Torne-se perito Entrevista

O inocente politizado

Emigrado em Londres, Luís Nunes desistiu de ser Walter Benjamin e passou a ser Benjamim, português que canta canções pop inocentes cheias de raiva lá dentro. Ou ele ou seu novo heterónimo, um dos dois fez um disco admirável, numa língua redescoberta.

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Benjamim foi o nome que Luís Nunes adoptou quando tinha urgência de voltar para Portugal e de cantar em português — Auto Rádio não podia ser de nenhum outro lugar Gonçalo Pôla

Luís Nunes está sentado à mesa de uma pastelaria em Lisboa, o cabelo desgrenhado, a camisa semi-aberta e aquele ar. Sabem que ar é: o de quem dormiu cinco horas e depois conduziu à chuva, com ressaca, após uma noite de copos. Na noite anterior tocara no Porto, na Igreja de Santo Ildefonso, em maratona de Nos D'bandada – acabado o concerto, em vez de ir dormir foi perder-se pela confusão.

No momento em que o encontramos está satisfeito. Uma hora depois o tom será diferente, à medida que dispara contra o Governo; mas por enquanto ainda recorda o concerto da noite anterior, o primeiro com banda completa desde que Auto Rádio saiu. “Não tocámos o disco todo, que é sempre uma coisa que me desagrada, mas foi o concerto em que tocámos para mais gente”, conta, satisfeito com a recepção que recebeu.

Auto Rádio é o primeiro disco de Benjamim, o seu novo heterónimo. Até há pouco tempo, Luís Nunes era conhecido como Walter Benjamin, nome sob o qual gravou a sua própria obra em inglês e providenciou teclas e outros instrumentos em discos de artistas como João Coração. Tudo parecia bem na vida de Walter: estava em Inglaterra, já ganhava a vida a fazer som em concertos – e no entanto um dia, há três anos, decidiu que ia cantar em português. Deixou tudo e deu por si no fim do mundo – ou em Vizela, que não é tão fim do mundo assim.  É que há uns tempos, ainda nem o disco estava cá fora, Benjamim decidiu fazer uma digressão. “No Verão “, explica, “tocámos 33 concertos em 33 dias seguidos. Acho que foi a primeira vez que isso aconteceu em Portugal – pelo menos tantos dias." Só pelo nome dado à digressão esta já valeria a pena: chamou-se Volta a Portugal em Auto Rádio.

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Por trás disto há uma espécie de ideologia: “A ideia era levar música às pessoas”, diz. “Fazer uma digressão grande, que é uma coisa que não se faz cá em Portugal." Verdade: é muito raro uma banda, para mais desconhecida (e estamos a incorrer num erro, porque Benjamim não é uma banda, é um tipo) dar tantos concertos. Como raio é que ele conseguiu isto? “Tenho um agente incrível, o João Vaz Silva”, diz, enquanto dá um golo num café e puxa de um cigarro (descansem: não se fumou dentro do estabelecimento; fomos à rua executar esta manobra).

Nisto surge um tema recorrente nas histórias de Luís Nunes: “Tive esta ideia com um amigo meu, numa adega em Cuba. Já tinha bebido uns copos. No dia seguinte, sóbrio, liguei ao agente, pensando que este iria dizer que a ideia era absurda. Ao fim e ao cabo, na altura nem single de apresentação tinha na altura. Mas ele  adorou a ideia e desatou a chatear imensa gente – até o concerto no Bons Sons foi marcado assim. Tivemos sorte porque a Antena 3 apoia o disco – e quando mencionas uma rádio num bar, a coisa ganha outra estatuto, outra legitimação."

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Só em Portugal
Sorte da malta das 33 terras que ouviram Auto Rádio em primeira mão, porque é um disco absolutamente admirável, de pop (se quiserem) portuguesa. Abre com uma mão cheia de canções impressionantes: a pop atmosférica de Eu quero ser o que tu quiseres, essa delícia gingona que é Tarrafal, o super-funk de SINTONIZA!, as guitarrinhas indie de Os teus passos, e esse tema de refrão fenomenal que é O Quinito foi para a Guiné.

