Entrevista

“Comer é um acto político. Um acto progressista e revolucionário”

André Silva é o cabeça-de-lista do PAN por Lisboa às eleições legislativas. Utópico assumido, acredita que vai chegar ao Parlamento porque os portugueses se revêem nas causas que defende.

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André Silva é o cabeça-de-lista do PAN por Lisboa às eleições legislativas Enric Vives-Rubio

Tem memórias fortes dos meses de férias em casa dos avós, que eram agricultores, no concelho de Tondela. De cozer broa, apanhar batata. Dos dias grandes. De ir, no fim de jantar, ao campo de milho, tirar uma espiga e assá-la. Mas também se lembra das matanças do porco e de outras formas de tratamento dos animais que lhe despertaram a consciência e que o fizeram, mais tarde, chegar ao Pessoas-Animais-Natureza (PAN). André Silva, 39 anos, é formado em Engenharia Civil, especialização em recuperação do património arquitectónico e artístico. Pratica mergulho e biodanza. Vive em Lisboa, numa casa com uma horta de 50 metros quadrados, onde faz compostagem. É vegetariano e tem um cão chamado Nilo.

É militante do PAN desde 2012, por que razão decidiu abraçar a política?
O PAN é um partido que propõe uma visão holística e integrada dos diferentes ecossistemas, sejam eles sociais, culturais, ecológicos ou económicos. Só é possível pensar e propor medidas alternativas tendo presente esta matriz organizadora: pessoas-animais-natureza. Revejo-me bastante nisso, tal como muitos portugueses. Esta defesa das três causas maiores responde aos anseios de uma parte muito significativa da sociedade. Eu assumo que sou um sonhador, um utópico. Dizemos que a utopia é inalcançável. Ainda bem, porque para mim é um motor e a forma de continuar a caminhar e a procurar um mundo melhor.

No que se refere aos animais, é abolicionista?
Há quem tenha uma perspectiva bem-estarista dos animais, isto é, permite a sua utilização, mesmo que eles tenham de alguma forma garantido o seu bem-estar. A perspectiva abolicionista, aquela em que mais me revejo, rejeita a exploração dos animais seja ela qual for. Quando falamos de espectáculos com animais, como circos, ou da tauromaquia, somos absolutamente abolicionistas. Temos de valorizar uma cultura ética e de compaixão e não podemos permitir que haja um divertimento humano à custa do sofrimento.

E em relação ao uso de animais na investigação e na ciência?
O PAN defende a sua abolição e que há alternativas viáveis e éticas, muitas vezes mais baratas e fiáveis. Porquê usar os animais? Não faz sentido.

A meta do PAN para estas legislativas é eleger dois deputados. Acreditam que vão conseguir?
Não somos um partido muito mediatizado, mas sentimos um apoio que cresce nas redes sociais e entre amigos e conhecidos. Sentimos que vamos ter um bom resultado, vamos ser a surpresa positiva das eleições.

Entende que a hierarquização e a concentração de poder são hoje em dia anacrónicas. A que se refere?
Temos sociedades baseadas em organizações piramidais. Praticamente todos os partidos têm estruturas piramidais, assim como a própria Assembleia da República. Defendemos uma maior horizontalização de todas as estruturas e uma participação mais activa dos cidadãos na política. No programa eleitoral, que deverá estar pronto agora, no início de Agosto, queremos incluir propostas de cidadania para participação na vida política.

