Morreu Pierre Boulez, o músico absolutamente moderno

Compositor e maestro francês, um dos nomes mais influentes da música erudita contemporânea, morreu aos 90 anos.

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Dirigia sem batuta. Dizia que não precisava porque os dedos das mãos correspondiam a dez batutas. A originalidade de dirigir com as mãos, referida nos obituários, serve para ilustrar a vida do compositor francês Pierre Boulez, intensamente dedicada a encontrar um novo lugar para a música erudita contemporânea. 

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Dirigia sem batuta. Dizia que não precisava porque os dedos das mãos correspondiam a dez batutas. A originalidade de dirigir com as mãos, referida nos obituários, serve para ilustrar a vida do compositor francês Pierre Boulez, intensamente dedicada a encontrar um novo lugar para a música erudita contemporânea. 

O compositor e maestro francês Pierre Boulez morreu na terça-feira à noite aos 90 anos. Boulez morreu em Baden-Baden, na Alemanha, onde vivia.

A sua morte foi anunciada nesta quarta-feira pela família através de um comunicado divulgado pela Philharmonie de Paris, a nova casa musical de Paris em cuja abertura esteve envolvido: “Para todos aqueles que lhe foram próximos e que puderam apreciar a sua energia criativa, a sua exigência artística, a sua disponibilidade e generosidade, a sua presença permanecerá viva e intensa.”

No ano passado, quando fez 90 anos, a Cité de la Musique, em Paris, dedicou-lhe uma exposição simplesmente intitulada Pierre Boulez, que traçava a biografia deste nome fundamental da cena musical da segunda metade do século XX. Foi na Cité de la Musique, aliás, que Boulez fundou, nos anos 1970, o Ensemble Intercontemporain, uma referência da música de vanguarda. Nessa altura, criou também, para o Centro Pompidou, o IRCAM (Instituto de Pesquisa e Coordenação de Música e Acústica), também especialmente dedicado à criação musical erudita contemporânea.

“Pierre Boulez não deixou de compor, de pensar a música e de trabalhar para a sua inscrição na cidade e na vida quotidiana”, notava a Cité de la Musique no anúncio da exposição de aniversário.

A sua vida foi dedicada à difusão da música contemporânea, à evolução do seu público e da criação, escreve-se no site do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian. Boulez era uma visita frequente em Portugal, especialmente na Gulbenkian, onde esteve cinco vezes com o Ensemble Intercontemporain. Mas dirigiu também no Porto, em 2001, a Orquestra de Paris e o (seu) Ensemble Intercontemporain no concerto que abriu o Ciclo Grandes Orquestras da Capital Europeia da Cultura – e onde interpretou obras de Schönberg e Béla Bartók. Nesse ano, Jorge Sampaio, então Presidente da República, entregou-lhe a Grã-Cruz da Ordem de Santiago.

“Uma inteligência fulgurante”
António Jorge Pacheco, director artístico da Casa da Música, guarda no seu gabinete uma fotografia que regista a situação em que, no dia 22 de Abril de 2010, participou com Pierre Boulez num debate na Cité de la Musique, em Paris.

Nessa altura, e desde o ano anterior, mantinha já uma relação de grande proximidade com o compositor que conhecera pessoalmente no Porto em 2001, aquando do citado concerto no Coliseu. “Era um homem de enorme simpatia com uma inteligência fulgurante”, diz Pacheco, lamentando o desaparecimento daquele que considera “uma das grandes figuras da cultura europeia da século XX”, e que “marca o fim de uma época na história da música”. Como escreve o jornal Le Monde no seu obituário o desaparecimento de Boulez “põe verdadeiramente fim ao século XX musical vanguardista que ele contribuiu notavelmente para moldar com outros compositores nascidos nos anos 20”, como Bruno Maderna (1920-1973), Luigi Nono (1924-1990), Luciano Berio (1925-2003), Karlheinz Stockhausen (1928-2007), György Ligeti (1923-2006) e ainda Henri Pousseur (1929-2009).

