Opinião

Algarve e a última fronteira

Este trecho de costa, reduto precioso da identidade algarvia, está a ser alvo da mais vandálica acção de destruição.

Em 2002, Miguel Sousa Tavares comentava neste jornal, PÚBLICO, um artigo de sua mãe, publicado em 1963, denominado Pelo negro da terra e pelo branco do muro, em que a poetisa, com notável perspicácia, enumerava os perigos que deveriam ser evitados no Algarve recém-descoberto: "A incompetência; o saloiísmo; as especulações com os terrenos; os maus arquitectos; o falso tradicionalismo; a mania do luxo e da pompa; as obras de fachada e acima de tudo a falta de amor."

Dizia, então, Miguel Sousa Tavares: "Apesar de tudo, porém, era difícil imaginar que a barbárie e a simples selvajaria atingiriam a dimensão actual e a que se vai seguir ainda, quando o que resta de teoricamente protegido — a ria Formosa e a ria de Alvor — for também devastado pelo 'progresso'."

Estas profecias certeiras situam-se, ainda assim, aquém da realidade acontecida. A acção destrutiva que, nestes últimos 40 anos, desabou nesta região e que se materializou na forma como se betonizou o litoral, se descaracterizou a paisagem do barrocal e se desfigurou todas as cidades, vilas e aldeias, empenha-se neste momento em aniquilar o impensável: as praias da costa rendilhada do Barlavento algarvio! Este trecho de costa, reduto precioso da identidade algarvia, referência obrigatória em publicações que compilam os locais do planeta com formações geológicas de espectacular valor paisagístico e de grande peculiaridade formal, e que, em todo o mundo, só tem similitude na costa australiana de Port Campbel, com estatuto de Parque Natural, está a ser alvo da mais vandálica acção de destruição: desbaste, desmantelamento, betonização e soterramento de arribas, leixões e rochedos, sob o critério de que a terraplanagem é o remédio santo para uma costa que é por natureza inerentemente instável.

Verifica-se, portanto, que a arbitrariedade nesta terra mártir não tem limites, o que pode ser comprovado, com cristalina nitidez, na próxima obra prestes a avançar: o entulhamento com toneladas de areão (chamar areia àquilo é uma força de expressão) da praia de Dona Ana, eleita recentemente a praia mais bonita do mundo pela revista espanhola Condé Nast Traveller e a mais bonita de Portugal pelo TripAdvisor. A acção prevista visa aumentar a extensão da praia em 40/50 metros, o que implica aumentar a quota em altura em vários metros, levando ao soterramento de uma quantidade enorme de rochas e leixões, transfigurando a praia num disforme aterro de entulho e aniquilando irremediavelmente qualquer parecença com a praia originária. Esta situação tem um precedente na praia da Rocha que ficou sem rochas e que constituiu o maior crime paisagístico ocorrido no Algarve no século XX. Os interesses económicos, que têm propalado aos quatro ventos a eleição da praia como a mais bela de todas, no momento seguinte condenam essa mesma praia e essa mesma beleza à pena de morte, sucumbindo à cobiça de colocarem no areal mais umas centenas de banhistas e dessa forma ultrapassarem o constrangimento de uma praia que sempre foi pequena, como todas as praias do Barlavento algarvio.

Esta dinâmica muito recente de criar uma, duas, três, muitas praias da Rocha no Barlavento algarvio segue imparável numa voragem de praias idílicas que o deixaram de ser: praia do Castelo, praia da Coelha, praia Nova, praia de Benagil, praia do Carvoeiro e mais um rol de outras tantas. Na praia de Albufeira, outrora dominada pelo escultural e icónico Rochedo do Peneco, o cenário é desolador: para lá do aterro de areia de qualidade miserável, o dito rochedo foi soterrado em grande parte, tendo-se perdido o seu carisma e a identidade que conferia à praia.

A paternidade destas acções de "defesa do litoral" cabe à Agência Portuguesa do Ambiente, e está a ser implementada ao longo de toda a costa portuguesa. Os argumentos são vastos: erosão e recuo da costa, défice de sedimentos devido às barragens, defesa de património construído no litoral, segurança dos banhistas, aumento previsível do nível das águas do mar. Eu acrescentaria outros três, de peso decisivo: a defesa das construções privadas à beira das falésias, as necessidades do turismo de massas de ter praias mais amplas para dar vazão às multidões e a expectativa de um novo renascimento imobiliário. Relativamente à costa do Barlavento algarvio são estes últimos argumentos "quem mais ordena".

A monitorização, vigilância e segurança nas praias de arribas são indispensáveis, mas a intervenção neste ambiente natural, de delicadeza filigrânica, exige a sensibilidade do artista e não a bruteza do buldózer, que é o que infelizmente tem acontecido até agora, revelando um confrangedor desprezo pelo património paisagístico.

A Costa Dourada, trecho situado entre Lagos e a ponta da Piedade de que faz parte a praia de Dona Ana, é a costa de todos os deslumbramentos de Sophia. Se a praia de Dona Ana for entulhada, pode abrir-se caminho para que isso aconteça em todas as outras. Será que a ganância vence a beleza? Tudo depende de nós.

Artista plástico e autor do livro O Algarve tal como o Destruímos