se fossem a Mona Lisa. Mas há que dizer que as vistas do lago – mesmo que agora em cenário enublado –, margens verdes e montanhas, templos e casinhas, são admiráveis.

Chegados à margem, o ideal seria apanhar o teleférico, que vemos ali pelos ares, para arregalar ainda mais os olhos. Mas está em manutenção. Vamos de autocarro até avistarmos o vale vulcânico de Owakudani. Aposto que em dia limpo a paisagem é ainda mais impressionante. Num dia como hoje, sob um céu de chumbo, cortina de nuvens, fumos vulcânicos a escalarem o vale, só nos resta a imaginação até onde a vista alcança, a dois palmos de distância. E provar os, esses sim, estranhos ovos negros (kuro tamago) locais.

São cozidos nos fornos do vulcão e têm direito a um teleférico que os carrega até às “cozinhas”, proibidas para seres humanos. Caixas vão pelos ares, desaparecem nas nuvens e nos fumos e voltam tempos depois com os ovos cozidos e pretos. Ovos das furnas, digamos. O enxofre q.b. fará bem à saúde? É que dizem que comer os ovos dá-nos sete anos extra de vida. Já vos direi um dia destes. Isto é toda uma arte por si própria. A próxima – a que chegamos no delicioso comboio de montanha – Hakone Tozan, vai de Hakone-Yumoto a Gora num passeio cénico – é mais convencional e mescla artes de jardins com as da Natureza e com as da mão humana.

No Hakone Open Air Museum integram-se a céu aberto mais de uma centena de grandes esculturas, de Miró a Rodin e Henry Moore, incluindo uma galeria de Picasso. Vais passeando e surge-te uma Vénus, uma gigantona miróana, um ícaro a subir aos céus por entre as árvores, um rosto tamanho casa caído num jardim. Toda uma experiência orgânica nascida graças a um controverso Balsemão/Berardo japonês, o sr. Shikanai, já falecido, milionário que fundou o gigantesco grupo media Fuji Sankei e se tornou um megacoleccionador de arte. O passeio é visceralmente gratificante.

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Hakone Open Air Museum Luís J. Santos

“Todos os dias passeio hora e meia logo de manhãzinha, por trabalho e prazer. Todos os dias descubro uma perspectiva, algo novo e admirável”, sorri-me Tsujii Yuri, responsável do museu – o grupo tem outro espaço ao ar livre em Nagano e outro museu em Tóquio. “A colecção é muito grande”, diz-me Tsujii. Acredito. Aqui mesmo em Hakone, a cada temporada muda a Natureza (a região esgota para ver as cores outonais ou primaveris) e podem mudar também obras e exposições. Com o museu a fechar, ao lusco-fusco, há algo de fantasmagórico e belo em tudo isto.

À noite, adormeço num quarto com grandes janelões que só deixam ver árvores. Ao longe oiço as águas correrem. Uma bonança que antecipa a chegada àquela que é a (minha) meca desta odisseia japonesa, a eterna Quioto.

Chegar a Quioto e viver

Confissão íntima: sempre sonhei ver Quioto. Por isso é com uma alegria infantil que salto do comboio-bala e me sinto em casa. Coisas do mundo, dos homens e dos deuses – e, não em vão, estou certo, o que vivi em Quioto ainda vai criar asas no futuro.

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Por Quioto Luís J. Santos

Antiga capital, Quioto (perdoem o cliché) tem um charme irresistível, entre o zen global, os templos e natureza, os bairros de dimensão humana. Esse charme, e importância histórica e artística mundiais, tê-la-á salvo de danos maiores na 2GM.

Os nossos primeiros passos na cidade são para a modernidade (no caso, o cool hotel New Miyako). Os seguintes são para a intemporalidade. No bairro de Kamigyo-ku, pelas ruas estreitinhas, casinhas baixas, ambiente de aldeiazinha, catrefada de fios a cortar os céus, oficinas e frutarias, mercearias e lojinhas, há um Japão que vive na Tondaya, velha casa e património, onde se pode entrar pela História adentro e fazer parte de actividades icónicas, como a venerada cerimónia de chá.

