Um sebastianismo consanguíneo

Sobre Sebastião, o Fantasma, de Lúcia Prancha.

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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes doworkshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Sebastião, o Fantasma (2015), docuficção de Lúcia Prancha, explora uma suposta consanguinidade mitológica entre Portugal e o Brasil através dos “sebastianos”, comunidade de albinos autóctones da Ilha dos Lençóis, situada no litoral do Maranhão, que acreditam descender de D. Sebastião. Segundo estes, o fantasma do “Desejado”, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir (1578), surge todas as primeiras quintas-feiras do mês para assombrar os insulares. Resultando de uma residência de autor que levou a artista portuguesa – actualmente radicada em Los Angeles – ao Nordeste brasileiro, este projecto de cariz antropológico e etnográfico foi galardoado em 2014 com o prémio Novo Banco Revelação.

Como não reconhecer nos grandes planos das feições dos albinos da Ilha dos Lençóis a tez branca e os cabelos loiros do rei português tal como Cristóvão Morais o retratou em O Rei D. Sebastião, o Desejado (1571)? A semelhança fisionómica corrobora a evidência genealógica e, sobretudo, o mito. Os habitantes da Ilha dos Lençóis são aedos que rapsodizam um repertório oral constituído de memórias familiares ancestrais, tradições e misticismo, do mesmo modo que cosem redes de pesca ou entrelaçam folhas de palmeiras com as da Árvore de Josué. Do entretecimento de consanguinidades – o de duas culturas: a portuguesa e a brasileira – resulta a textura oral de uma identidade única, quase distópica.

Porém, é de crer que existe nesta curta-metragem de Lúcia Prancha uma entidade espectral subjacente à idiossincrasia dos sebastianos. O olhar para a câmara de D. Sebastião com que a autora conclui o filme talvez seja a estupefação deste perante a fertilidade de uma descendência designada como “lusofonia”. E é precisamente através da encenação do aparecimento de D. Sebastião que a realizadora infringe em definitivo a dicotomia paradigmática realidade/ficção. Ela sugere, deste modo, que tanto a essência do mito genesíaco dos sebastianos quanto a do fílmico reside no ténue intervalo que os separa. De facto, a objectividade documental (opção por planos fixos de forte teor fotográfico) de uma comunidade – nomeadamente a dos sebastianos, cuja identidade é, aliás, pura narrativa – constituiria uma falácia. Ao realçar o carácter ficcional do seu documentário, Lúcia Prancha não assume apenas a sua subjectividade. Aproxima-se da substância dos mitos.       

De salientar, finalmente, a citação sonora de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) acerca do conflito entre a tradição e o progresso, filme de Glauber Rocha igualmente envolto pelo misticismo e messianismo do cangaço. Este movimento popular finissecular encontrou junto de guias espirituais e religiosos – como o Monge João Maria – líderes contra a repressão do coronelismo. Através desta referência cinematográfica ou da tela de Victor Meirelles, A Primeira Missa no Brasil (1861), que introduz Sebastião, o Fantasma, Lúcia Prancha convida-nos também a repensar tanto a nossa herança colonial quanto as formas institucionalizadas e ideológicas de poder e de construção de identidades.

Texto editado por Jorge Mourinha

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