“Além de ser um compositor e um maestro genial, Pierre Boulez foi um pensador, que deixou uma obra também importantíssima nos livros que escreveu”.

Tocar no mundo inteiro
Apesar de se mover no mundo restrito da música erudita, Pierre Boulez conseguiu a proeza, como escreve o jornal francês Libération, de ser conhecido e tocar no mundo inteiro, sendo “considerado como uma das personalidades mais influentes do mundo musical”. O jornal lembra o teórico e pedagogo “de grande clareza” que “defendeu sem descanso o lugar da música nova nas programações dos concertos e encorajou a criação musical mais exigente”.

Como maestro, esteve à frente da Orquestra de Cleveland (1967-1972), da Orquestra Sinfónica da BBC (1971-1975) e da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque (1971-1977). É célebre a sua participação na produção do Anel do Centenário no Festival de Bayreuth (1976-1980), ao lado de Patrice Chéreau.

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O maestro nunca usava batuta e dirigia usando apenas as mãos

Este “enfant terrible”, que se exilou na Alemanha em 1966 por causa da atitude conservadora do mundo musical francês, disse numa entrevista ao PÚBLICO, feita por Augusto M. Seabra em 2000, qual devia ser o “papel” do músico, palavra que preferia a “dever”: “O que para mim é importante é que um músico entre nas instituições e que, se não estiver satisfeito com elas, lute pela sua transformação, crie novas instituições ou modifique as existentes.” Só em 1976 aceita regressar a França para fundar o Ensemble Intercontemporain, o primeiro agrupamento francês dedicado à música contemporânea financiado em grande parte pelo Estado.

Nessa entrevista falou também do acto de compor e porque gostava de usar conceitos como “espiral” para explicar essa experiência, além da “ideia” que está sempre na origem. A palavra “espiral” era evocada para dizer que uma obra “se pode acabar ou não” e, porque “ela é aberta, pode-se continuar”.

A propósito da sua obra Pli selon Pli (Portrait de Mallarmé), que disse ter trabalhado em plena utopia, explicou exactamente o que entendia por “espiral” aplicado à composição: “Houve várias obras que senti estarem incompletas. Há obras que me forçam a ir mais longe. [...] Senti que não a podia ainda concretizar pelo meu próprio gesto de chefe de orquestra à época, que era preciso um tempo e condições de realização que não estavam reunidas, e por isso revi a obra. Eu não penso que uma obra esteja ‘acabada’, ela está sempre ‘inacabada’, mas há um momento em que sinto que está ‘closed’.”

Boulez começou a trabalhar nesta obra para voz de soprano e orquesta em 1957, tendo feito várias versões até 1990.

Um antes e depois de Boulez
Para o músico Pedro Amaral, que estudou aprofundadamente a sua obra, a propósito da tese que dedicou a Stockhausen, amigo do compositor francês, há simplesmente um antes e um depois de Boulez na música da segunda metade do século XX. E porquê? Porque ele conseguiu reunir, logo no pós-guerra, as várias tendências dispersas da primeira metade, fazendo uma súmula coerente. “Deve-se a Boulez uma síntese extraordinária da heterogeneidade modernista do início do século XX – [Igor] Stravinsky, [Maurice] Ravel, [Claude] Debussy… O seu estruturalismo é exactamente isso – uma síntese sólida e fundadora”, defende o compositor português, actual director artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Quando Pierre Boulez começou a trabalhar, argumenta Pedro Amaral, a música contemporânea, nomeadamente o estruturalismo, estava arredada do circuito profissional. O que o compositor vem fazer, e muito graças ao seu trabalho como dinamizador cultural, enquanto fundador de orquestras e de centros de investigação (o famoso IRCAM), é impô-la a muitas das estruturas de produção de relevo a nível internacional. “Boulez institucionalizou a contemporaneidade musical, profissionalizou-a. Só ele conseguiu fazê-lo e esse é um dos seus contributos extraordinários.”

