Quando um homem ama uma mulher

Sobre Penúmbria, de Eduardo Brito.

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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Penúmbria, de Eduardo Brito, apresentado em estreia absoluta no Curtas 2016, pode ler-se simultaneamente como um documento de reflexão sobre o homem e o espaço construído, portanto como um ensaio sobre urbanismo e arquitectura; um tratado sobre a perda e a equivalente força redentora do amor; ou, mais arriscadamente, como uma metáfora dos danos causados pela tão propalada crise. Num certo sentido, é um filme-catástrofe, semi-apocalíptico, em que a arquitectura despojada dos seres que normalmente a habitam se recorta perturbadoramente na paisagem. A este propósito, um dos aspectos porventura menos conseguidos do filme reside no facto de nunca chegarmos a percepcionar as (belas) imagens dos edifícios desabitados como entidades verdadeiramente desocupadas. Por outro lado, a excessiva domesticação dos planos, que a frio nos pareceram saídos de um catálogo de arquitectura dos anos 80-90, e a imaculada concepção do texto que uma suave voz off pontua com clareza, entorpecem-nos os sentidos, pondo-nos num estado de alerta para o carácter demasiadamente subsidiário de imagens e texto, como se a “rima” entre ambos fosse uma espécie de ponto de honra para o realizador.

A arquitectura sempre foi fotogénica e Eduardo Brito compreende-o, manipulando com destreza a sua plasticidade inebriante. Sabe também que as palavras, quando colocadas pela ordem certa, têm um carácter mágico de sedução… O autor percebe ainda o irresistível poder da conjugação de imagens belas com textos poderosos. Talvez então o que (por antítese) falte ao filme seja o recurso a uma certa indisciplina autoinfligida, à colocação de um grão na engrenagem criativa, sabotando-a, manchando-a, corrompendo desta forma a excessiva altivez de Penúmbria e tornando-a verdadeiramente a cidade da nossa tristeza e também da nossa redenção, como o epílogo do filme tão bem o sugere.

A cidade é-nos oferecida sem quaisquer referências geográficas. Logo, e pondo imediatamente o GPS de lado, resta-nos uma viagem metafórica, que é o exercício que mais convém ao realizador e onde ele verdadeiramente nos quer. Brito cria uma distopia (em versão light), entretanto contrariada por um final inusitadamente feliz. As últimas criaturas da cidade são uma mulher refractária ao seu abandono, por aí poder passear os seus três cães, e um homem, cuja presença se justifica (no silêncio) pelo amor a esta mulher. Está assim salvaguardada (especulemos) a repovoação de Penúmbria, refazendo-se aqui, porventura, o mito fundador de Adão e Eva. O filme apresenta-nos pois uma visão optimista do homem e da sua resiliência, na forma de uma parábola cujo conteúdo moral nos diz, com absoluta subtileza, que a força do amor sarará todas as feridas.

Eduardo Brito é claramente um realizador talentoso, com méritos repartidos pelo absoluto domínio da escrita e da imagem. Parece-nos também um profundo conhecedor das dinâmicas das cidades e dos jogos sociológicos postos em marcha no conflito dos centros e das periferias. O objecto fílmico que nos apresenta, assente numa concepção contemporânea do acto de filmar, põe em evidência as suas preocupações políticas, sociais e estéticas. É um filme-tese cuja projecção faria tanto sentido no Curtas como num museu ou numa galeria. E esse é outro dos seus méritos.

Texto editado por Jorge Mourinha

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