Portugueses aceitam taxas de carbono e subsídios às renováveis

Resultados nacionais de consulta mundial sobre alterações climáticas mostram pessimismo em Portugal quanto ao que está a ser feito.

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Penalizar o petróleo e apoiar as energias limpas é uma das soluções defendidas pelos portugueses que participaram neste inquérito Spencer Platt/Getty Images/AFP

Sim às taxas sobre carbono, não aos combustíveis fósseis. Mais subsídios às renováveis e mais dinheiro para as autarquias. E nem o país, nem o mundo estão a fazer o suficiente. Estas são algumas das opiniões expressas por 120 pessoas ouvidas em Portugal no âmbito de uma consulta mundial sobre o que devemos fazer para travar as alterações climáticas.

Realizada em 100 países diferentes, os resultados da consulta revelam que Portugal se destaca da média mundial em vários aspectos. Por exemplo, há menos pessoas “muito preocupadas” com o problema, os portugueses são mais pessimistas sobre o que está a ser feito para o solucionar e os combustíveis fósseis são cá menos bem-vindos.

Foram muitas as pessoas que quiseram participar da iniciativa, realizada no sábado no Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa. Bastou à investigadora Luísa Schmidt, co-coordenadora da iniciativa em Portugal, ir à televisão para o telefone não parar de tocar. De algumas dezenas de candidatos, em pouco tempo já eram mais de 400.

Na selecção daqueles que participariam, procurou-se constituir um grupo que representasse a população. Apenas num aspecto distanciou-o do padrão: havia 40% de licenciados, contra 16% da média nacional. “Não é uma amostra representativa, mas é quase”, afirma Luísa Schmidt.

Os participantes discutiram vários temas relacionados com as alterações climáticas e depois responderam a um questionário. Embora 98% tenham-se mostrado preocupados com a questão, apenas 56% estão “muito preocupados” – menos do que os 79% de média dos cem países que também participaram da consulta.

Os resultados revelam uma aceitação de medidas polémicas, como novos impostos ambientais e incentivos às renováveis, que acabam por aumentar o preço dos combustíveis e a factura da electricidade. Estas ligações não estão explícitas nas perguntas do inquérito. Mas 81% dos participantes declararam-se a favor de uma taxa de carbono e 57% consideram que subsídios à energia eólica ou solar são uma boa medida para reduzir as emissões de CO2.

Mais da metade dos inquiridos – 58% – acha que não se devem explorar novas reservas de petróleo, gás e carvão. Neste ponto, Portugal também se distancia da média mundial, que é de 45%.

Há uma grande desconfiança sobre o que está a ser feito para conter o aquecimento global. De todos os participantes, 59% acham que o problema não é uma prioridade nacional mas deveria ser, contra uma média mundial de 45%. E só 8% acreditam que, nos últimos 20 anos, as negociações climáticas internacionais têm dado resultado.

O inquérito incluiu perguntas que estão longe do dia-a-dia das preocupações do cidadão comum, mas que revelaram resultados interessantes. Por exemplo, oito em cada dez participantes (82%) consideram que parte do dinheiro do Fundo Verde Climático – criado pela ONU para ajudar os países mais pobres – deveria ir directamente para as comunidades locais, e não apenas para os governos centrais.

A investigadora Luísa Schmidt diz que uma das principais lições desta consulta é a de que se deve dar mais oportunidade para as pessoas opinarem sobre as alterações climáticas. “Temos de ser mais ouvidos. As pessoas são mais participativas do que imaginamos”, afirma.

O Governo francês, que liderou esta iniciativa a nível mundial, espera que os resultados ajudem nas negociações para um novo tratado internacional climático, que deverá ser aprovado numa conferência da ONU em Paris, em Dezembro. As conclusões nacionais serão também enviadas à Assembleia da República e ao Governo.

Noticia substituída dia 08/06 às 19h35