Crítica

Sob o domínio do diabólico

Poeta de muitos recursos e vastos horizontes, Daniel Jonas faz neste livro incursões pelo poema longo, com uma força dramática surpreendente.

Não há na poesia portuguesa actual um poeta com esta elasticidade
Foto
Não há na poesia portuguesa actual um poeta com esta elasticidade FOTO: FERNANDO VELUDO / NFACTOS

De livro para livro, Daniel Jonas muda de lugar, de dicção, de tom: não há na poesia portuguesa actual um poeta com uma tal elasticidade, movendo-se com uma astúcia que não se confunde com cinismo e é dotada de ironia subtil. Até no interior do mesmo livro (como acontece neste), tanto é capaz de grandiloquência como de baixo teor enfático. Em todos os casos, a sua poesia está sempre do lado da estranheza, cumpre-se numa dimensão que não se ordena do lado da mera realização lúdica e formal nem do lado da transparência do sentimento e da representação afectiva. E, a par de alguma exuberância retórica, ela também é capaz da sobriedade prosaica. Por outro lado, há uma distância paradoxal em relação à esfera do vivido, que a coloca da proferição que parece vinda de um outro tempo e de uma antiga racionalidade. É, aliás, por uma formulação que opera um desvio em relação ao leibniziano princípio da razão suficiente que começa o poema Vento: “Porque não há nada em vez de tudo? – perguntou/ o cientista – Tudo me cansa:/ a tentativa, o esforço, o consegui-lo./ Tudo é redondamente inútil:/ o desejo, o seu decesso [...]”. Este livro chama-se Bisonte, animal muito estranho a qualquer bestiário poético. Mas ele faz parte do exuberante bestiário barroco deste livro, tão barroco que até os animais da terra e as aves do ar estabelecem uma relação de reversibilidade. Assim, o “bisonte bisonho” pode apresentar-se “mordendo nuvens”. Mas o que faz aqui, de maneira recorrente, este animal tão pouco poético, vindo de uma idade primitiva, do tempo da fundação do mundo? Ele é um ser diabólico, como muitos outros deste livro. E diabólico – devemos observar – é o contrário de simbólico, o que se opõe ao belo edifício da poética romântica, essa herança moderna de fortíssima resistência. Ora, a poesia de Daniel Jonas desloca-se numa direcção inversa, aplica-se na fuga à harmonia do símbolo, instala a dissonância e a estranheza, não satisfaz a expectativa das belas representações. E tem a falta de delicadeza de um bisonte. Não porque se afirme do lado da afirmação transgressiva e intempestiva, mas por uma outra condição mais subtil.

Vejamos então o que se passa. O livro abre com um poema que se chama Flores: “tudo isto me parece terrível./ Todas estas flores que não sei o nome/ parecendo trepar pelo ar, suspensas no equilíbrio de Satã,/ deformadas, varicosas, impudentes,/ cacarejando na noite./ Eu, acoitado, encarando-as à meia-noite,/ figuras espectrais, abortivas,/ viciosas a cada centímetro do seu talo [...]”. Depois de Baudelaire, sabemo-lo bem, as flores passaram a ser flores do mal. Mas as flores do mal são ainda belas. As flores de Daniel Jonas, pelo contrário, são sinistras, terríveis, fazem parte de uma “flora demencial” - uma flora que acompanha o bestiário barroco e repelente. E a dissonância que contraria a razão musical do lirismo manifesta-se num um continuado ruído que traz estranheza, fealdade e prosaísmo sempre que se anunciam as belas representações. Temos as cigarras, de musical memória? Pois temos, mas veja-se o terrível concerto que elas proporcionam: “O vento acoita-se nas cigarras:/ estas transformando harpas eólicas/ numa sensação monomaníaca,/ motosserra em surdina [...]”. Das cigarras, podíamos dizer o mesmo que, de maneira satírica, Mallarmé exclamava a propósito do uso da lua na poesia: “Qu’elle est belle, la garce!”. Mas a transformação das “harpas eólicas” em “motosserra em surdina” provoca uma queda ou, pelo menos, um movimento para baixo: esta poesia está sempre a criar falsas expectativas de elevação, para a seguir a contrariar. Desta maneira, ela retira a sua força de uma dimensão deceptiva: não nos dá nada daquilo que julgamos estar a ser prometido, obriga o leitor a tropeçar constantemente nas suas expectativas. É evidente que isto tem um efeito irónico, às vezes quase de comédia e de jogo perverso, embora não seja esse um objectivo imediato. De resto, ao fazermos esta leitura que toma partido pelos efeitos do estranhamento e da subtileza, somos levados a sentir como fragilidade (rara e apenas notória pela alta exigência a que se situa o nível desta poesia) os momentos em que Daniel Jonas abusa dos jogos de palavras, uma das manifestações os seus imensos e luxuosos recursos linguísticos Aí, o jogo torna-se mais superficial, sofre uma quebra, resvala para o gratuito. Um exemplo (que por si só não produz nenhum ruído, mas ao lado de outros torna-se muito mais notado):  “A geada que crepita da janela,/ o lenho, tempo/ sobre o tampo:/ a chaleira imperturbável e fria”.

Mas isso é coisa pouca quando deparamos, neste livro, com poemas que elevam ao mais alto nível a requintada e plural obra poética de Daniel Jonas. Trata-se dos poemas longos, que são sem dúvida o ponto mais alto deste livro. E aí tanto encontramos um fôlego da proferição à Álvaro de Campos, num daqueles poemas que edificam para nosso espanto, e porque já não estamos habituados, um mundo (é sabido como quase não existe o mundo, uma totalidade de largos horizontes, na poesia contemporânea), como o poema-missiva de Jorge de Sena, Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya. Chama-se Dos Fuzilamentos da Montanha do Príncipe Pio, o poema de Daniel Jonas escreveu a partir da lição poética de Sena, também sob a forma de uma carta aos filhos. E é assim uma das estrofes: “Nós ensinamos a guerra./ Nós construímos a destruição./ Estamos todos muito orgulhosos dos nossos pais,/ edificaram um império/ como o fio de prumo da espada/ e a roldanas ergueram as cabeças tenras nativas/ como torrões levantados do solo,/ recebendo cartas de aplauso/ e terras de comendas,/ lavrando solos e espevitando os campos/ com o adubo da cinza mortuária”. A força e a elevação dramática deste poema tornam-no uma objecto precioso da poesia portuguesa contemporânea.