Sacralizados pela cerimónia, estamos prontos para cirandar pela Quioto eterna, abençoada pelas águas e cercada por montanhas, que começa a mostrar a sua exuberância natural de telas outonais, um avermelhado ali, uma folhagem a amareceler ali. Hai. Em cada canto parece haver uma nova beleza e um Património da Humanidade – e em cada canto há um turista, fazemos todos parte da multidão, Ainda assim, tirando as grandes atracções, dos templos idílicos aos jardins zen, nem é muito difícil encontrar recantos pacatos.

Como é o caso, apesar de concorrido, do Castelo de Nijo, epicentro da cidade tão grande que permite escapar, aqui e ali, às massas. É que Quioto é a cidade mais popular do Japão para os turistas, com mais de 50 milhões de visitantes anuais para uma cidade de milhão e meio de habitantes. Sendo que, aliás, a política de crescimento do turismo local é promessa lapidar dos governantes, em particular do presidente da câmara.

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Parecia um dia de Verão do séc. XVII, quando andávamos a passear por este complexo nascido nesse mítico período dos senhores da guerra: foi a residência do primeiro shogun do período Edo, depois palácio imperial, sempre uma das mostras mais belas dos tempos feudais. Do Castelo de Nijo, verde mundo, séculos de história nos contemplam em 28 hectares. Passadas as suas muralhas de pedra e os seus imponentes portões, admira-se o palácio de Ninomaru, feito de cinco edifícios separados, em cipreste, interligados por rangentes corredores a que chamam “soalho rouxinol” e que têm a sua melodia – portas deslizantes, tectos e paredes de decorações e pinturas que são obras-primas. Conquistam-se os seus infindáveis jardins e lago, catrapisca-se o icónico vestígio do palácio de Honmaru, contornam-se o lago e os infindáveis jardins de miríades de folhagens e árvores, de pinheiros a ameixeiras e ginkgo e centenas de cerejeiras (sempresempre as cerejeiras). E até se podem de súbito avistar monges e figuras de poder a passearem-se por Nijo, cruzando os tempos.

Se Nijo é uma das maiores atracções da cidade, a seguinte é até o seu ícone. Duas palavras: Pavilhão Dourado. É o monumento que se segue e o postal mais célebre de Quioto, esplendor de beleza originador de obsessões como a que Yukio Mishima – um homem com outras tantas obsessões e ideais que o levariam ao mais célebre e marcante dos suicídios, o harakiri dos samurais – compôs para um monge budista no livro com o nome do monumento. Este Kinkakuji (ou Rokuonji) é templo zen renascido, coberto a folha dourada, com uma fénix dourada a coroá-lo, circundado por um lago-espelho, envolto por exuberantes jardins e caminhos. Os elementos unem-se para a harmonia; os olhos, a alma, o corpo, rendem-se à beleza. Retiro do shogun Yoshimitsu, vindo do séc. XIV, como acontece pela História e por muitos monumentos do país, ardeu e voltou a ser reconstruído (e outra vez e outra vez), sendo que cada piso tem um estilo arquitectónico próprio. O que estamos a ver data de trabalhos da década de 1950. Quem diria, hein? Faltam as palavras, há que ver para crer, enquanto olhamos para as estátuas eternas dos seus poderes, Buda e Yoshimitsu.

