As críticas ao novo emprego de Durão Barroso não param

Imprensa francesa, funcionários europeus, Moscovici, todos criticam o facto de Barroso estar a meter a mão no “Sachs”.

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O antigo primeiro-ministro português continua debaixo de fogo RICARDO CASTELO/NFACTOS

A notícia já tem quase uma semana. Cinco dias, precisamente. Mas continua a fazer a correr tinta nos jornais, a merecer críticas e ataques. Foi na sexta-feira que se soube que o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, ia ser o novo chairman da Goldman Sachs International, o maior banco de investimento do mundo. Não é coisa pouca e por isso, desde então, em Portugal e lá fora, têm sido vários os que não vêem com bons olhos a decisão do ex-primeiro-ministro português.

Alguns exemplos mais recentes são as palavras do próprio comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici que, em entrevista à estação de rádio francesa Europe 1, admitiu que, mesmo não estando proibido de o fazer, Durão Barrosodeveria ter feito uma “reflexão política, ética e pessoal” sobre as consequências do seu novo cargo. Para Moscovi, que disse não ir para a Goldman Sachs no final do seu mandato, quando um político passa para o sector privado, deve “pensar na imagem que projecta”.

Mas os ecos da notícia sobre a nova vida profissional de Barroso não ficam por aqui. Não tendo sido o único a abordar o tema de forma crítica, o jornal francês Libération até lhe dedicou uma capa, com uma caricatura do ex-presidente da Comissão e uma frase na qual se lia “Barroso: sem fé, nem lei”. Na página, lia-se ainda que a entrada do antigo primeiro-ministro no Goldman Sachs “provoca um grande alarido: além de alimentar o fantasma da submissão dos políticos em relação aos bancos, descredibiliza um pouco mais as instituições europeias”.

No site deste órgão de comunicação destaca-se um texto de análise de Jean Quatremer com o título: “Barroso apanhado com a mão no Sachs”. Entre muitas outras críticas e dúvidas suscitadas, o autor questiona a entrada de Barroso para um banco que esteve na origem da crise do subprime, que ajudou a Grécia a esconder parte do seu défice, antes de especular contra a dívida grega, conduzindo a zona euro a uma crise “sem precedentes”. Entre muitas outras questões levantadas, nomeadamente o facto de que Durão vai ser também consultor para o “Brexit”, o analista acusa o ex-presidente de ter informações privilegiadas sobre vários destes temas e que serão muito úteis ao banco.

Sobre isto, a AFP já escreveu que Durão Barroso tem de respeitar o “segredo profissional”. Ou seja, não pode revelar as informações às quais teve acesso enquanto desempenhava o cargo de presidente da Comissão Europeia. “Em qualquer caso, todos os ex-membros (...) continuam vinculados pelas obrigações de integridade, discrição e confidencialidade, conforme descrito” em dois artigos do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, recordou um porta-voz da Comissão, Margaritis Schinas. Estão “obrigados, mesmo após deixar o cargo, a não divulgar informações que, pela sua natureza, estão abrangidas pelo segredo profissional, designadamente as respeitantes às empresas e respectivas relações comerciais”.

Até a U4Unity, associação que junta funcionários das diversas instituições europeias, já escreveu uma carta à CE. Dizem-se “chocados”, consideram que levanta “questões éticas”, que descredibiliza a instituição, citam o Código de Conduta, e terminam na expectativa de “uma declaração firme, e acima de tudo uma decisão apropriada” da Comissão sobre esta transferência Comissão Europeia-Goldman Sachs.

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