Seis bancos privados e três empresas comerciais com milhares de amostras criopreservadas

Para responder a quebra da procura “entre os 20 e os 30%”, empresas lançaram descontos e refutam acusações de se basearem em promessas irrazoáveis.

Foto
A Crioestaminal foi a primeira empresa a instalar um laboratório de criopreservação em Portugal Enric Vives-Rubio

Da oferta de slings à possibilidade de pagamento faseado com recurso a crédito, as empresas privadas com bancos de criopreservação em Portugal recorrem a estratégias diversas para cativar clientes. Por causa da crise e do agudizar da concorrência, os preços pela criopreservação do sangue do cordão umbilical baixaram até perto dos mil euros. Mas, a pretexto da diversificação da oferta, hoje várias empresas publicitam pacotes premium para colheita de sangue e de tecido do cordão umbilical que chegam aos 2345 euros, com a promessa de recurso a um método inovador de processamento do sangue que permite guardar até mais 15% das células. E, a contar com as dificuldades financeiras das famílias, a maioria oferece possibilidade de pagamento faseado ou ano a ano. Na Crioestaminal, a primeira a instalar-se no mercado, a criopreservação das células estaminais pode custar 600 euros à cabeça, mais 50 euros por cada ano em que a amostra permaneça no banco.

O PÚBLICO contou cinco empresas com bancos de criopreservação em Portugal (Bebé Vida, Biosckin, Bioteca, Cytothera e Crioestaminal). Todos somam centenas de milhares de amostras. Só a Bebé Vida, por exemplo, tem 40 mil amostras criopreservadas, no seu laboratório, no centro do Porto. A esta lista, a Direcção-Geral de Saúde (DGS), que não quantificou quantas pessoas em Portugal recorreram à criopreservação, somou ainda o Instituto Valenciano de Infertilidade, que tem um laboratório de criopreservação instalado na sua clínica de Lisboa, mas está vocacionado para a recolha de amostras no mercado espanhol, porque a legislação deste país permite a conservação de sangue do cordão umbilical para uso privado, mas não prevê a exclusividade, ou seja, a amostra poderá ter de ser disponibilizada para uso universal.

Os bancos privados são, aliás, proibidos nalguns países, como a França e a Itália, e “mereceram forte reserva ética de todos os comités nacionais que sobre eles se pronunciaram”, conforme recorda o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). Por cá, além dos seis bancos privados, operam ainda pelo menos mais três empresas comerciais (Future Health, BebéCord e Criobaby) que recorrem a laboratórios de outras empresas ou localizados no estrangeiro.

“Temos 115 mil amostras de vários países e as que recolhemos em Portugal são enviadas para o laboratório da empresa, em Inglaterra”, adianta Tito Campos e Matos, “country manager” da FutureHealthBiobank, que, além do laboratório inglês, detém um outro, na Suíça. Tal como as restantes empresas, a FutureHealth confirma que houve a partir de 2011 uma quebra na procura destes serviços, numa curva que começará agora a recuperar, com o desanuviar da crise e o ligeiro crescimento da natalidade. “Os laboratórios também tiveram de se ajustar à concorrência e começaram a praticar preços mais competitivos”, acrescenta Tito Campos e Matos. João Sousa, da Bebé Vida, aponta para uma quebra na procura “entre os 20 e os 30%” e estima que em “entre 6 e 7% dos partos” haja recurso à criopreservação em bancos privados.

Sobre a existência de um banco público, todos tratam de separar as águas. “Num banco privado, a família reserva a propriedade da amostra para si, no público a amostra fica disponível para toda a gente”, sublinha João Sousa, para apontar as lacunas na recolha pública: “O que é que acontece a quem tenha um bebé em Coimbra? Mesmo que queira, não pode doar ao banco público, porque não foi seleccionada aí nenhuma unidade de colheita”. Para André Gomes, director executivo da Crioestaminal, uma empresa com actividade em Portugal, Espanha e Itália, e que soma 70 mil amostras no seu banco de Cantanhede, no distrito de Coimbra, os bancos públicos e privados “são complementares”, apesar de concorrerem pelas mesmas amostras.