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O neto deste último, Yoshimasa, noutra época conturbada, inspirou-se no avô e deu-nos outra formosura que veremos só amanhã (mas que merece entrar já na história), o Ginkaku-ji, que por contraponto, além de ficar na parte leste da cidade, no sopé do monte Tsukimachi (algo como monte de esperar a Lua), é o Pavilhão Prateado. Agora repare-se que o Ginkaku-ji – apesar de oferecer belas vistas para a cidade e garantir passeios por jardins que são uma lição histórica de arquitectura de paisagem – não tem prata nenhuma. Surge-nos assim, a meio da tarde, entre o castanho acinzentado, com um cone de areia construído há séculos como pináculo para o luar. É que é precisamente a lua, no caso, a artista maior: o pavilhão resplandece em fulgurante prateado quando o satélite sobe pelo monte e lança a sua luz sobre Ginkaku-ji. Falta-nos a lua (há que voltar, já sei) mas facilmente apreendemos o poder, o mistério e arte de tudo isto. No recinto está também um essencial salão de chá: é considerado o auge da perfeição de tais espaços e as suas medidas, linhas, desenho e tudo o mais são o padrão para as salas cerimoniais. Por aqui e ali, vou espiando muitos turistas, até casalinhos de mão dada, vestidos de quimono tradicional. E pelas ruas, de vez em quando, uma senhora japonesa mostra, indiferente, a elegância viva do traje. O quimono é um mundo e uma arte, por isso mesmo é o mote da nossa próxima paragem, onde nos aguardam surpresas e inesperados afectos.

Venha daí a Arashiyama, nos arredores da urbe, ambiente de vila protegida pela montanha homónima, cenário idílico em redor do rio Katsura, cruzado por uma icónica ponte de madeira, Togetsukyo (algo como ponte para a lua). Ele é floresta, é água, é templos – o zen Tenryuji fica aqui, tal como a floresta de bambu de Sagano, locais imperdíveis que iremos perder em nome do imprevisto – é calma. E casas tradicionais, aquelas obras-primas de madeira e delicadeza, como a de Yusai Okuda, pintor e mestre de uma redescoberta arte de pintar quimonos, tecidos e telas, um artista que já representou o Japão até numa célebre exposição no Louvre de Paris.

Quioto é um monumento

Dois dias para Quioto é nada, isto precisava de uma vida. Mas vá, tenho um dia mais, vou imaginando que atrás do tempo tempo vem, hei-de voltar com tempo. E, agora, tenho uma guia em inglês que me dará uma lição contínua de História em movimento, arte, quotidiano e detalhes da cidade e do país. Com Hiroko Kara, faço o percurso do turista tradicional local por alguns dos sítios indispensáveis no mapa leste de Quioto. Depois do naturalismo de Yusai à noite, a manhã começa prazenteira e budista no templo de Nanzenji, protegido pelas florestas da montanha de Higashiyama, tendo à porta os pilares de um curioso aqueduto moderno (bom, do séc. XIX).

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Este é um coração zen do rito Rinzai, complexo de templos e jardins, desde o séc. XIII. Como sempre, guerras e martírios destruíram partes, entretanto reconstruídas. Chegamos cedinho, felizmente há pouca gente, que o que vamos ver dispensa multidões. Passado o grande portal de Sanmon, é deambular. Templos, salas e pinturas são admiráveis mas a minha meca é numa espécie de clímax espiritual: cheguei aos jardins zen dos meus sonhos. As palavras tomam forma de árvores, pedra, água, musgo, terra, gravilha a ondular, a Natureza humana e divina em substância de jardins zen, repletos de simbolismo e perspectivas. Hiroko Kara sabe tudo sobre isto e coloca-me nos sítios exactos para a visão precisa. Ondulo os olhos pelos detalhes e continuo a encantar-me ao som repetitivo de uma cana de bambu que ora bate na bica de uma fonte e se enche de água ora descai, cheia, e se esvazia batendo na pedra. Ploc, silêncio, ploc. E repete. Isto é sagrado, isto é ciência.

