Gabriel Ferrandini em busca da sua verdade

Em 2009, Gabriel Ferrandini era o "puto" que deixava todos de queixo caído. Nos anos seguintes, o baterista, movendo-se entre o jazz e a improvisada, destacou-se. Pertence a uma comunidade que procura a partilha e a verdade. A Volúpia das Cinzas apresenta-se na ZDB a 20 de Janeiro.

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Já ouvimos Gabriel Ferrnadini ser descrito como um pugilista da era clássica Sara Rafael
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O baterista nunca quis ser outra coisa, formado no jazz, mas aberto a outros universos Sara Rafael

Se já o viram em palco, recordam-se certamente. Parece em luta com a bateria mas, ao mesmo tempo, a fazer corpo com ela. Uma cascata rufada tarola fora, timbalões em sobressalto, os pratos abanando perante o ataque das baquetas. Um turbilhão com centro definido, uma torrente de energia que pode ameaçar descontrolar-se mas que nunca se perde em insularidade. Ele, que se chama Gabriel Ferrandini, luta aquela luta feliz com ouvido perfeitamente sintonizado com os músicos que o acompanham. Já o ouvimos ser descrito como um pugilista da era clássica: leveza e elegância de dançarino e o poder e a precisão no punho indispensáveis a quem faz de golpear do adversário a sua vida.

Gabriel Ferrandini, baterista que nunca quis ser outra coisa, formado no jazz, mas aberto a outros universos, quaisquer que eles sejam desde que lhe permitam descobrir mais sobre si mesmo, pertence a essa contemporaneidade sem complexos, sem hierarquias, sem barreiras, que procura afirmar-se com o outro, em contacto directo, orgânico, humano. Toca com Rodrigo Amado e com os CAVEIRA, com Thurston Moore e com Nate Wooley, com Peter Evans ou Manuel Mota. “Cada vez mais me parece que a nossa contemporaneidade é uma miscelânea de tudo. Hoje em dia ouves um puto tocar e precisas de recorrer a vinte estilos para identificar o que aquilo é. Para mim, isso é o mais bonito. Mais que seja free, jazz, rock ou bossa, o que me interessa é que seja a minha bossa, o meu jazz, o meu rock. É a minha linguagem sobrepôr-se à linguagem universal. Ser eu mesmo e não ser só um baterista”. A declaração será mais reflexo de uma necessidade criativa que de uma ambição pessoal (e isso, parafraseando-o, é muito bonito).

Ao longo de 2016, Gabriel Ferrandini estará em residência na Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto, em Lisboa, para se dedicar pela primeira vez de forma consequente à composição. Chamou-lhe “A Volúpia das Cinzas”. “Nasceu da mistura de querer compor e de querer encontrar um espaço, tanto temporal como físico, em que pudesse fazê-lo de uma forma calma e progressiva”, algo que o agenda muito preenchida e a constância das viagens dentro e fora de Portugal não permitiram até aqui. Entre a plateia, vamos acompanhar todo o processo, dado que, no decorrer da residência, Ferrandini irá apresentar concertos regulares na sala lisboeta. O primeiro acontece dia 20 de Janeiro. A acompanhá-lo, o saxofonista Pedro Sousa e Hernâni Faustino. “Eu e o Pedro somos amigos há imenso tempo. Vi-o a começar a tocar sax, porque ele antes tocava guitarra, e falamos a mesma língua. O Hernâni é um ‘master’ à antiga. Viu-me crescer e está na minha banda mais antiga, o Red Trio. Era impossível fazer isto com outras pessoas”, confessa.

Arriscar, inovar, ouvir mais
À nossa frente num dos ateliers da ZDB, entre mesas, cadeiras, um estirador e ferramentas diversas, Gabriel Ferrandini irá dizer o seguinte: “Acho que só estamos interessados em ouvir a verdade. Parece muito subjectivo, mas a verdade é claríssima quando a ouvimos”. Quando surgiu em cena, em 2008, Gabriel Ferrandini era o “puto incrível” que deixava de queixo caído quem o ouvia, o rapaz mal chegado aos vintes que podíamos encontrar numa sala da Trem Azul que Pedro Costa, co-fundador da antiga loja de jazz na Rua do Alecrim, em Lisboa, e da influente e prestigiada editora Clean Feed, lhe disponibilizara para estudar e ensaiar. Hoje, o seu percurso já é assinalável.

