Acusado de sexismo, o festival de Angoulême assegura que “ama as mulheres”

A ausência de qualquer mulher na lista inicial dos 30 nomeados para o Grande Prémio motivou polémica e recusas. A direcção justifica-se, mas vai rever a selecção.

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A 43.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême começa a 18 de Janeiro DR

A polémica estalou em França, após o anúncio, na terça-feira, da lista dos 30 autores nomeados para a 43ª. edição do Grande Prémio do Festival Internacional de Banda Desenhada (FIBD) de Angoulême, que decorre de 18 a 31 de Janeiro, e já teve consequências. O facto de não surgir nenhuma mulher nos escolhidos pelo comité designado pela direcção do festival motivou em cadeia acusações de sexismo e discriminação, e houve até dez autores que recusaram integrar a lista, num gesto de solidariedade para com as suas colegas de BD. A própria ministra da Cultura, Fleur Pellerin, entrou em cena a considerar a situação “anormal”.

Pressionada por esta polémica, a direcção do festival decidiu justificar-se num comunicado publicado já esta quarta-feira, sugestivamente intitulado O festival de Angoulême ama as mulheres… mas não pode refazer a história (da banda desenhada). No final, anuncia que irá acrescentar nomes de mulheres à lista dos 30 nomeados para a conquista do Grande Prémio.

Num texto em que reforça a posição já anteriormente manifestada pelo delegado-geral Franck Bondoux, o festival explica que o Grande Prémio visa “coroar um autor (ou autora) pelo conjunto da sua obra e pela sua contribuição para a evolução da banda desenhada” – como o Rock’n’roll Hall of fame ou o César de Honra, nos mundos da música e do cinema. E nota que, nesta perspectiva histórica, é “objectivamente mais rápido contar as autoras (quase pelos dedos de uma só mão) do que os autores”.

Por outro lado, a direcção do festival lembra toda a sua vasta programação, que tanto nas secções oficiais como nas iniciativas paralelas dá grande atenção à BD no feminino, referindo, a título de exemplo, os 25% de edições que têm mulheres como autoras.

Mas recuemos umas horas atrás para entender a sequência da polémica, que apaixonou os seguidores desta que é considerada a 9ª. Arte, em volta daquele que é o mais importante festival internacional do sector na Europa.


O boicote

Depois da divulgação da lista dos nomeados, o francês Riad Sattouf, já duas vezes premiado com o principal galardão do festival, em 2010 (com o terceiro volume de Pascal Brutal) e no ano passado (com o primeiro volume de O Árabe do Futuro, já editado em Portugal), foi o primeiro a reagir: “Descobri que estava na lista dos nomeados para o Grande Prémio do FIBD. Isso deu-me imenso prazer. Mas acontece que só contém homens. Isso irrita-me, porque há muitas grandes artistas que mereceriam estar nessa lista”, reagiu Sattouf no Facebook, acrescentando preferir dar o seu lugar a autoras como Rumiko Takahashi, Julie Doucet, Anouk Ricard, Marjane Satrapi ou Catherine Meurisse.

O também francês Joann Sfar associou-se ao protesto de Sattouf: “Apoio a mil por cento a iniciativa de Riad. Nenhum autor pode desejar figurar numa lista exclusivamente masculina. Isso enviaria uma mensagem desastrosa para uma profissão que em todo o lado se feminiza. Naturalmente peço que o meu nome seja retirado da lista dos nomeados." O norte-americano Daniel Clowes foi o terceiro a aderir “voluntariamente ao boicote” dos seus colegas – noticiou o jornal Le Monde –, recusando a inclusão do seu nome na lista de candidatos a um prémio que, assim, considera ficar “esvaziado de sentido”. Ao longo do dia, mais sete autores se juntaram a um boicote, num imparável efeito dominó: Etienne Davodeau, Christophe Blain, François Bourgeon, Pierre Christin, Charles Burns, Chris Ware e Milo Manara.

Por seu lado, as autoras reagiram através do blogue do Colectivo das Criadoras de BD Contra o Sexismo, que reúne perto de duas centenas de artistas: “Manifestamo-nos contra esta discriminação evidente, esta negação total da nossa representatividade num medium que cada vez conta com mais mulheres." E apelaram mesmo ao boicote ao festival, cujo grande prémio se recusarão a votar, através de uma mensagem no Twitter em que lançaram a palavra de ordem #WomenDoBD.

