Sistema assistencialista dificulta saída da situação de sem-abrigo

Estudo aponta para a necessidade de rever os modelos de assistência e promover estratégias de integração.

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A maioria dos sem-abrigo (75,9%) admite que inversão da situação é, principalmente, da sua responsabilidade. Paulo Pimenta/Arquivo

Existe a necessidade da uma “revisão transversal dos modelos e estratégias assistencialistas de intervenção social desde a prevenção ao acolhimento e reinserção social, habitacional, laboral e comunitária”, aponta o estudo Situação de Sem-Abrigo e Inclusão Laboral: o valor do trabalho e das relações, apresentado esta sexta-feira na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da Universidade de Coimbra (UC).

Segundo o docente e investigador do Instituto de Psicologia Cognitiva e Desenvolvimento Vocacional e Social (IPCDVS) da UC, Joaquim Armando Ferreira, o principal o objectivo do estudo passou por tentar perceber “como é que, através do trabalho e do emprego, podemos tornar estas pessoas mais autónomas e eventualmente saírem da situação em que se encontram”.

Apesar de realçar o trabalho “fundamental” das instituições que prestam auxílio aos sem-abrigo, o coordenador do estudo explica ao PÚBLICO que o papel destas “não deixa de estar demasiado centrado na assistência”. Joaquim Armando Ferreira esclarece que o estudo mostra que “há muitas pessoas [nesta situação] que têm competências” e que pode “haver um lugar para o trabalho técnico de recuperação, através da análise das suas competências, nomeadamente projectos de acesso ao trabalho, para que possam deixar de estar neste ciclo de dependência”.

Os resultados mostram que os sem-abrigo tem consciência desta realidade e criticam “a manutenção da problemática pelo sistema assistencialista de intervenção predominante e que torna as pessoas dependentes do mesmo”.

O estudo levado a cabo entre 2014 e 2015 com base em 172 questionários e 14 entrevistas realizadas nas cidades de Coimbra, Aveiro, Vila Nova de Gaia e Porto, mostra as dificuldades que as pessoas que se encontram nesta situação enfrentam para sair dela.

Apesar de reconhecer que os profissionais das instituições de apoio possuem ferramentas eficazes para a saída da situação de sem-abrigo, 75,9% dos questionados admitem que inversão da situação é, principalmente, da sua responsabilidade. No entanto, 33% consideram que uma saída eficaz da situação de sem-abrigo é “difícil” e 29% classificam como “muito difícil”, uma vez que entendem que as “respostas sociais existentes são insuficientes e/ou inadequadas para responder de forma diferenciada à diversidade de situações”.

Apesar de não ter sido objecto de estudo, Joaquim Armando Ferreira considera que a crise está presente nas narrativas dos entrevistados e inquiridos. “Notam-se algumas mudanças nas pessoas que estão na situação de sem abrigo”, afirma, “nomeadamente, há pessoas com níveis de escolaridade mais elevados do que há uns anos”. O argumento da crise para ter ficado sem-abrigo também entra no discurso, mas estas são “mudanças que necessitam de ser estudadas”, entende.

Entre os motivos mais destacados para a entrada na situação de sem-abrigo estão a falta de rendimentos (42,3%), rupturas familiares (40,8%), desemprego (39,6%) e perda da habitação (22%). O estudo revela ainda que grande parte dos inquiridos já tinha abandonado os estudos precocemente devido à necessidade de trabalhar.