DocLisboa 2016

Cruzeiro Seixas: A solidão lúcida do homem que pintava

Cruzeiro Seixas – As Cartas do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira: nas palavras, no silêncio, no olhar do surrealista português, sente-se o peso da dúvida, a resignação irónica de alguém que preferiu a sociedade à rebeldia romântica do artista. Em exibição no Doclisboa.

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É o retrato de uma tristeza lúcida aquele que se vai desenhando em Cruzeiro Seixas – As Cartas do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira. Nas palavras, no silêncio, no olhar do surrealista português, que fará 95 anos em Dezembro, sente-se o peso da dúvida, a resignação irónica de alguém que preferiu a sociedade à rebeldia romântica do artista.

Quando as pinturas aparecem, é numa constelação de cartas, fotografias, filmes de arquivo, pequenas histórias e episódios.

Cruzeiro fala de si, recordando. Revela que um dia, talvez tolhido pela timidez, não tocou à campainha de casa de Giorgio de Chirico em Roma, conta, sem orgulho, que recusou juntar-se às milícias de colonos em Angola, no início dos anos 70 (é um homem delicado, frágil que abomina qualquer tipo de violência), evoca, com saudade, os seus pais. Recorda, não cessa de recordar até à mágoa e ao arrependimento. Mário Cesariny, amigo, companheiro, amante é o homem que lhe desperta esses sentimentos menos agradáveis: primeiro, figura iluminadora, generosa, depois, personalidade genial, excessiva. A sua luz projecta uma sombra de que Cruzeiro Seixas se afastará. Abandona a boémia lisboeta e viaja para África (a sua grande paixão), onde se estabelecerá profissionalmente, decisão em harmonia com um estilo de vida e um temperamento: diante do mar, dirá, com humor, que apesar de ter perdido várias vezes o pé, nunca aprendeu a nadar.

Não é daquilo que fez ou não como pintor de que se arrepende (regressaria a Lisboa para chefiar a Galeria São Mamede e continuará a expor), mas do orgulho e do temor que o imobilizaram em certos momentos da vida: “Fiquei de molho”, desabafa. E é então que o seu rosto parece trair o medo humano da solidão, o receio de ser votado (com a sua obra) ao esquecimento.

A maioria dos seus amigos já partiram, os ecos das suas palavras vão-se ouvindo menos: assusta-o o drama de não ter com quem conversar. Restam as homenagens (institucionais, por isso distantes), consolo que sabe ser enganador, pois é nas suas pinturas frágeis e translúcidas – como as que protegem as cartas trocadas com Mário Cesariny – que Cruzeiro Seixas se torna Rei Artur.