A praia mais bonita afinal é curta e por isso vai ser soterrada por areia

A praia D. Ana, distinguida com o titulo a “mais bonita do mundo”, vai duplicar de tamanho. Ao Ministério do Ambiente, a associação Almargem pede a “suspensão imediata do processo de destruição em curso”.

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A praia Dona Ana (Lagos) vai crescer, de forma artificial, para o dobro da área. O estaleiro de apoio às obras começou ontem a ser montado, com críticas dos ambientalistas aos trabalhos que vão obrigar ao encerramento da praia até ao início da época balnear. É uma “destruição da paisagem marítima ancestral e deslumbrante” desta praia, diz a Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental – Almargem, lembrando o outro lado da questão: os efeitos negativos dos empreendimentos turísticos encavalitados nas arribas.

A câmara de Lagos, numa nota distribuída à imprensa, considera que a obra da responsabilidade do ministério do Ambiente, é “indispensável para a viabilidade e continuidade da praia D. Ana, como praia de eleição e cartaz turístico de Lagos”. O alargamento da praia vai implicar a retirada 150 mil metros cúbicos de areia do fundo do mar, e ainda a construção de um esporão com 40 metros (que ficará parcialmente soterrado) a ligar um leixão à arriba. Durante o Verão, com a maré cheia, esta praia, de 40 metros de largura, fica reduzida uma pequena língua de areia, apinhada de gente a disputar a sombra das arribas.

A beleza da praia, lembra Maria José Trigoso, residente no local, “não está no tamanho, encontra-se nas suas características naturais, que pretendem agora artificializar”. Não será por acaso, observa, que a praia D. Ana foi recentemente considerada a “praia mais bonita do mundo” (revista Condé Nast Traveller) e a “melhor praia de Portugal (prémios TripAdvisor)”.

Por seu lado, a Almargem convocou para este sábado uma manifestação no local, com o objectivo de exigir ao ministério do Ambiente a “suspensão imediata do processo de destruição em curso”. Para os ambientalistas, a questão de fundo da defesa do litoral prende-se com a politica de ordenamento – empreendimentos construídos nas falésias sobranceiras à praia, exercendo uma “enorme pressão física sobre as rochas”. Neste caso, são apontados dois exemplos. O edifício Montana, debruçado sobre a falésia, com cinco andares (47 apartamentos), foi construído há cerca de três décadas. Na calçada de acesso às garagens abriu-se um buraco por onde escorrem as águas pela falésia até à praia. “Passo por ali todos os dias, quando vou levar o meu filho à escola, e tenho medo”, diz Ana Sousa, a porteira, acrescentado que a situação é conhecida da câmara há mais de três anos.

O empreendimento Iberlagos – 337 apartamentos, com uma enorme piscina construída sobre as rochas arenosas, é outro dos casos que obteve licença de utilização em 1997, cinco anos antes da publicação do Plano de Ordenamento da Orla Costeira ( POOC Burgau-Vilamoura). Durante a época baixa, a ocupação hoteleira é diminuta ou quase nula, mas quando chega Agosto não há praia que resista à massa humana. Os ambientalistas recordam que as zonas consideradas de maior perigo estão há muito tempo identificadas, situando-se entre a Ponta da Piedade (Lagos) e os Olhos d'Água (Albufeira). No entanto, tal situação não impede “com a conivência das autoridades” que surjam “com regularidade ainda mais novas construções” nesses locais.

As areias que vão ser depositadas na praia Dona Ana serão sugadas de uma profundidade de 40 metros, a cerca de dois quilómetros de distância da costa. A obra esteve para se realizar em 2009, mas devido à necessidade de fazer alterações ao projecto, acabou por ser suspensa. A proprietária do apoio de praia “Mar e Sol”, Luísa Martins, recorda-se de ter visto, nessa altura, a clientela a afastar-se quando as máquinas chegaram à praia. “Vamos ver se isto vai ser bom, não tenho muita fé”, observa, lembrando que a areia fina e dourada que actualmente existe vai ser coberta pelo areão escuro que vem do mar. Cá no alto, junto ao parque de estacionamento, o tendeiro Ramiro Lanceiro, comenta: “O mar leva, o mar traz”, diz, lembrando as muitas vezes que já viu os ventos de sueste deixarem a praia quase despida, para passado algum tempo voltarem a repor areias. Este comerciante foi um dos elementos que câmara de Lagos convidou, no passado sábado, a participar numa reunião para ouvir explicações técnicas sobre como é que se iriam processar as obras e pedir “compreensão” por eventuais incómodos que venham a suceder. “Não apanhei muita coisa do que foi dito, porque me falha o ouvido”, disse. Mas uma coisa reteve: “explicaram que areia vinha escura, mas depois o mar misturava com a outra e ficava clara”. A moradora do outro lado da rua, Maria José Trigoso, comenta: “Cinzenta, talvez”

O director regional da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Sebastião Teixeira, por seu lado, garante que esta operação que vai custar 1,8 mihões de euros, beneficia da experiência alcançada em intervenções semelhantes em anos anteriores. “Basta ir à praia Nova [situada ao lado da Senhora da Rocha - Lagos) e verificar o trabalho, positivo, que resultou da recarga artificial feita o ano passado”. Em relação às águas pluviais que rasgam a arriba, garantiu que os trabalhos de recuperação terão lugar depois de terminada o assoreamento da praia que vai permitir crescer dos 40 para os 80 metros de largura. Maria José Trigoso deixa uma advertência: “aumentam a praia, duplica o número de automóveis”. No Verão, diz, o estacionamento já é caótico – chega à Ponta da Senhora da Piedade. A porteira do edifício Montana, termina com um apelo. “Haja alguém que olhe para o Hotel Golfinho”. O edifício, abandonado, diz, “está transformado no covil de ratos”

Dormir à sombra da arriba
O despertar, aparente, para os riscos das praias com arribas deu-se com a derrocada da na praia Maria Luísa (Albufeira), em 2009, quando morreram cinco pessoas. A partir daí, de uma ponta à outra do Algarve, surgiram painéis de aviso de perigo e intensificaram-se campanhas de sensibilização. Nos anos seguintes, instalou-se a rotina – dormir à sombra da falésia.

Segundo os dados técnicos, a faixa de risco das arribas é de 1,5 vezes a sua altura. Na prática, equivale a dizer que nenhuma das dezenas pequenas praias do barlavento algarvio - por sinal, as mais cobiçadas – será totalmente segura porque a sua dimensão andará entre os 40 a 70 metros de largura. Por isso, a associação Almargem veio dizer: “Custe o que custar à imagem turística do Algarve”, a única solução para afastar o perigo, passa por uma ocupação parcial de cada praia, “delimitando no terreno, com vedações ligeiras de estacas e corda, a respectiva zona de risco”.