Também a ministra de Cultura, Fleur Pellerin, veio a terreiro lamentar a selecção do FIBD, considerando “bastante anormal”, segundo a AFP, que nela não surja nenhuma mulher. Em declarações à France Info, Pellerin disse-se afectada “enquanto mulher e enquanto ministra” pela escolha da direcção do festival. “Falamos da BD como podíamos falar de música clássica, de direcção de orquestra, de muitas outras coisas; a cultura deve ser exemplar em matéria de paridade, de representar a diversidade”, acrescentou.

Questionado pelos jornais Le Monde e Libération, o já citado Franck Bondoux realçou o facto de o Grande Prémio ser a consagração do conjunto de uma obra”. “Quando olhamos para o palmarés, constatamos que os artistas que o compõem testemunham uma certa maturidade e uma certa idade. Infelizmente, há poucas mulheres na história da BD. É uma realidade. Se formos ao Louvre, também encontraremos poucas artistas femininas”, disse Bondoux, acrescentando que não estava na ideia da direcção do FIBD "instaurar quotas".

Esta declarações motivaram a réplica do Colectivo das Criadoras de BD Contra o Sexismo, que, através de Joanna Schiffer, classificou esta argumentação como “falaciosa – é a serpente a morder a cauda”. “As mulheres estão presentes há muito tempo na BD. O problema é que elas não conseguem chegar à meta, [porque] não apostam nelas”. E a autora compara o mundo da BD aos restantes meios artísticos e culturais, “onde os homens se escolhem entre eles”.

 

42 anos, uma mulher

A história de 42 anos do Festival de Angoulême, criado em 1974, mostra, de facto, uma presença ínfima da mulher tanto nos programas como nos palmarés. A única vez que uma autora ganhou o Grande Prémio aconteceu em 2000, com Florence Cestac, criadora da personagem de Harry Mickson. No ano passado, a única mulher a integrar a lista dos 26 nomeados para a distinção principal foi a franco-iraniana Marjane Satrapi, a criadora de Persépolis, que na edição de 2014 também entrara na lista, ao lado da britânica Posy Simmonds.

Em 1983, a assinalar a décima edição, o FIBD de Angoulême distinguiu Claire Brétécher com “um prémio especial do décimo aniversário". É muito pouco, em termos quantitativos. E mesmo se – nota o Le Monde – um relatório recente da Associação de Críticos e Jornalistas da BD diz que as autoras mulheres representam apenas 12,4% dos profissionais existentes em França, estas consideram continuar a ser menosprezadas pelos critérios da direcção do festival num ano – 2015 – em que foram publicados “excelentes álbuns assinados por mulheres”, reivindica Chatal Montellier, presidente da associação Artemisa, que se ocupa precisamente da defesa e promoção da BD no feminino. E cita títulos como Piano Oriental, de Zeina Abirached (Casterman); California Dreamin, de Pénélope Bagieu (Gallimard); Glen Gould, une vie à contretemps, de Sandrine Revel (Dargaud); ou Fatherland, de Nina Bunjevac (Ici même).

“É preciso forçar as coisas, como na política ou em meios dominados pelos homens. Se não há representatividade, não há exemplo. E sem modelo, é impossível a uma jovem autora projectar o seu nome”, defende Catel Muller, a escritora e biógrafa de mulheres (Edith Piaf, Kiki de Montparnasse...) que no ano passado foi precisamente distinguida no FIBD com o Prémio Angoumixte, à margem da programação oficial.

Seguindo uma metodologia estabelecida há dois anos, a partir de agora os criadores de BD (um colégio de cerca de três mil votantes, nota a direcção) podem votar na selecção dos 30 nomes (que, afinal, vão agora ser mais) estabelecida por um comité de programação do festival. No dia 13 de Janeiro, os três nomes mais votados ficarão nomeados para o Grande Prémio, a atribuir no decorrer do certame.

Notícia actualizada às 17h05 com referência à nova posição da direcção do festival.

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