A Crioestaminal, recorde-se, foi a primeira empresa a instalar um laboratório de criopreservação em Portugal, já lá vão 13 anos. Em Maio de 2012, meses antes da confusão em torno do banco público saltar para os jornais, a empresa foi acusada de fazer publicidade enganosa por causa de um anúncio televisivo. No spot dirigido aos pais, citava-se um estudo que apontava “uma hipótese em 200” de as crianças virem no futuro a desenvolver doenças como “leucemia, um linfoma ou tumores sólidos”, cujo tratamento poderia encontrar-se nas suas células estaminais ou nas de um irmão. Depois, um menino perguntava “Mãe, pai, guardaram as minhas células?”. Depois de dezenas de especialistas terem considerado que tal não estava provado cientificamente, o anúncio viria a ser suspenso.

Tal como na altura, André Gomes sustenta que “não se trata de explorar o medo”, mas de “esclarecer as famílias”. “A probabilidade de utilização das células estaminais é sempre baixa, mas existe”, sublinha. E a prova disso, acrescenta, é que “a Crioestaminal já disponibilizou amostras”. Uma para tratar um caso de imunodeficiência severa combinada entre irmãos, no Instituto Português de Oncologia, no Porto. “A amostra estava guardada desde 2003 e, quatro anos mais tarde, acabou por ser usada no irmão mais novo do dador, que ficou curado”. Outra amostra foi para um ensaio clínico que está a decorrer nos Estados Unidos para utilização destas células em casos de paralisia cerebral. O director da Crioestaminal aponta ainda as investigações em curso sobre aplicação de células estaminais no pé diabético e outras feridas crónicas “e na regeneração do músculo cardíaco no enfarte do miocárdio”. “Na área da oncologia, estamos a avaliar a possibilidade de tratamento do cancro da mama, mas ainda estamos na fase da investigação”, enumera. Na página da Internet da Crioestaminal, alude-se “à marcha imparável da Ciência” e a um futuro em que a aplicabilidade das células estaminais “poderá vir a ser drasticamente mais alargada, muito para além dos problemas de origem hematológica e oncológica”, mais concretamente na Esclerose múltipla, Parkinson e paralisia.

Em Portugal, a Future Health nunca teve de disponibilizar nenhuma amostra, mas na Jordânia, segundo Tito Campos e Matos, as células de uma bebé foram utilizadas em 2010 num irmão que sofria de anemia de Fanconi, uma doença que pode gerar insuficiência da medula óssea progressiva e degenerar em leucemia.

“Não promovemos coisas que não são reais”, assevera Tito Campos e Matos. “O que dizemos é que há tratamentos que podem ser feitos com células estaminais do sangue e que há tratamentos com tecido que estão em ensaio clínico”. O parecer do CNECV concorda que a utilização destas células no tratamento de doenças hematológicas malignas (por exemplo, leucemias e linfomas) e não malignas (anemia plástica e de Fanconi…) são uma prática comum desde há décadas. E reconhece estas células podem ser usadas em transplantes autólogos (células do próprio doente), mas que, no caso de doenças hereditárias ou mesmo em certas neoplasias hematológicas, estas células deixam de ser úteis porque “possuem a mutação causadora da doença”. No caso do transplante autólogo, as probabilidades de utilização variam assim de um para vinte mil ou de um para 250 mil.

O CNECV acusa ainda os laboratórios de apontarem possibilidades de tratamento de doenças comuns na vida adulta, quando a conservação se faz a 25 anos. Por outro lado, os especialistas alertam que o sangue do cordão umbilical contém um número limitado de células, pelo que é quase impossível utilizar em doentes com mais de 30 kg. Quanto à possibilidade de outros usos, como em doenças degenerativas, traumáticas e isquémicas, as células do sangue e do cordão umbilical do recém-nascido e da placenta “são muito promissoras”, mas “a sua validade científica e utilidade potencial ainda não estão estabelecidas e o seu uso permanece experimental”.