“Pela primeira vez consegui escrever sobre coisas que não existem em mais lugar nenhum do mundo”, diz Nunes. Estamos de novo sentados na pastelaria e ele, com humor, atira: “Como a Guiné." Faz uma pausa e atira a punchline: “Que só existe na Guiné”. Depois, mais a sério, prossegue: “Esse é um grande exemplo das vantagens do disco. Quando cantas em inglês usas um imaginário que pode pertencer a qualquer lugar." As referências, argumenta, "são partilhadas” por muita gente, porque é uma cultura fortíssima. Quando se canta em português "as pessoas são mais críticas, porque percebem o que está a ser cantado”. 

É uma das razões pelas quais está “à espera de ser trucidado pela crítica": A outra é ter tido de "aprender a compor do zero”, ao ponto de considerar este o seu primeiro disco. “Não renuncio ao Walter Benjamin. Mas não podes dizer que o primeiro disco dos Wings seja o 11.º dos Beatles. Ou lá quantos são."

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Benjamim começou a compor em inglês há três anos, em Londres, quando ainda o tratávamos por Walter Benjamin. Estudava engenharia de som, estava a trabalhar. Veio embora porque queria escrever canções em português. “Seria muito complicado dar concertos lá.”

É aqui que a conversa se torna política – bastante política. “Faço parte de uma geração que acreditou que tinha chegado ao fim da História. Não havia nenhuma guerra mundial. Estávamos na União Europeia. E de repente cai-nos a crise em cima e percebes que não há líderes e que a História não acabou”. 

Agora sim, ele está zangado e, como dizem os americanos, on fire: “E dás por ti a sentir que esta geração precisa de canções. Tens de marcar esta geração. A melhor maneira que tens de o fazer é ir para uma aldeia e tocar nas festas de Vizela. Queria pôr aquilo que faço ao serviço da minha consciência."

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Dissemos que ele estava imparável? Ele estava imparável. “Quando chegas ao final do disco tens a Exílio. Escrevi essa canção porque queria voltar para Portugal. E toda a gente me dizia para não vir. Começas a sentir-te exilado. Aquilo traduz o que eu sentia: não consegues voltar porque estão a vender o teu país, estamos a voltar ao pré-25 de Abril, quando se tinha de ir para os bidonvilles para se sobreviver."

Os teus passos

E de repente Luís Nunes está a fazer perguntas: “Quem são as nossas elites económicas e industriais? Qual a visão delas? Este disco é quase um fruto deste Governo de merda – um governo que só tem uma agenda: privatizar e vender."

Mais calmo, já semi-jantado, café tomado, cigarros fumados, volta ao tema de escrever em língua portuguesa – se bem que no fundo “ser português” foi sempre o tema da conversa, como se ele tivesse de ter emigrado para perceber quão português era. “Só o facto de a língua ser diferente muda o objecto todo”, explica. “A língua muda tudo, a quadratura da coisa, a métrica”, diz, de modo a enfatizar a tarefa que tinha pela frente quando decidiu escrever em português. “Além da angústia de não saber escrever em português há uma urgência. Porque não vais esperar dez anos para aprender." Mais sereno, a luta travada (por escrever em português, por retratar este Portugal) dá lugar, enquanto assunto primordial da conversa, às vantagens da mudança de língua: “Nunca tinha escrito sobre a Guerra Colonial, nunca o teria feito a cantar em inglês."

Falamos então um pouco sobre as estranhas influências que ele diz ter sentido a pairar sobre Auto Rádio: “Tarrafal é inspirada em Marco Paulo”, afirma, muito sério. “Em particular os coros." Ou: “O disco tem um lado Festival da Canção. Há canções pirosas, porque eu tive de borrifar-me para o preconceito, abraçar o mau gosto. Como em Do céu e da Terra."

Mas a dada altura percebemos uma coisa: há nisto uma espécie de manifesto. Um tipo redescobre a sua língua, a sua necessidade da língua nativa – da sua identidade. E descobre-o no exacto momento em que o seu país está a ir pelo cano abaixo. A pop inocente de Auto Rádio é menos inocente do que parece.

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