Reportagem

“O corpo não acompanha a cabeça”

Maria iniciou o processo aos 42 anos, depois de quase 30 anos de depressões pontuadas por tentativas de suicídio.

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Marco Duarte

Numa noite em que decidiu morrer, Maria escreveu a uma activista transgénero, Lara Crespo. Escreveu uma página, duas, três, quatro, cinco, seis. E adormeceu, já de madrugada, exausta, aliviada. Foi essa carta que entregou à psiquiatra do Hospital Magalhães Lemos quando iniciou o processo de transição, aos 42 anos. “Olho para trás e pergunto-­me como é possível ter funcionado assim tanto tempo”.

Estava tudo lá. “Por ignorância ou distracção”, ninguém percebeu. Lamentava não ter seios, como a mãe e a irmã. Odiava ter pêlos, como o pai ou os irmãos. Maquilhava-­se às escondidas. Fugia de casa de noite, com roupas da irmã na mochila. Trocava-­se na primeira oportunidade. “E lá vinha aquela sensação poderosa de verdade misturada com culpa e vergonha.” Arriscou fazer o mesmo durante o dia.

Na primeira vez que decidiu morrer, era dia de aniversário. Fazia 16 anos. Sentia­-se demasiado só – a mãe, que tantas vezes brincara dizendo “não tenho uma filha, tenho duas”, morrera um mês antes com um cancro na vesícula. Comprou o gelado favorito e, enquanto o comia, engoliu os medicamentos que tinha à mão.

Da segunda vez que decidiu morrer, Maria tinha 30 anos. Tomou antidepressivos e conduziu até à praia. Apaixonara­-se por um rapaz. “Queria viver aquela paixão como fazem um homem e uma mulher, porque sou mulher, porque me sinto mulher.” Só que não era uma mulher que ele via quando a olhava. Ele não quisera assumir uma relação, mas não a deixara de facto. Fora entrando e saindo da vida dela.

Durante muitos anos, não falou de sua identidade de género. “Eu não sabia. Não tinha uma palavra para isto. Naquela altura não se falava em transexualidade. Achava que era um rapaz que gostava de rapazes. O nome que conhecia para isso era homossexualidade. Até que, um dia, um amigo gay explicou-­me que os homens que gostam de homens não se sentem mulheres, nem querem ser mulheres.”

Parte da vida ia funcionando, apesar da permanente sensação de desastre. Concluíra o 9º ano. Tornara-­se trabalhadora estudante. Fizera o Curso Complementar de Técnicas de Secretariado, que lhe dera equivalência ao 12º. Ia tendo empregos. A família não a pusera de parte, quando lhes contou o que se passava, ia já nos 26 anos, pelo contrário. Assumira um estilo andrógino. Só que não ia além de relações esporádicas. Procurava amor em homens que só tinham “desejo de uma queca diferente”.

“O sexo nunca foi muito agradável para mim”, diz. “São momentos de muita perturbação. Vemos que o nosso corpo não acompanha a nossa cabeça, que está tudo errado.” Incomoda­-a a erecção. Só consegue ter sexo em posições que escondem o pénis. “Nunca me tocaram como um homem. Seria inconcebível para mim que me desejassem como homem. Enoja-­me pensar nessa possibilidade.”

Nunca foi encorpada, como os irmãos. É estreita, esguia. Tem as mãos e os pés pequenos. Livrou- se dos poucos pêlos do rosto com laser. O tratamento hormonal conferiu­-lhe formas um pouco arredondadas. Fez intervenções cirúrgicas para pôr seios, tirar a maçã-de-adão, alterar a estrutura do nariz. Não tem relações sexuais desde que iniciou o processo de transição e não as terá enquanto não o concluir. “Não quero pensar que um homem está comigo porque sou uma mulher que tem ali uma coisa a mais. A próxima ver que estiver com alguém, esse alguém vai olhar para mim e vai ver uma mulher.”

No dia que escreveu a Lara Crespo tinha 39 anos e estava esgotada. “Era um desabafo. Era uma despedida. Chegamos a esse ponto. Foram depressões atrás de depressões. Era uma pessoa triste, revoltada, azeda. Porquê? Porque reprimia isto. Eu deitava-­me a pedir para não acordar mais.”

Quando acordou, em vez de tornar a tomar uma catrefada de comprimidos, pediu ajuda. “Adias, adias, adias. Um dia, impõe­-se.”

Entrou na urgência psiquiátrica do Hospital de São João por causa das ideias suicidas e foi enviada para o centro de saúde. O médico de família encaminhou-­a para a Unidade de Saúde Mental de Gaia, que lhe marcou consulta para daí a oito meses. Perdeu mais um ano até, por fim, ser enviada para a consulta de sexologia clínica do Hospital Magalhães Lemos. Fez a primeira avaliação. Foi-lhe diagnosticada disforia de género. Fez a segunda avaliação no São João. Esperou pelo parecer da Ordem dos Médicos.

Mudou o nome há três anos: “Foi a coisa mais fantástica que fiz. Muda tudo. Muda a cabeça. Evita que tenhamos de passar por determinadas coisas. Tipo: estarmos no hospital e chamarem por um nome masculino e nós já termos imagem feminina e termos de andar a disfarçar, a entrar à socapa, porque é humilhante. Desde que mudei de nome, sinto-­me visível, liberta, sem aquela pressão. A gente vai crescendo e quase que nos obrigam a responder àquele papel e isso é difícil, deixa­-nos doentes. E quanto mais tempo se vive assim, pior. É o que eu digo: não sei como funcionei tanto tempo.”

Irrita-­a a “ignorância de classe médica”, que demorou anos a encaminhá­-la para o sítio certo, apesar do historial de tentativas de suicídio. Há muitas pessoas transgénero que se matam e muitas que são mortas por esse mundo fora. Dependendo dos estudos, a taxa de suicídio é dez a 20 vezes superior nesta população.

Ficou horrorizada há dez anos ao saber que Gisberta, uma mulher transgénero, fora morta por um grupo de miúdos no Porto. "Podia ser eu", pensou. Não vai esperar pelo Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, a única unidade de saúde pública que faz cirurgias de mudança de sexo, sobre a qual recaem queixas sobre longas esperas. Pediu um empréstimo a um banco para fazer a vaginoplastia. No próximo mês, Maria estará deitada numa mesa de operações. “É o fim da estrada, o fim deste processo todo, não ter de pensar em mais nada, o descanso, aquela sensação de ter corrigido este erro. Acho que vou ter paz, por fim.”