Fundação Sindika Dokolo vai ter antena mundial no Porto

Instituição angolana do empresário e coleccionador de arte africano vai organizar na cidade festival de música e bienal de poesia.

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Sindika Dokolo no cenário da exposição You love me, you love me not no Porto Maria João Gala

A Fundação Sindika Dokolo (FSD), instituída em Luanda, vai ter a sua nova antena mundial no Porto, num espaço que está ainda a ser procurado para o efeito em articulação com a autarquia local.

“Nós sentimo-nos muito próximos do conceito de 'cidade líquida' desenvolvido pelo Paulo Cunha e Silva, e achamos que o que está a acontecer na cidade, do ponto de vista cultural, é extraordinário”, disse ao PÚBLICO Fernando Alvim, artista plástico e vice-presidente da fundação, a justificar a escolha do Porto como sede europeia e antena mundial da instituição.

A informação da escolha da cidade como nova sede da FSD fora avançada esta terça-feira pelo jornal <i>Expresso</i>, a pretexto do balanço da exposição You love me, you love me not, que encerrou no passado domingo, 17 de Maio, na Galeria Municipal Almeida Garrett, e que teve cerca de 40 mil visitantes. E também confirmada por Paulo Cunha e Silva, que explicou que a decisão de Sindika Dokolo, um empresário congolês que é coleccionador de arte e marido de Isabel dos Santos, filha do Presidente de Angola, “é muito interessante para a cidade, que vai passar a ter acesso a uma colecção de arte particularmente rica”.

Fernando Alvim revelou ao PÚBLICO que o novo espaço da FSD no Porto – que deverá ser decidido dentro de duas semanas – irá acolher o núcleo de perto de duas centenas de obras da Colecção Sindika Dokolo que actualmente se encontra armazenado em Bruxelas, e que tem servido de base operacional para as várias exposições de arte africana que têm vindo a ser mostradas na Europa e no mundo.

Ainda que o novo espaço venha a ter valência de galeria de arte, a FSD espera poder continuar a dispor de outros sítios na cidade – como a galeria do Palácio de Cristal – para a realização de novas exposições. O novo espaço servirá fundamentalmente para os serviços administrativos e de apoio à organização de outras iniciativas. Entre estas, Fernando Alvim anuncia o lançamento, já no próximo ano e previsivelmente no mês de Junho, de um Festival de Música do Atlântico. Será um certame “mais intimista do que os grandes festivais de Verão, e irá decorrer em diferentes salas e ruas da cidade do Porto”, com nomes provenientes “das diferentes cidades banhadas pelo Oceano Atlântico”, tanto na costa europeia e africana como nas costas americanas, explica o vice-presidente da FSD.

Outra iniciativa que Fernando Alvim avança como estando no horizonte, igualmente para 2016, é a extensão ao Porto da Bienal de Poesia de Luanda, com autores dos vários países de língua portuguesa.

A medalha de Mérito – Grau Ouro atribuído no início do ano pelo presidente Rui Moreira a Sindika Dokolo, bem como “o balanço muito positivo”, nota Fernando Alvim, da exposição You love me, you love me not, certamente concorreram para a decisão do coleccionador africano de escolher o Porto como “única antena mundial fora de Luanda” da sua fundação. “Ficámos muito satisfeitos com a adesão da cidade, e sentimo-nos como que obrigados a estar no Porto”, diz Alvim, estabelecendo mesmo uma comparação entre a cidade portuguesa e a capital de Angola: “Apesar de Luanda ser uma cidade mais gasosa, ainda com as marcas do caos provocado pela guerra, há uma semelhança com a dinâmica cultural do Porto 'cidade líquida'" de que fala o seu vereador da Cultura.

E o vice-presidente da FSD revela mesmo que a escolha do Porto substituiu a hipótese que chegou a ser levantada de apostar numa cidade no Brasil”, onde a fundação também já teve uma antena.

O novo vínculo da fundação angolana com o Porto deverá passar, de resto, já este ano, pelo apoio à segunda edição do Fórum do Futuro, o festival internacional do pensamento cuja edição inaugural teve lugar em Novembro de 2014, e que no final do corrente ano voltará a trazer ao Porto várias figuras mundiais de topo nas diferentes áreas da cultura, da ciência e da política.

A FSD quer estabelecer também ligação com outras instituições da cidade, como a Casa da Música, de que deverá vir a tornar-se um dos fundadores, e a Faculdade de Arquitectura. E usar a sede no Porto para lançar pontes ou renovar pontes com outras cidades, como Lisboa, onde irá apresentar no Museu Berardo, na Primavera do próximo ano, a exposição itinerante Divina Comédia, comissariada por Simon Njami, actualmente patente em Washington e igualmente já mostrada em Frankfurt.

Pelo seu lado, Paulo Cunha e Silva, comentando ainda a decisão de Sindika Dokolo de instalar a sua fundação no Porto, acrescenta que ela irá também permitir aos portuenses “investigar o papel de África no mundo contemporâneo, um tema que também interessa à cidade, que não quer ficar confinada às fronteiras do nosso país”, acrescentou. 

O vereador da Cultura da Câmara do Porto vê assim coroada de êxito toda uma operação que foi lançada com a organização da exposição You love me, you love me not, comissariada pela angolana Suzana Sousa e pelo português Bruno Leitão, e que mostrou na cidade uma selecção de 80 obras de meia centena de artistas que estão representados nas mais de três mil peças que integram a Colecção Sindika Dokolo.

Quando apresentou a exposição, Paulo Cunha e Silva tinha, de facto, manifestado a expectativa de que ela fosse o ponto de partida para algo mais vasto, ambicioso e duradouro, nomeadamente a abertura de “um processo relacional” que poderia vir a “desembocar na criação no Porto de um pequeno polo da Colecção Sindika Dokolo”.

 
Notícia actualizada às 17h35, com declarações de Fernando Alvim, vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo.

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