Um ano a tocar Satie pelo país

Ao longo de 2016, Joana Gama vai apresentar mensalmente o recital Satie.150 em 12 localidades portuguesas. Um programa que combate clichés enquanto convida a uma descoberta do compositor francês.

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O 150.º aniversário do nascimento de Satie permite à pianista navegar pelos compositores da sua constelação pessoal: John Cage, Arvo Pärt, John Adams, Alexander Scriabin... Eduardo Brito

Um pin branco com letras vermelhas: “I love Satie”. A imagem que Joana Gama utiliza para ilustrar o concerto Satie.150 com que vai ocupar 2016 é uma dupla homenagem. Ao compositor francês, naturalmente, que a fascina não apenas pela obra mas também pela “figura tão interessante quanto enigmática ("Há uma parte enorme da vida dele que não se sabe e nunca se vai saber”, comenta), e também a John Cage, detentor original do referido pin, que a pianista portuguesa tem interpretado em várias ocasiões e formações  mais notoriamente no programa de celebração do centésimo aniversário de Cage organizado pelo Teatro Maria Matos e no duo Quest, que mantém com Luís Fernandes.

“Tenho um carinho enorme pelo Erik Satie e pelo John Cage”, confirma ao Ípsilon, “e como o Cage tocava muito Satie é como se continuasse esta linhagem de carinho. São duas fontes de inspiração em que penso quase diariamente, porque me abriram os horizontes. Em ambos, desligar a música da pessoa não tem a mesma força nem o mesmo impacto.” Joana Gama fala dos dois a propósito do programa que concebeu para assinalar o 150.º aniversário do nascimento de Satie, mas que lhe permite navegar por uma série de compositores da sua constelação pessoal (Cage, Arvo Pärt, John Adams, Alexander Scriabin e Carlos Marecos).

É devido ao desejo de ligação ao lado mais misterioso e íntimo de Satie que acrescenta como subtítulo ao seu recital “celebração em forma de guarda-chuva”. O mestre francês do minimalismo far-se-ia acompanhar sempre de um guarda-chuva e a alusão a esse facto funciona para a pianista como um isco lançado ao público para que investigue algo mais sobre o compositor e se depare, talvez, com os muitos textos e as muitas cartas que escreveu – à data da morte, quando finalmente a porta da sua casa foi transposta, foram encontradas muitas missivas por enviar e um caos aparentemente inconciliável com o homem que se passeava com um dos vários exemplares do mesmo impecável fato de veludo. Tudo isto fascina Joana Gama. “Quando comecei a tocar Satie e a interessar-me, percebi que se levanta o véu e é um mundo gigante”, diz. “Gostava que isto suscitasse o interesse das pessoas e que as levasse a procurar.”

O primeiro desses convites dirigidos ao público acontece já a 7 de Janeiro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, seguindo-se uma outra localidade nacional ao ritmo de uma por mês: Guimarães (Fevereiro), Vila Real (Março), Viseu (Abril), Ponta Delgada (Maio), Espinho (Junho), Sardoal (Julho), Cacela Velha (Agosto), Serpa (Setembro), Faro (Outubro), Castelo Branco (Novembro) e Braga (Dezembro).

Combater o cliché
Erik Satie era também conhecido por fazer longas caminhadas, entre Arcueil, nos arredores de Paris, e o centro da capital francesa, parando nos cafés do caminho para tomar anotações de ideias musicais. “Dizem até que há um certo ritmo nas suas peças que pode ser fruto do facto de pensar nelas enquanto andava”, conta Joana Gama. De facto, foi com essa informação em mente que a pianista primeiro abordou um reportório em parte coincidente n’Os Dias da Música de 2010,  com um programa intitulado Erik Satie, o Peripatético. Satie.150 recupera parte substancial desse reportório, numa inesperada relação com o passado que Joana diz estar a explorar: “Demorei algum tempo até perceber o prazer que era tocar as peças várias vezes, em contextos diferentes e passados vários anos. Quando estamos a estudar incutem-nos que temos de estudar muita coisa, tocar muitas peças, sempre numa vertigem de tocar tudo.”

