O homem que destruiu património de Tombuctu vai dar-se como culpado

Era o chefe da polícia de costumes desta cidade do Mali durante a ocupação jihadista. Começa a ser julgado no TPI, acusado de um “ataque à dignidade e identidade de toda uma população”

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Ahmad al-Faqui al-Madhi começa esta segunda-feira a ser julgado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, mas o seu caso é inédito. É acusado de ter destruído e conduzido outros na destruição de monumentos históricos e religiosos na cidade de Tombuctu, no Mali, classificada como Património da Humanidade, quando esta foi ocupada por grupos extremistas islâmicos, em 2012. Ele assumiu a sua culpa.

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Ahmad al-Faqui al-Madhi começa esta segunda-feira a ser julgado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, mas o seu caso é inédito. É acusado de ter destruído e conduzido outros na destruição de monumentos históricos e religiosos na cidade de Tombuctu, no Mali, classificada como Património da Humanidade, quando esta foi ocupada por grupos extremistas islâmicos, em 2012. Ele assumiu a sua culpa.

O maliano – que nasceu a 100 km de Tombuctu e estudou ali – é acusado de destruir nove mausoléus de homens santos muçulmanos e a porta da mesquita de Sidi Yahya, do século XV/XVI, que a tradição local diz que deveria ficar fechada até ao fim do mundo. Mahdi liderava a polícia de costumes, a Hisbah, criada na cidade em 2012, após a ocupação pelo grupo islamista Ansar Dine, ligado à Al-Qaeda.

Este funcionário do Ministério da Educação, que na altura ainda não tinha 40 anos, sonhava com a criação de uma sociedade islâmista e viu na chegada do grupo a oportunidade de concretizar o seu desejo. A instabilidade política após um golpe militar permitiu a uma associação de grupos jihadistas conquistar uma grande porção de território no Norte do país – que é desértico – e avançar até ao centro, conquistando a histórica Tombuctu.

O antigo professor, que tinha estudado em escolas islâmicas e passado algum tempo na Líbia e na Arábia Saudita, frequentava meios radicais no Mali, diz a AFP, e tinha regressado a Tombuctu pouco antes de a cidade ter sido tomada pelo Ansar Dine. Já tinha ligações aos sectores radicais – quando mais não seja pelo seu casamento com a sobrinha de um juiz islâmico.

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O grupo jihadista recrutou-o rapidamente, tanto por causa dos seus conhecimentos locais como por falar árabe fluentemente, mas também “por ser a pessoa mais competente e conhecedora de assuntos religiosos em Tombuctu”, dizem os procuradores do TPI.

Enquanto chefe da polícia de costumes, Madhi pôs em prática da forma mais rígida os princípios da sharia (lei islâmica). Os adúlteros eram apedrejados, as mãos e braços dos ladrões eram amputados, os fumadores e consumidores de álcool eram chicoteados. E num país conhecido pela sua música, foram proibidos os concertos – ou simplesmente cantar. Mahdi chicoteava pessoalmente as mulheres que considerava “impuras”, conta a AFP.

As suas credenciais de estudioso da religião dariam peso ao apelo para destruir monumentos classificados pela UNESCO, e que os jihadistas consideravam idólatras. Não terá sido ele a dar ordem – e sim o líder do Ansar Dine, Lyad Ag Dhaly – para destruir os mausoléus dos homens santos. Mas liderou as brigadas que destruíram nove dos 16 mausoléus, em resposta à insistência da população em adorar as figuras dos santuários muçulmanos.

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O que resta de um livro antigo queimado pelos jihadistas em Tombuctu BENOIT TESSIER/AFP

Tombuctu, conhecida também como “a cidade dos 333 santos”, tinha “16 cemitérios ou mausoléus que eram os componentes essenciais de um sistema religioso em que, segundo a crença popular, eram a barreira que protegia a cidade de todos os perigos”, explica um documento da UNESCO. Com picaretas, cinzéis e carrinhas, grupos liderados por Mahdi destruíram nove destes complexos. "O profeta disse que destruísse estes mausoléus, porque todos os homens são iguais e por isso nenhuma tumba deve ficar acima de outra”, disse a um jornalista da AFP que acolheu brevemente na altura.

Durante a ocupação jihadista, foram queimados cerca de 4000 manuscritos pré-islâmicos e medievais que guardavam conhecimentos do Islão, mas também de astronomia, música, anatomia e botânica. Mas através de uma enorme operação secreta de salvamento, montada pelos bibliotecários e arquivistas locais, a maior parte dos milhares de livros da cidade que foi um grande centro de riqueza e de conhecimento mundial na Idade Média, a maior parte dos livros foram salvos, transportados para Bamaco e escondidos, através de meios improvisados, mesmo debaixo do nariz dos jihadistas.

Este julgamento é polémico por se concentrar apenas nos crimes contra o património, deixando de fora os crimes contra as pessoas e os direitos humanos no Mali – que serão tratados num julgamento à parte. “Aqui o que está em causa não são apenas muros e pedras”, afirmou a principal procuradora do TPI, Fatou Bensouda, para justificar a decisão. A destruição do património de Tombuktu “foi um ataque sem tréguas à dignidade e identidade de toda uma população e às suas raízes históricas e religiosas”, declarou. “A magnitude da perda foi sentida por toda a humanidade.”

A cidade foi libertada por tropas francesas e malianas em Janeiro de 2013 e Ahmad al-Faqui al-Madhi foi capturado em 2015 no Níger e transferido para Haia. Em Março, decorreu a fase preliminar do julgamento. Em Maio, al-Madhi admitiu que iria confessar em tribunal o crime de que está acusado e não se sabe qual poderá ser a sua pena. “Ele quer ser honesto consigo mesmo e assumir os actos que cometeu”, disse então o seu advogado Mohamed Aouini, citado pelo jornal The Guardian.