Um outro homem, um mesmo país

Imaginando o que teria sido a sua vida se tivesse partido para África em 1984, Jorge Andrade usa a sua biografia para criar uma ficção em Moçambique que em tudo se parece com a realidade. A Mala Voadora aterra esta semana no Rivoli, no Porto, e na seguinte no Maria Matos, em Lisboa

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Os actores embarcam com Jorge Andrade na empreitada de fundar e fazer prosperar a produção de tomate concentrado FOTO: Bruno Simao

Em qualquer percurso de vida, há sempre pelo menos um momento em que o rumo tomado poderia ter sido totalmente distinto, fruto não tanto de escolhas próprias mas das opções de terceiros. É parar para pensar e algum exemplo há-de surgir. No caso de Jorge Andrade, actor e fundador da companhia Mala Voadora, um desses momentos está impresso numa memória de infância que coloca a sua mãe e uma tia a conversarem na cozinha, ignorando que o rapaz as escutava apavorado. Eulália, a tia que vivia em Moçambique (onde Jorge nascera e de onde saíra à pressa rumo a Lisboa após o 25 de Abril), estava de visita, pouco depois de uma trágica sequência de acontecimentos lhe ter levado os dois filhos num curto espaço de tempo. Num pranto aflitivo, Eulália pedia à irmã que lhe desse um dos seus dois filhos em compensação. O que Jorge ouviu (ou julgou ouvir na altura) foi a recusa da mãe em entregar qualquer um dos rapazes.

Passados mais de 30 anos sobre esse episódio, Jorge Andrade pôs-se a pensar o que teria sido da sua vida se a mãe não tivesse resistido à súplica desesperada de Eulália e o seu caminho se tivesse desenhado em África. Moçambique, a peça que se estreia esta sexta-feira no Teatro Rivoli, no Porto (fica até sábado), e segue depois para o lisboeta Teatro Maria Matos, em Lisboa (23 a 27), fantasia esta hipótese, propondo uma história pessoal alternativa e imaginando uma existência que se desenvolveria em paralelo com um país que se reconstruía enquanto independente.

Quando partiu para Moçambique, em dois períodos de 2016, à procura das pistas para o espectáculo, Jorge sabia apenas que queria arrancar em 1984, ano em que se dá a conversa entre as duas mulheres, e rasgar a recta temporal, criando aí uma outra realidade que nunca teve oportunidade de ser testada. Ao imergir em muita literatura local, histórica e biográfica, acompanhada de conversas com amigos ligados ao cinema, começou a esboçar um texto que, ficcionando assumidamente essa sua vida não vivida, nos surge apoiado em pedaços de relatos extirpados às últimas quatro décadas da história moçambicana.

Em 2016 do nosso calendário, à chegada, Jorge Andrade foi visitar a tia Eulália – o tio morreu há dois anos, vítima de um crime violento –, proprietária de madeireiras e gasolineiras, continuando a gerir um património construído para deixar aos filhos que se foram antes de tempo, uma vida levada para a frente na estrita impossibilidade de andar para trás, partilhada com três homens ausentes. Neste 1984 de um tempo paralelo, à chegada, Jorge Andrade foi declarado herdeiro de uma exploração de tomate concentrado. A ideia chegou-lhe ao tropeçar na figura de John Hewlett, um gestor agrícola britânico para a maior empresa estrangeira (Lonrho) sediada em Moçambique nos anos 1990, numa altura em que a pobreza, o analfabetismo e a mortalidade infantil atingiam níveis obscenos. “O Hewlett fez uma grande produção de concentrado de tomate em Moçambique nos anos 1980 e tornou-se o maior produtor mundial do hemisfério sul”, revela Jorge Andrade, acrescentando não saber onde começa a realidade e termina a ficção em Moçambique.

E é assim porque esta vida que não viveu e apenas acontece em palco segue a cronologia dos mais importantes factos políticos do país e abastece-se livremente de elementos pilhados ao material de estudo com que o actor e encenador se foi cruzando durante os meses que passou em África. Ao descobrir o Instituto Nacional do Cinema, em Maputo, cuja criação foi uma das primeiras medidas de acção cultural do governo moçambicano em 1975, Jorge começou a imaginar um teatro que não só seguia os passos históricos do país como se poderia compor a partir das imagens encontradas naquilo que restou do incêndio em 1991 que destruiu grande parte do acervo. “Que tipo de imagens quer usar?”, perguntou-lhe o director do Instituto, tendo em conta que “há ali muita coisa que ainda é muito sensível do ponto de vista político”. “Ainda não sei que imagens vou usar, porque quero inventar a minha história a partir daquilo que vir aqui”, respondeu-lhe.