O passeio leva-nos depois por Okazaki, e logo a começar por um contraponto xintoísta, o santuário Heian (o antigo nome de Quioto). Tem pouco mais de um século mas é um achado, dedicado às almas do primeiro e último imperadores na cidade (Kammu, Komei). Passas o enorme portal torii e abre-se espaço por todo o lado. É dia de passeio para muitas famílias, que trazem aos deuses os seus filhos, vestidos de forma tradicional. Sim, é fofinho. E real e religioso. Respeitamos os ritos e, após uma passagem pelo vizinho (e moderno) Miyako Messe, com o Centro de Artesanato de Quioto – que é museu e loja e vale mesmo a pena para ter de uma vez só uma ideia de tudo o que estas mãos fazem, da caligrafia à madeira –, mudamos de filosofia.

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Vamos de passeio pelo Passeio do Filósofo, em Higashiyama, por entre cerejeiras (na Primavera isto é, garante-me Hiroko, uma beleza) e pelas margens do canal. O caminho chama-se assim porque era usado para meditar-a-andar pelo filósofo Nishida Kitaro, um dos mais importantes pensadores do séc. XX japonês, um homem que analisava as filosofias ocidentais e orientais para encontrar caminhos. Esse entrecruzamento é vivido por mim e por muitos turistas (ocidentais, sim, muitos), que agora repisamos os passos de Kitaro por este belo cenário tornado atracção turística. Portanto, logicamente, pontuado por lojas em série. O sítio mais pacífico da zona está mesmo a dois passos e é um passeio particular: um cemitério revela-se por entre o arvoredo da montanha, num respeito de pedra e símbolos. Para ganhar forças logo a seguir, udon: uns noodles rápidos e deliciosos ao balcão de um sítio de referência e de bom agouro, o restaurante Omen, especialista em massas. Depois, para sobremesa, cruzamos Quioto para doçuras especiais. E portuguesas.

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À tarde, ainda teremos tempo para mais passeios, pelo Pavilhão Prateado e pelo templo de Kiyomizu-dera, um apuro budista em vários edifícios num complexo que remonta ao séc. VIII e se eleva em madeira por entre as árvores e jardins, cataratas e santuários, onde se vislumbram águas com poderes para dar sorte e vida. As vistas desde Kiyomizu-dera, assinale-se, são belíssimas. Em volta, ruas cheias até ao tutano de lojas e turistas. É seguir pelas ladeiras e escadinhas de Ninenzaka e Sannenzaka. Ali abaixo, vemos os riquexós puxados por rapazes com corpos de aço, hoje em dia ímanes turísticos. “Ei, isso não cansa?”, pergunto eu a Yuta Sado, 32 anos, ar de 20, desportivo fato ergonómico e botas Tabi nos pés, botas em que o dedo grande do pé está separados dos outros (nota mental: pôr na lista de compras um par destes engenhosos cascos). “Não, habituas-te, até dá saúde”. “Mas há-de chegar uma idade que já não dá…”. “Pelo contrário”, contrapõe ele, férreo, “é para sempre”. Ainda assim, o que ele preferia ser era guia turístico, o que de certo modo já é, convenhamos, dá é mais corpo ao manifesto.

Daqui é um salto até outro bairro mitológico, Gion, a terra das gueixas. Estas muitas vezes incompreendidas artistas do entretenimento continuam de saúde, muito graças, actualmente, ao turismo (e a obras como Memórias de uma Gueixa, que mantém a lenda viva e trazem aqui milhares e a cenários como o templo de Fushimi Inari Taisha). “Actualmente, há umas 200 gueixas – geiko – e 70 aprendizes, as maiko”, conta-me Hiroko. Espiamos pelas janelas as casas tradicionais de madeira, as casas de chá, os espaços das vidas das gueixas, as suas escolas, ruelas e travessas que albergam um fascínio irresistível.

