O “western” figurado dos “quase portugueses” The Last Internationale

Da primeira visão deste “Wanted Man” fica-nos o cinematográfico mas convencional exercício de estilo à lá “spaghetti western”. E estruturado naquela tão vulgar fórmula de ficcionar uma espécie de “coro” visual para a performance musical da banda. Mas se está aqui nesta Curadoria de Videoclipes, algo mais haverá. Ora, se víssemos só essa atuação ficava na memória apenas um power-trio americano de boa tradição rock. Ou então alguém ficaria cativado pela vocalista tremendamente sexy com pinta de “top model” rebelde — há até ali uns traços no rosto de Cat Power, e se esta já protagonizou uma campanha da Chanel, potencial não falta naquela. No entanto, este pequeno “Kill Bill”, ou estiloso “Death Proof” musical, não se fica só pela intenção de “desenhar a vinhetas” o imaginário do seu rock, mas também de figurar visualmente a angústia expressa na letra que é fruto das ideias sobre a sociedade capitalista predadora, que noutros temas eles manifestam mais explicitamente. Vincando posições sobre o genocídio dos índios ou um forte empenho político e social contra desigualdades e injustiças, e contra o estado do mundo atual. Ou não fosse o nome The Last Internationale (TLI) referente à Internacional Socialista. Embora, mais do que o vigoroso rock deste tema, eles se afirmem como uma banda “folk-blues” de declarada atitude ativista, porque na raiz do seu viçoso e insinuante rock’n’roll estão também veios que absorveram de gente engajada como W. Guthrie, B. Dylan, ou Zeca Afonso (como o demonstraram por cá há dois anos, quando puseram dezenas de milhares a cantarem a “Grândola, Vila Morena”). Contudo, apesar da timidez política reinar na música pop-rock atual, os TLI crescem de protagonismo no panorama do rock americano, no qual o último álbum “We Will Reign”, o primeiro numa “major”, lhes tem projetado outros voos mediáticos (atente-se na reação de David Letterman no final da atuação deles). Daí também que este seja ainda o seu primeiro videoclipe, digamos, a sério, mas a matéria discursiva da banda para trabalho metafórico futuro é bem promissora. Refira-se que a autoria deste videoclipe é da ex-designer Jessie Hill, que tem já um razoável currículo na realização e é uma empenhada feminista.

 

No vídeo, o lado morenaço das “bandidas tenebrosas” é protagonizado pela própria baixista e vocalista da banda, Delila Paz, que além das referidas qualidades físicas é dona de um tremendo vozeirão soul, formando esta banda nova iorquina com o companheiro guitarrista — tipo com pinta e jeito de Joey Ramone, de nome Edgar “Edgey” Pires (sim, o apelido é mesmo de filiação portuguesa, mas já lá vamos). Também chegou haver no início um Fernando Silva na bateria, mas contou pouco, porque contou mais o apadrinhamento que tiveram de Tom Morello, guitarrista dos politizados Rage Against The Machine, que na falta de um lhes sugeriu o baterista desse seminal grupo (e dos Audioslave, além de Smashing Pumpkins) e assim Brad Wilk formou o trio durante alguns anos. Em tournée, incluíam um baixista português, o que deixava a vocalista mais solta e propensa a atuações intensas. Para os mais atentos, a banda tem andado frequentemente por Portugal há vários anos. No princípio, em várias salas e cidades do país, nos últimos anos, já só em grandes festivais: Alive há dois, Festa do Avante há um e neste ano será o Vodafone Paredes de Coura, no dia 20 de agosto. Para além disso, é no Porto, nos estúdios Sá da Bandeira, que vêm gravar frequentemente. Os anteriores e já o próximo álbum. Pois ali, várias artistas internacionais têm encontrado condições analógicas perfeitas para produzir um som sem processos digitais. Mas dá-se o caso de os pais do guitarrista serem naturais de Arco de Valdevez, o que faz desta região uma passagem regular, e obrigatória, de Edgey e Delila para visitarem amigos e família. Ou seja, ir tocar mesmo ao lado a Paredes de Coura é quase como jogar em casa. E atuarem este ano vestidos com a camisa da seleção Campeã Europeia de futebol, eu diria que será também quase garantido. Agora, se nos mais que prováveis gritos anti-Trump (aliás, também não morrem de amores por Clinton) dispararem alguns “caralho” pelo meio de vários “fuck”, é natural, trata-se quase da mesma língua. De guerrilha, entenda-se. Enfim, tudo para ser um dos concertos do festival; e não será quase certo, será do “car...”!

 

Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico, a pedido do autor.

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