Crianças do Porto aprendem a curar as feridas da cidade

Evento dedicado ao ambiente e sustentabilidade continua este fim-de-semana nos jardins do Palácio de Cristal. Crianças chamadas a olhar a envolvente e a curar as feridas urbanas.

Crianças aprendem a curar as feridas da cidade
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Crianças aprendem a curar as feridas da cidade PAULO PIMENTA

Há uma estranha cor azul a flutuar num dos lagos da entrada dos jardins do Palácio de Cristal. Tem a forma de um penso curita tamanho extra large, e foi ali colocado Nastasia Titova Sazonzieva, uma pequena grande “arquitecta” que quis chamar a atenção para dois problemas: “A água muito suja do lago, nem se conseguem ver os peixinhos, e para a estátua que está partida de um lado”.

Esta jovem de origem russa, mas nada e criada no Porto, comentava com a avó na língua que partilham o que andava ela ali a fazer, de mapa na mão, a apontar as feridas urbanas que ela e um grupo de crianças conseguiam encontrar no meio dos jardins e no edifício do Palácio de Cristal. Nastasia estavaesta sexta-feira a participar numa oficina da Arkiplay, uma das muitas propostas de actividades que, até domingo, vai animar este espaço portuense, no âmbito do Cidade Mais, uma iniciativa dedicada ao ambiente e à sustentabilidade, e que é organizado pelo segundo ano consecutivo no Porto.

Foi isso que a Nastasia, mas também o Manuel, a Pilar, o Levi e a Ema, ou o Pedro, o João e o Guilherme passaram a manhã de ontem a fazer: “curativos urbanos”. A chamar a atenção para feridas que precisam de ser reparadas. Perceberam que a cidade, e o espaço público é como um corpo, que precisa de cuidados, de ser bem tratado. E eles, que ainda não são “médicos”, nem podem apresentar soluções, estão, no entanto, mais do que capacitados para encontrar feridas nos espaços públicos.

“[As crianças] correspondem prontamente ao desafio, e são mais críticas e atentas do que muitas vezes podemos imaginar. Porque não têm o olhar distraído dos adultos. Um adulto não vai reparar numa mangueira que atravessa um jardim. Mas o Levi tinha razão. Uma mangueira é um obstáculo e um sinal de que o jardim não tem um sistema de irrigação adequado”, comenta Tiago Ferreira, um dos formadores da Arkiplay. 

“Felizmente”, os dois grupos que andaram a fazer o levantamento de campo - sim, que as crianças são pequenas, mas percebem bem os jargões das profissões dos adultos - encontraram feridas de pequena envergadura. O “curativo” que Manuel encontrou, e que está mesmo a precisar de um hospital, foi um candeeiro tombado e partido, em pleno jardim. 

“Aqui os problemas não são muito grandes, porque este é um espaço público tratado e cuidado”, explica Tiago Ferreira. Uma situação que, adivinha, não se irá repetir quando em Outubro voltarem a pôr em prática esta ideia da Rede OCARA noutras zonas da cidade. Para já, levam a confirmação de que quase nada escapa ao olhar crítico de uma criança. 

Há mudanças relativamente à primeira edição, e elas notam-se. A intensa programação do Cidade Mais, que mais não é do que um ponto de encontro de empresas, instituições, autarquias e cidadãos que pensam e agem naquelas temáticas, está este ano a decorrer mais ao ar livre. O evento continua a compôr-se de uma verdadeira maratona de oficinas e workshops, conversas e ateliers, conferências e aulas abertas, demonstrações artísticas e mercados de produtos que têm a ecologia e a sustentabilidade na sua descrição.

Pedro Marques, da Porto de Raiz, diz que a organização avaliou a edição passada e quis corresponder às expectativas. “Sentimos que o público se interessa mais por actividades ao ar livre. Mudamos o layout do evento, e organizámos ainda mais actividades para o público infantil. Porque sabemos que é nessas faixas etárias que podemos e devemos começar a plantar as noções de sustentabilidade, da necessidade de preservar recursos, de consumir menos”, explica.

Entre as muitas actividades e conversas que vão decorrer até ao próximo domingo, merece destaque o projecto “Uma vida como a arte”, desenvolvido por pessoas sem-abrigo. Como Noé Alves, que numa das conversas em que vai participar durante o evento, “A Invisível Leitura da realidade”, agendada para este sábado, às 15h30,  vai ler em público os poemas que escreveu. Esta sexta-feira à tarde foi a vez de estar envolvido na oficina “Alimentar a Rua”, onde voluntários que distribuem comida, e a população carenciada que, tal como Noé, se alimenta na rua, trocaram informações e partilharam experiências com quem os quis ouvir. 

E porque a cidade é um corpo de múltiplas dimensões, e porque há muitas feridas que é preciso curar, o Cidade Mais permite que adultos e crianças comecem a reparar mais nelas. Para depois actuar.