Variações das artes do entretenimento e de outras tradições japonesas estão todas no espectáculo que nos espera, no Gion Corner, sala de espectáculos a que acorrem maioritariamente os turistas para, por uma hora, apreciarem sete (sete!) quadros artísticos. Aos meus olhos, uma cerimónia do chá, uma sessão de harpa koto, até de arranjo de flores (kado), música dos tempos da corte Gagaku, teatro cómico vetusto (kyogen), a dança elegante kyo-mai das gueixas de Gion, o teatro de bonecas (bunraku). Uma hora de imersão rápida. Ideal para aperitivo do jantar, um luxo num banquete sagrado chamado Kaiseki, com direito à visita de uma futura gueixa.

 

A memória de Hiroxima 

Enquanto volto a acelerar no comboio-bala, agora rumo a Hiroxima, é inevitável que as memórias dolorosas da bomba nos acompanhem. Para distrair-me a mente, compro mangas (gigantes, centenas de páginas cada revista), dos quais, naturalmente, não percebo uma palavra, mas vou admirando lutadores de sumos, paixões pueris, aventuras de animais, labirintos urbanos e deuses enquanto o Japão moderno se pinta numa tela a alta velocidade na minha janela. Chove em Hiroxima quando chego com a minha guia, Yasuko Noguchi. É um dia cinzento e lacrimejante. Houve que me perguntasse, já em Portugal, se a cidade não estava ainda “meio destruída”. Realmente o Japão é muito longe. A resposta é, pouco niponicamente, um rotundo não. É uma cidade viva e vibrante. Visito-a pela memória mas sinto-lhe essa vida a cada passo. Nada se esquece mas a vida continua, apesar desses letais momentos de há sete décadas, quando a cidade e Nagasaki sofreram bombardeamentos atómicos na 2GM.

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Chegamos até a tempo de uma celebração mundial de vida e sobrevivência: o almoço. Primeira paragem, Okonomimura, um prédio que é um paraíso do okonomiyaki, estilo tradicional de comida rápida em pequenos recantos e onde a mesa central para todos é uma chapa quente na qual o chefe faz uma espécie de deliciosas panquecas, com vegetais, ovo frito, massas e o que mais vier à rede. Este é um almoço até baptismal, porque foi aqui que fui repabtizado graças à simpatia esfuziante da dona (e dos restantes clientes): Me-me san, algo como Senhor Olhos Grandes.

A madrinha foi a senhora Hisashi, que, aos 82 anos, com o marido, dá comida e boa disposição ao seu pequeno restaurante que não passa de uma mesa-chapa-quente redonda e que tem o nome do filho, notoriamente o orgulho da família, Hiro Chan, “é professor! professor!”. A mãe olha para mim e vai daí: “Olhem para esta cara linda, de bebé grande, olhem para estes olhos, grandes, grandes, lindos, me-me san, senhor olhos grandes”, traduziu-me a minha guia, rindo-se a bom rir, juntamente com os demais comensais (aliás todo o almoço foi uma festa familiar). Há que dizer que comparando com os cidadãos japoneses (e com praticamente todo o resto do mundo) os meus olhos são grandes. Agora, Me-me san forever. Se esperávamos só melancolias em Hiroxima, estávamos muito enganados.

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Houve tempo até para mais alegrias, entre passeio bucólico pelos jardins e “castelo” reconstruído como museu, em brincadeiras com samurais em versão pop a actuar para as fotos, a cruzar a cidade de eléctrico e a ver templos e museus, a entrar num hotel-cápsula e a ver os prédios high-tech ou a saborear a boa vida nesta cidade no delta do rio Ota, cruzada veneziamente por canais, bebendo uma cerveja numa esplanada ribeirinha. Ao jantar, mesmo, numa outra casa tradicional, uma izakaya, a saborear a especialidade de uma carne de vaca Wagyu (uma das mais celebradas do mundo), por nós grelhada em chapa e a sorrir perante a surpresa de na carta haver um vinho alentejano, um Porco Tinto de seu nome, com que brindamos ao caos que é o mundo e a vida em geral. Sim, o nosso dia nesta Hiroxima levantada do chão, embora cinzento e chuvoso, não é feito de guerra. É feito de paz.

