Editorial

Os equívocos de Munique

O atentado de Munique baralhou clichés adquiridos. Mas outros haverá, infelizmente. E precisamos de estar atentos.

Munique tem na sua história um massacre terrorista. Ocorreu há 44 anos, durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1972. Na madrugada de 5 de Setembro, o grupo árabe Setembro Negro invadiu a vila olímpica, matou dois atletas da equipa israelita e fez reféns os outros nove, que viriam a ser mortos depois. Foi uma página negra na história dos Jogos, na história da cidade e na história mundial. Munique foi, além disso, palco de um golpe de estado falhado de Hitler, em 1923, que dali queria partir à conquista de Berlim à frente dos seus correligionários. O golpe falhou, vários nazis foram mortos e outros presos. Entre eles o próprio Hitler, que numa prisão bávara, não longe de Munique, escreveu o Mein Kampf. início de um terror inimaginável, com milhões de vítimas numa Europa em escombros.

Na sexta-feira, Munique viu-se literalmente paralisada por um atentado a que a velocidade das notícias colou o selo de “terrorista”. Foi um atentado que espalhou o terror, sim, mas a sua aparência acabou por ser desmentida pela realidade. Os nove mortos, na sua maioria jovens, foram abatidos por outro jovem, Al Sonboly, de 18 anos, que no final do tiroteio se suicidou. As ligações ao Daesh ou a qualquer outro grupo terrorista islâmico acabaram por não se confirmar, restando a pista de um massacre motivado por ódio. Isto são conclusões da polícia, depois de buscas em casa da família do assassino. O que foi posto a correr no dia do atentado (cúmplices em fuga, suspeitas de ligação a grupos terroristas, etc) deveu-se à pressão, excessiva, em contar “tudo” rapidamente, mesmo o que não se sabe.

Se nos atentados de Nice ou Würzburgo (onde a pista do Daesh foi depois comprovada) até houve ministros a arriscar, em público, versões diferentes para as motivações dos autores dos crimes, não admira que muitos outros se cheguem à frente com “explicações” que carecem de fundamentação. Neste momento, sabendo a Europa e o mundo que a vaga de atentados postos em marcha pelo Daesh poderá continuar, e que cada um desses atentados quererá ter a maior cobertura mediática possível (só assim o terror funciona), terá de haver maiores cuidados, não só na forma de difusão como no enquadramento imediato de cada caso. Sem pôr em causa a liberdade de informar, o uso dos meios de comunicação é uma arma que, usada sem critério nem ética, completará o “serviço” dos terroristas.

O caso de Munique baralhou clichés adquiridos. Mas outros haverá, infelizmente. E precisamos de estar atentos.