Crítica

Guitarras ao alto

Com novos discos, os guitarristas portugueses Pedro Madaleno e Nuno Costa afirmam a sua identidade.

A guitarra sóbria de Costa não tem preocupação de se fazer notar
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A guitarra sóbria de Costa não tem preocupação de se fazer notar

Pedro Madaleno é já um veterano da cena jazz portuguesa, tocando desde a década de 90, tem gravado na condição de líder desde 2002 e este novíssimo That Smile On Your Face é já o seu quinto disco. Se nos discos anteriores gravou sempre em quarteto, para este novo projecto juntou um grupo mais alargado, um sexteto que cruza gerações. Por um lado, Madaleno encontra aqui a companhia de históricos como Bruno Pedroso (bateria) e Yuri Daniel (baixo) – este participou no primeiro disco do guitarrista e nos últimos anos tem tocado com o gigante Jan Garbarek. Por outro lado, juntou também músicos da nova geração: Diogo Vida (piano), João David Almeida (voz, guitarra acústica e percussão) e o acordeonista João Barradas, um dos mais evidentes jovens talentos do actual jazz português.

Pomos o disco de Madaleno a tocar e a música arranca com aquele travo a Pat Metheny, um som cheio e muito claro, a guitarra seca que se destaca. Abrimos o booklet e vemos que essa ligação é assumida, esse tema tem mesmo uma dedicatória a Metheny. Mas apesar da influência directa, o disco não se fica por essa reverência, a música de Madaleno ousa atravessar fronteiras, aproximando-se da world music, cruzando mundos, passando até pelo cinema (o último tema, numa toada sentimental, é uma homenagem a Morricone).

Pedro Madaleno apresenta aqui um trabalho mais sofisticado, onde a diversidade de ideias da composição é realçada pela sofisticação dos arranjos. Individualmente, há destaques naturais: a guitarra controla todo o espaço com segurança, a secção rítmica é robusta, o piano está sempre presente e, sobretudo, sobressai o acordeão irrequieto de Barradas.

Com uma carreira mais curta, o também guitarrista Nuno Costa acaba de lançar o seu terceiro álbum, Detox, também gravado em sexteto. Ao lado de Costa estão aqui nomes sonantes da cena lisboeta: dois irmãos Moreira, Bernardo no contrabaixo, João no trompete, e o baterista André Sousa Machado. A estes juntam-se dois jovens músicos oriundos do norte: João Guimarães (saxofone alto) e Óscar Marcelino da Graça (piano). Logo nos seus dois primeiros discos, (...) Reticências entre parênteses e All Must Go, destacou-se a originalidade da composição de Costa, associada a um certo lado paisagístico.

Essas características são confirmadas neste terceiro disco, onde os temas não têm pressa, evoluem tranquilamente com a participação colectiva. A guitarra sóbria de Costa não tem preocupação de se fazer notar, abre espaço aos parceiros, que exploram convenientemente e com experiência cada intervenção. Mas, apesar de não ser gulosa, também a guitarra de Nuno Costa se faz notar, com o seu fraseado bem controlado, como acontece no tema A vespa contra-ataca, onde sola a alto nível. Como nota de curiosidade, no booklet deste disco o autor assina um pequeno texto sobre cada uma das composições e, mais do que escrever sobre a música em si, explica os títulos e sentimentos ligados a cada tema. Esta é uma ideia que poderia ser imitada por outros músicos, por ajudar a orientar o ouvinte, combinando a pura fruição sonora e o desvendar do seu universo.