Mas, sim, o passeio central do dia, esse foi mais doloroso. Fomos pelos locais atómicos, epicentro de todas as visitas. Pelos espaços da memória, pela ponte em T que serviu de alvo à bomba – que matou mais de 80 mil pessoas com sequelas e mais mortes por anos fora de muitos mais milhares. Pelo espaços e vistas da Cúpula da Bomba Atómica, Genbaku, antigo pavilhão de feiras e exposições comerciais que, embora descarnado, se manteve de pé após a bomba, com a sua cúpula esvaziada a erguer-se nos céus, o único e maior prédio a ficar de pé na zona. Todos os que estavam dentro dele morreram, a estrutura ficou.

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Como um corpo derretido cujo esqueleto permanece altivo. Por todo o território do Memorial e Museu da Paz, onde a cada passo, estátua, monumento, sino, chama ardente, somos lembrados do martírio mas também da esperança de que não volte a acontecer. Pela cidade, cada passo nosso traz essa memória. E o medo nuclear continua bem presente, como sabemos – até por acidente, como o recente caso da central nuclear de Fukushima veio lembrar ao Japão e ao mundo.

Meditar na ilha dos veados

Manhã cedo, dia a clarear, um comboio e um ferry vão pôr-nos em menos de hora e meia algures no Mar Interior do Japão, mar que separa três das ilhas japonesas. Aqui ficamos na paz dos anjos, em Miyajima – na verdade, oficialmente é Itsukushima, mas toda a gente a conhece pelo outro nome, que significa a ilha do santuário.

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A bela vista desde o barco explica logo porquê: uma gigante porta, torii, resplandece ao sol no meio das águas, onde, lá atrás, parece flutuar um santuário (ilusão mas realista: é palafita). Não é uma porta qualquer, é sagrada e, acima de tudo é um dos postais ilustrados de referência do país. À chegada, alguns dos seus melhores anfitriões vêm logo receber-nos ao cais. Os veados. Dezenas e dezenas de veados vivem livremente pela peregrinante ilha. Quem é que consegue resistir a isto?

Pode dormir-se na ilha em cenário romântico, saborear as especialidades (enguias e ostras, entre elas), passear pelos campos e montanha, fazer a volta dos santuários, que são muitos. Do portal de toda a ilha, o santuário Itsukushima, ao templo budista de Daisho-in, um espaço repleto de vida, onde até se pode aprender a meditar.

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Luís J. Santos

Pensamento: meditar abre o apetite. Com espaço para uma paragem posterior numa banquinha com pastéis de enguias, rumamos pelas ruas repletas de lojas e restaurantes seguindo as ostras, acepipe local afamado. No Yakigaki-no-Hayashi, devoro estes moluscos que sempre odiei. E, desta feita adorei. Deliciosas, suaves, vinham no prato com uma miniatura da porta sagrada da ilha. Abençoadas ostras.

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A nossa peregrinação, com direito a festinhas a cada veado que vejo, aflui no grande santuário. Xintoísta, ali está ele a flutuar e até nós parecemos caminhar pelas águas ao longo desta enorme construção em madeira sobre estacas.

Os caminhos estão molhados, sinal de que a maré já por ali passou hoje. Há quem tire selfies ininterruptamente e há quem reze recatadamente numa cerimónia privada com um sacerdote. Ao fundo, no meio das águas, a omnipresente porta. Ali ao lado, eu faço as minhas próprias rezas, calças arregaçadas até aos joelhos, vou pela areia e entro pelo mar adentro. Uma viagem é sempre um novo baptismo, certo?