Dividindo a sua actividade entre a composição, com “obras emblemáticas” como Le Marteau sans Maître, peça de 1954 a partir da poesia de René Char, a produção teórica, com destaque para Penser la Musique Aujourd’hui, de 1963, a carreira de maestro e a de organizador da vida musical, Pierre Boulez teve um “percurso preenchidíssimo” e assistiu ainda à concretização de um sonho — a inauguração da casa da Filarmónica de Paris, há precisamente um ano.

Se tivesse de escolher apenas uma entre as suas composições, Pedro Amaral destacaria, muito provavelmente, a “obra-prima” Pli selon Pli: “Escolho-a pela sua qualidade inquestionável mas também porque ela tem um espelho na teoria em Penser la Musique Aujourd’hui. As duas são, aliás, o espelho uma da outra, e estão intimamente ligadas a Darmstadt.”

Pedro Amaral refere-se à cidade alemã onde se reuniam, nos anos 1950 e 60, jovens compositores como Boulez, Stockhausen, Luigi Nono e Luciano Berio formando um núcleo que ficaria conhecido como a escola de Darmstadt. Além de Pli selon Pli, e da obra de 1954 que o lançou como compositor, o director artístico da Metropolitana salienta ainda Répons, obra dos anos 1980 (1981-1988) também com várias versões, em que o compositor francês “põe a parte electrónica e a informática a interagir em tempo real com a orquestra ”, e Notations, peça da década de 1990 e em que Boulez faz uma viagem ao passado: “Ele pega em obras muito breves, que cria quando tinha 18 ou 19 anos, e faz a sua recomposição para grande orquestra. É neste processo que nos mostra como se pode levar ao limite a arte da escrita, como se pode, com muito pouco, fazer imenso.”

O director da Casa da Música lembra que Boulez foi inúmeras vezes “acusado de sectarismo e de secar tudo à sua volta”. É uma ideia que diz não corresponder à realidade. “Ele foi sempre um espírito aberto e atento, tendo apoiado os jovens compositores mesmo quando seguiam estéticas diferentes das suas”, nota. E cita, como exemplo, o facto de ter gravado em disco uma peça de Frank Zappa.

Ainda a ilustrar o facto de Boulez ter trabalhado e dirigido “um reportório muito vasto”, Pacheco recorda que o maestro lhe confidenciou, num dos seus encontros, que lhe faltava apenas “dirigir o Verdi dos últimos anos”. “Mas agora já é demasiado tarde para isso”, lamentou.

Em 2009, quando era o responsável directo pelo Remix Ensemble, António Jorge Pacheco convidou Boulez a assistir a um concerto desta formação portuense de música contemporânea no Centro Pompidou, numa altura em que já projectava a apresentação de uma retrospectiva da obra do compositor francês na Casa da Música. No final do concerto em Paris, o maestro surpreendeu-o com esta declaração: não só quereria dirigir o Remix, quando regressasse ao Porto, como faria nesta cidade a estreia mundial de nova versão da sua peça Répons, que entretanto iria concluir. “Foi uma ‘prenda’ inesperada”, diz Pacheco

O projecto da retrospectiva avançou, e Pierre Boulez deveria vir ao Porto para inaugurar o Ano França (2012), em que seria o artista associado na Casa da Música. Mas a doença impediu a concretização dessa sua vontade. A sua obra foi apresentada, ao longo do ano, pelo Remix e pela Orquestra Sinfónica do Porto, mas o maestro e compositor não chegaria a regressar à cidade onde estivera em 2001, altura em que conheceu a maqueta que Rem Koolhaas projectara para a Casa da Música, e cuja construção foi acompanhando à distância, adianta Pacheco.

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Pierre Boulez com Frank Zappa (ao centro) e o então ministro francês da Cultura

Pedro Amaral, o maestro da Metropolitana, não tem dúvidas de que, caso não tivesse cegado, Pierre Boulez teria criado até ao fim: “O drama de Boulez é que ele nunca dirigiu de cor, nunca compôs sem olhar para o papel, sem que esse exercício de criação passasse pela escrita.”

Com a morte do compositor, diz Pedro Amaral, desaparece o último dos visionários da escola de Darmstadt, “o último dos verdadeiramente modernistas da segunda metade do século XX”.