Cinco anos depois, tornou-se evidente para Joana Gama que todos estes compositores têm uma tendência para aquilo a que chama “uma certa ‘desformalização’ da música”. “No caso da contemporânea”, explica, “há música directamente herdeira da evolução que foi acontecendo e que passou pelo dodecafonismo e por toda esta música que começou por ser atonal e se tornou extremamente complexa e muitas vezes não expressiva e não emotiva". Quis, acrescenta, "recuperar compositores que criaram a sua própria linguagem e que, no fundo, saíram dessa linha contemporânea que foi dar ao Emmanuel Nunes e a outros compositores recentes”. Daí, por exemplo, o “minimalismo mais enriquecido” de John Adams, cuja peça China Gates retém o movimento estático e contemplativo que permite à pianista ligar ao universo de Satie características que, de uma forma bastante diversa, encontra também em Für Alina, de Arvo Pärt.

Für Alina, diz-nos Joana Gama, é mais uma peça “muito na moda, que agora entra em muitos filmes, abre o último do Nanni Moretti [Minha Mãe]” e, brinca, “vai destronar a Gymnopédie nº1 daqui a pouco”. A peça mais conhecida de Satie, espalhada por inúmeras obras de cinema e presença assídua em publicidade – “foi assassinada, um pouco como as Quatro Estações de Vivaldi”, comenta Joana –, é uma das suas escolhas para Satie.150. E é uma escolha de combate contra a sua banalização. “Toco a Gymnopédie nº1 no recital porque acho que é uma peça lindíssima, independentemente do que fizeram dela. Mas a minha ideia é mostrar que o Satie tem essa peça e outras completamente diferentes, como a Sonatina Burocrática, em que no meio da partitura escreve uma história surreal de um senhor que vai trabalhar para o escritório e que ele proíbe terminantemente os intérpretes de dizerem em voz alta.” Havendo uma peça imediatamente reconhecível no seu programa capaz de oferecer algum conforto ao público, a verdade é que a revelação poderá manter-se intocada, uma vez que em qualquer destes casos são sempre os mesmos 10 ou 15 segundos a serem repetidos ad nauseam.

840 vezes
Tendo pensado inicialmente em comemorações mais alargadas que pudessem valorizar as ligações de Satie a outros criadores como Jean Cocteau, Pablo Picasso ou René Clair, Joana Gama foi-se rendendo à sua situação solitária e preferiu garantir, antes de mais, o ciclo de concertos com que atravessará 2016. O que não significa que Satie.150 esteja pensado exclusivamente para os palcos em que actuará a solo. Em cada uma das suas paragens, a pianista tentará acoplar uma palestra que leve um pouco da história do compositor até vários públicos, consolidando uma ideia de contexto fundamental para que a sua acção deixe um lastro mais generoso atrás de si. Nesse sentido, também a Cinemateca Portuguesa apresentará a 17 de Maio a curta-metragem Entr’Acte, de René Clair, com banda sonora e participação especial de Satie, e Joana Gama prevê ainda abordar na sexta edição do Festival Jardins Efémeros, em Viseu, uma das peças mais intrigantes do compositor. Encontrada no espólio de Satie após a sua morte, Vexations “é uma partitura de uma página, um pequeno excerto que demora um minuto ou minuto e meio a tocar”. O insólito é que Satie instrui o pianista para que, muito concentrado e na maior das imobilidades, toque o excerto 840 vezes. A primeira audição pública de Vexations foi organizada por – quem mais? – John Cage, dividindo a tarefa por vários pianistas, entre os quais John Cale, antes ainda de formar os Velvet Underground.

São experiências como esta que levam Joana Gama a interessar-se sobretudo por autores recentes e contemporâneos, algo que descobriu através das suas participações noutras disciplinas artísticas. Essa afinidade tem sido desenvolvida sobretudo com dança e, antes de mais, com Tânia Carvalho. Impressionada com o solo Uma Lentidão que Parece Uma Velocidade, em 2007, em que a coreógrafa dançava e tocava uma sonata de Mozart desconstruída, Joana marcou uma reunião para se conhecerem, disponibilizou-se para colaborarem e quando deu por isso estava a protagonizar Danza Ricercata, tocando Ligeti e obedecendo a uma coreografia composta para si. Agora, confessa, decidiu assumir essa ligação com a dança na sua biografia, percebendo que também a sua forma de tocar está “intimamente ligada” a ter feito ballet em criança. “Durante muitos anos esqueci a dança, mas acaba por vir ter comigo.” A partir de quinta-feira, portanto, vamos ouvir como dança Satie.