Chico revisitado por Cristina Branco e Mário Laginha

Espectáculo criado para o festival literário de Óbidos, em 2015, estará agora cinco noites no São Luiz. A obra de Chico Buarque é a chave.

Cristina Branco com o trio de Mário Laginha na estreia em Óbidos, em 2015
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Cristina Branco com o trio de Mário Laginha na estreia em Óbidos, em 2015 MÁRCIA LESSA

A estreia, em Óbidos, teve uma recepção entusiástica. E talvez por isso, o espectáculo que juntou a cantora (e fadista) Cristina Branco ao trio de Mário Laginha tem por estes dias uma segunda vida, agora no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa. Nos dias 4, 5, 6, 11 e 12 de Fevereiro, sempre às 19h, vai ser possível assistir à recriação de uma selecção de canções de Chico Buarque por músicos que o admiram há muito.

A encomenda, em 2015, foi de Anabela Mota Ribeiro, curadora do festival FOLIO, e foi feita a Cristina Branco. “Pensei imediatamente no Mário [Laginha], porque toda aquela musicalidade dele vai muito beber a esse universo brasileiro.” Convidou-o, ele achou que devia ser ela a escolher as canções, seleccionou 18, e no fim, em conjunto, reduziram-nas para 16. Agora talvez sejam mais: “Vamos brincar com as músicas que não interpretámos no FOLIO e, dependendo da noite, vamos juntar temas novos.” Tal como na estreia, a 24 de Outubro de 2015, estarão em palco Cristina Branco (voz), Mário Laginha (piano), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria).

O disco que fez Cristina Branco despertar para a obra de Chico Buarque foi a Ópera do Malandro. “Talvez não tenha sido o primeiro disco que eu ouvi dele, mas foi o que mais me marcou. Porque ele entrou na minha vida no período da adolescência, quando eu passava muito tempo a ouvir música no meu quarto. As músicas eram todas muito apetecíveis, recordo-me de ter decorado quase o disco todo. A descoberta daquele universo todo, entre a perversidade, a luxúria, tudo aquilo me fascinou.” Daí a cantá-lo foi, mais tarde, um passo. “Quando gosto muito do universo musical de alguém, acabo por conseguir interpretá-lo. Desta vez não fui à procura, ele veio ter comigo.”

Quanto a Mário Laginha, mal Cristina Branco o convidou, aceitou de imediato. “Como eu pertenço ao grupo, felizmente muito numeroso, de pessoas que adoram o Chico, foi fácil. Acho o Chico maravilhoso, não só como compositor de música mas também como letrista e poeta. Na música, ele é um entre vários geniais (o Jobim, Francis Hime, Edu Lobo), mas nas letras ele faz tudo o que gostamos de ter numa letra: percebemos o que ele quer dizer, é tudo muito claro e dito de forma imensamente poética; e as palavras têm imensa musicalidade, não falta lá nada, as ideias não são rebuscadas, ele é mágico!”

E a interpretá-lo? “Noventa por cento da música que toco sou eu que escrevo. Não tenho que dar satisfações a ninguém, porque o autor sou eu. Mas quando nos debruçamos sobre a obra de alguém que admiramos muito, como é o caso do Chico, há uma preocupação enorme, sem deixar de tomar algumas liberdades, em respeitar quem escreveu, Por exemplo: quase nunca mexo numa harmonia. Mudar isso é mudar o que o autor quis dizer. Eu mexo numa coisa ou outra, às vezes, mas sem perturbar em nada essa linha.”

Os arranjos são de Mário Laginha, mas o resultado final tem contributos dos outros músicos. “Quando começamos a ensaiar, todos dão ideias. É um trabalho partilhado.”

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