A flutuar sobre Osaka

É com pena de não ficar a relaxar pela ilha – onde a noite, dizem-me, é peculiarmente pacífica e meditativa – que partimos para o ponto final da aventura japonesa. Osaka acolhe-nos com a mesma trepidação de Tóquio. Confesso que não fazia ideia mas com mais de 2,5 milhões numa área urbana (a segunda maior, depois da capital) de 20 milhões, é natural que isto volte a faiscar gente e neóns por todo o lado. Na foz do rio Yodo, a cidade parece-me o ponto ideal para o fim, embora, tendo chegado ao anoitecer, já só dê mesmo para vislumbrar luzes e vibrações nocturnas.

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Luís J. Santos

Passeamos pelo centro do entretenimento, pela área de Namba (Minami), por avenidas que cruzam canais e mais prédios-néon, ruelas da boa e da má vida, admiramos a fachada do velho teatro Shochikuza – um templo do teatro kabuki, arte obrigatória para admirar em próxima visita, enervamo-nos num prédio de centenas de máquinas de jogo tipo slot machines (mas com umas bolinhas que redundam em 10 euros perdidos numa festarola ruidosa), paramos numa tasca para comer petiscos como se não houvesse amanhã (a menos de um euro cada, um sem-fim de variações de tempuras, vegetais e peixinhos, camarões e companhia) bem regados de cerveja.

Para sentir toda a Osaka, metrópole da arquitectura contemporânea, agora iluminada como árvore de Natal ao longo da baía, vamos fazer as despedidas num ícone especial, que daqui a poucas horas, pela madrugada, começa o calvário do regresso, que se prolongará por quase 24h, com direito às 8h de, neste caso, regresso ao passado. Vamos despedir-nos via Jardim Flutuante.

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O Floating Garden Observatory do Umeda Sky Building (na área de Umeda, precisamente) é uma obra extraordinária num dos edifícios mais extraordinários do mundo. São duas torres envidraçadas de 40 andares, ligadas por pontes e nos topos por uma plataforma, que sobem a 173 metros sobre o coração económico de Osaka, projectado por um dos grandes arquitectos do país, Hiroshi Hara. O seu jardim flutuante panorâmico permite-nos, por um chão de pedrinhas e luzes fosforescentes, com recantos para fotografias amorosas e perfeitas, circular em redor do topo como se caminhássemos pelos ares. Aos nossos olhos, é Osaka by night 360º até aonde a vista alcança.

Daqui parece que vemos toda a cidade. Para mim, um horizonte sobrepontuado de luzes de onde parece que vejo todo o meu Japão com estes olhos grandes que o céu há-de comer.

(…)

p.s. – «Chieko descobriu as violetas que floresciam no velho tronco de carvalho.“Floriram também este ano.” Com estas palavras foi ao encontro da doce Primavera. (Yasunari Kawabata, Kyoto [1962])», citação de abertura do novíssimo livro de valter hugo mãe, “Homens Imprudentemente Poéticos”, passado no Japão. E por nipónica coincidência o livro que comecei a ler assim que voltei desta viagem. É um livro onde não surge a palavra Não. "A palavra Não sublinha um traço impróprio no Japão, porque difere da relação cerimoniosa que estabelecem uns com os outros. Os japoneses evitam dizer por norma Não e optam por uma expressão para essa negativa que, traduzida à letra, terá o significado de "isso é difícil", disse o escritor esta semana a João Céu e Silva, no DN, descobridor da particularidade literária. "Essa negativa intermédia que os japoneses usam acaba por ser a solicitação do entendimento do outro sem que a conversa atinja o seu limite. Coisa que entre nós acontece muitas vezes, levando com o Não o diálogo ao limite". (Lembro que os “não” citados neste artigo chegaram praticamente todos via tradução). No Público, um vídeo leva-nos ao Japão, e a uma "floresta dos suicídos", central para o livro, com valter hugo. Sim, é o livro que aconselho, a quem chegou até aqui, para continuar a viagem. 

A Fugas viajou a convite do Turismo do Japão, Japan National Tourism Organization - (o organismo não tem gabinete em Portugal: está sob a alçada de Paris – info@tourisme-japon.fr)