Defendem mesmo a criação de um novo sistema político, social e económico e, dentro dele, propõem medidas como a redução do número de horas de trabalho para 30 ou um IVA da distância sobre produtos, tendo em conta o seu gasto da origem até à distribuição. Mas a ideia de um novo sistema político, social e económico é um pouco vaga… Quer concretizar?
Sejam quais forem as ideologias, de esquerda ou de direita, o que existe é um modelo económico-financeiro produtivista-consumista que gera problemas de vária ordem. O novo modelo de economia terá obrigatoriamente de atender às características finitas dos recursos. Temos várias medidas de eco-fiscalidade, como o IVA da distância, o fim dos apoios à indústria agro-pecuária, à agricultura sintética ou convencional. A nossa forma de produzir comida é altamente impactante. Está a levar à degradação do planeta. Vamos propor a criação de taxas sobre produtos com alto impacto ambiental, como a produção de carne e de leite, e produtos de longa distância. Vamos promover a discriminação positiva da agricultura biológica, porque vai regenerar os solos e garantir a soberania e a segurança alimentar de Portugal. Falar de alimentação é falar de impactos ambientais enormes e de cada vez mais doenças que vão grassando pela sociedade. Por isso digo: comer é um acto político neste momento. É um acto progressista e revolucionário. Não conseguimos mais diferenciar a manifestação pessoal da manifestação política. A forma como estamos a comer, a consumir, vai levar à degradação do nosso bem-comum, do nosso planeta.

A questão da alimentação está também presente nas vossas propostas para a Saúde…
Relativamente ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), o PAN defende uma forte aposta nos cuidados primários de saúde e uma alimentação mais saudável baseada em produtos sazonais, não sintéticos, biológicos e de origem vegetal. Há uma percentagem enorme do PIB, do Orçamento de Estado que vai para [o tratamento] de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, tudo devido à nossa alimentação. Se queremos a sustentabilidade do SNS temos de ter menos doentes. Ir à origem do problema.

Também defendem a redução de combustíveis fósseis e a transição para energias limpas e renováveis. Além do ambiente, quais são as ideias do PAN acerca de alguns dos grandes temas que preocupam actualmente os portugueses, como o desemprego, a dívida, a Europa?
Defendemos uma avaliação independente à dívida e, depois, a renegociação. Quanto ao emprego/desemprego, vivemos um grave problema de desemprego tecnológico. Uma das soluções passa por trabalhar menos horas, criando mais postos de trabalho. Esta redução do número de horas de trabalho prende-se também com o índice de felicidade das pessoas que devem trabalhar menos e ter mais tempo para outras questões como a família.

É por isso que, em vez de indicadores como o PIB, preferem o FIB (Felicidade Interna Bruta) e o indicador do Progresso Genuíno?
O progresso e o bem-estar da sociedade neste momento medem-se só por informação financeira. Não é suficiente. Esses indicadores incorporam informação não financeira.

Outra das vossas propostas passa pela redução dos círculos eleitorais. Porquê?
Porque vai permitir que os partidos mais pequenos consigam eleger deputados. Além disso, aquilo que precisamos neste momento é de pluralidade. O estado em que o país está deve-se às maiorias e às maiorias absolutas dos partidos do costume. É necessário entrarem novos actores políticos.

Como é que o PAN se situa no espectro político?
Não temos adversários. Trabalhamos para unir os portugueses em causas comuns, somos um partido de causas e de valores. E não nos revemos na categorização de esquerda e direita. O problema é estarmos a falar de sociedades produtivistas-consumistas, em que a base da economia é sempre o crescimento. É este mito em que todos os partidos estão fundados. E é este crescimento infinito que não tem respeito nem pelo planeta, nem sobre todos os restantes seres e recursos.
 
O PAN começou por chamar-se Partido pelos Animais, passou para Partido pelos Animais e pela Natureza e agora é Pessoas-Animais-Natureza. Porquê estas mudanças?
O PAN é um partido, porque tem de ser um partido. No fundo somos um conjunto de pessoas, um movimento que quer influenciar positivamente a política portuguesa. E para o fazer na Assembleia da República tem de ser em forma de partido. Mas nunca nos sentimos verdadeiramente um partido. Por isso, aquilo que fizemos relativamente ao PAN foi deixar cair o P de Partido para passar a ser de Pessoas. E para se perceber que o PAN também defende as pessoas. Muitas vezes não conseguimos transmitir bem essa mensagem.