Tem o celebrado Red Trio que partilha com Hernâni Faustino e Rodrigo Pinheiro (piano). Tocou com o Motion Trio de Rodrigo Amado e ouvimo-lo no Wire Quartet, liderado pelo saxofonista, que editou em 2014 um muito recomendável álbum homónimo (acompanham-nos o supracitado Hernâni Faustino e o guitarrista Manuel Mota, nome de destaque da música improvisada e exploratória nacional). Já o vimos acompanhar Thurston Moore, como referido, ou o contrabaixista sueco Johan Berthling (é pôr os ouvidos em Casa Futuro, editado o ano passado em trio – o saxofonista Pedro Sousa completa a formação). Assistimos ao concerto explosivo dos CAVEIRA, free-jazz com guitarra a baixo eléctrico, na noite Noite Fetra (festa da editora/colectivo Cafetra), em Dezembro último na Caixa Económica Operária (Ferrandini, Pedro Sousa, o fundador Pedro Gomes na guitarra e o baixista Abras, de bandas da Cafetra como os Putas Bêbadas).

Em todos aqueles momentos, o baterista que nunca teve dúvidas – “Bateria? First and only love” – à procura dessa verdade. Que é a dele, certamente, porque há demandas que têm ser nossas e apenas nossas, mas também manifestação de algo partilhado – ele utilizará mais que uma vez a primeira pessoa do plural.

Em 2009, em entrevista à webzine Bodyspace, classificava o cenário em que se movia como “antiquado” e reclamava que “os músicos têm de arriscar, inovar e ouvir mais música, principalmente a feita hoje”. Em 2016, não dirá o mesmo. “Fazia-me muita confusão estar na escola com colegas do jazz que não sabiam quem era o Aphex Twin, que não conheciam a discografia de Squarepusher. Quando tocavam, ficava tudo muito óbvio e eu percebia porque é que o jazz estava tão fechado, porque é que tinha deixado de comunicar com as pessoas”. Pouco a pouco, “lançado no mundo”, conheceu mais. Cita o exemplo de Rodrigo Amado: “Tem a idade dos meus pais, mas dizia-me ‘bora tocar jazz’ e ao mesmo tempo falava do último disco de J Dilla, dizia que gostava muito de ouvir João Gilberto pela manhã e que no dia seguinte ia ‘fritar’ com os Black Bombaim [banda barcelense de rock psicadélico]”. Não, hoje não diria o mesmo que em 2009.

Ele que se apaixonou pelo free-jazz e pela liberdade da improvisação ao deparar-se com a sua componente europeia, não com os fundadores americanos (“os europeus não tinham o peso do passado com que lidavam os americanos e por isso tudo era frescura e novidade, tudo era futuro”), sente-se hoje num contexto diferente. Não é necessariamente uma questão geracional, afinal, o seu herói é o saxofonista Evan Parker, que tem 71 anos, e tanto nutre grande admiração pelo trompetista Sei Miguel como pelo cantautor Éme. “Até há alguns anos, estava tudo muito afastado. O pop de um lado, o jazzinho de outro, o rock e o free de outro. Depois aconteceu qualquer coisa. Juntou-se tudo e estes tempos que vivemos têm sido de uma liberdade brutal, sem carimbos. Vês pessoas disponíveis e com força para mergulhar no seu próprio filme. Isso é o que mais me inspira. Porque é que eu tenho que ir a um sítio para fazer rock e a outro fazer jazz? Não quero que seja tudo igual, mas que parta do mesmo sítio e que chegue ao mesmo sítio”.

Ou seja, todos juntos em busca da verdade de cada um. Gabriel Ferrandini procurará a sua durante um ano, juntamente com Hernâni Faustino e Pedro Sousa. E abre-nos as portas para que a possamos decifrar.