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FOTO: Bruno Simao

Sem pessoal especializado que o auxiliasse na visualização de películas em sensível estado de conservação, acabou por refugiar-se no material já digitalizado por uma companhia audiovisual local, nomeadamente do jornal cinematográfico Kuxa Kanema, mostrado país fora por uma unidade móvel que levava em itinerância o noticiário oficial dos anos do regime socialista de Samora Machel – objecto também de um documentário com o mesmo título de Margarida Cardoso. A partir daí, Jorge Andrade foi dando forma ao seu encontro com outros seis actores, seis “moçambicanos” (Isabel Zuaa, Jani Zhao, Matamba Joaquim, Tânia Alves, Welket Bungué e Bruno Huca) que embarcam consigo na empreitada de fundar e fazer prosperar a produção de tomate concentrado, numa narrativa polvilhada por factos como lojas criadas para vender produtos aos próprios empregados da fábrica, subornos aos rebeldes da Renamo para serem poupados a ataques ou a sugestão de terem desempenhado um papel fundamental no acordo de paz entre Frelimo e Renamo, factos retirados das várias leituras.

Tudo isto que se passa em Moçambique pode, portanto, ter acontecido. Mas nada disto aconteceu assim.

Aparecer num selo

Em 1984, ano em que Jorge Andrade desembarca em Moçambique, um furacão tropical causa severos estragos no país. É também nesse ano que é assinado o acordo de Nkomati entre Moçambique e África do Sul, com vista ao termo da guerra civil que assola o país desde a independência. No documento assinado por Samora Machel e Pieter Botha os sul-africanos comprometem-se a deixar de apoiar os guerrilheiros da Renamo, enquanto os moçambicanos prometem abandonar a cooperação com o ANC, partido que pugnava pelo fim do apartheid e pelos direitos da população negra. No ano seguinte, Moçambique começa uma aproximação à liberalização económica, com a adesão ao FMI e ao Banco Mundial.

O investimento na exploração agrícola para a implantação da bem-sucedida produção de tomate concentrado é, por isso, uma das primeiras lanças estrangeiras (e capitalistas) nesta África. E essa é uma ambiguidade moral em que Moçambique também se joga: o equilíbrio de forças entre a exploração dos operários e o assomo de uma elite, entre os interesses pessoais e a verdadeira ambição de ajudar a desenvolver um país, criar emprego e tirá-lo da miséria.

A dúvida da real motivação foi também plantada pela recente viagem de Jorge Andrade e pelos portugueses que foi encontrando. Instalado em casa de amigos na zona das embaixadas, “onde está o pessoal mais endinheirado, encontrava pessoal a tomar café com um comportamento por vezes execrável”. A típica extensão do pensamento sobranceiro colonialista apenas suspensa pela partilha dos jogos de Portugal na televisão dos cafés e dos restaurantes, em que clientes e pessoal da cozinha se abraçavam em festejos espontâneos, mas logo se repunha a barreira entre uns e outros – “esta gente”, estas palavras cuspidas com desprezo.

Querendo acreditar na genuinidade das boas intenções da sua própria história, Jorge Andrade adapta para os obstáculos à actividade da empresa as mesmas soluções que colheu em várias das histórias sobre o período, desde o recurso abusivo às ajudas humanitárias à mudança de agulha em relação aos mercados a privilegiar, numa inconstância que acompanha as desconfianças em relação aos autores do ataque à fábrica e que reflecte assumidamente as várias teorias sobre os responsáveis pela morte de Samora Machel – norte-americanos, russos, outros.

Jorge Andrade arrisca que a aspiração pessoal e o altruísmo são compatíveis e que esta é a sua forma de “aparecer num selo, deixar uma marca” na História de Moçambique. Simplesmente é um país que apenas se parece muito com aquele que existe e no qual, de facto, a sua interferência é muito escassa. Apesar desse selo em que gostava de se ver, Moçambique não se constrói sobre qualquer mágoa ou saudosismo deixado pela sua saída do país. Tinha quatro anos quando abandonou aquela terra e recorda-se de pouco mais do que a “mãe a matar uma cobra, de andar descalço num chão muito quente e de comer pão com açúcar e água gelada.”

Não é esse lado emocional que manda aqui. É antes a vontade de se projectar na História de um país a que deixou de pertencer e que ficou para trás, e de usar a ficção para contar a realidade. Ou usar a realidade para contar uma ficção. Tanto faz. Olhando de perto, é quase o mesmo.

moc¸ambique . mala voadora from Mala Voadora on Vimeo.