Crítica

A ponta feliz da bailarina

Tiago Rodrigues activou uma notável táctica de autoria descentralizada que estimula profissionais com invejáveis carreiras a criarem uma obra comum emocionante.

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Mário Laginha e Hruskova que não é actriz mas aguenta muito bem o desafio inédito BS
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Era uma vez uma menina que entregou o seu destino à dança do Ballet. Cresceu a esculpir o próprio corpo, com uma dedicação diária e implacável, para atingir o elevado patamar de virtuosismo físico, universalmente estabelecido como modelo da bailarina clássica: que tem braços como asas, pescoço de cisne, costas que sabem dizer “amo-te”, pernas como flechas e pés do outro mundo.

Nesta vida, a bailarina dançou mais horas do que dormiu; mas também sofreu muitos acidentes de trabalho, por obrigar o corpo a superar fracturas, estiramentos e inconformidades da fisionomia natural. Às vezes dançava com muita dor; mas dançar, conta-nos ela, Barbara Hruskova no palco da CNB: “é um tsunami, partem-se os espelhos, vais voar! Dói, mas dói mais quando estás parada”.

Esta é a história que Tiago Rodrigues escreveu e trouxe ao palco de uma forma tão arguta e audaciosa quanto arrebatadora. Todos os elementos clássicos de um bailado estão presentes: enredo, personagens, bailarinos, figurinos, cenários, iluminação e música. Mas a reunião acontece num modelo de criação e encenação contemporâneo, que segue princípios opostos aos que regem o objecto deste espectáculo. Rodrigues prossegue uma estratégia de desconstrução invulgar: ele chama à cena a verdade escondida num attitude arabesque aberto a 180 graus e equilibrado sobre os 5cms da sapatilha de ponta; contudo nunca menospreza as qualidades da obra que desconstrói. Ele encontra virtudes e elogia-as, com um rigor analítico e uma dose refrescante de humor e ironia.

Este elogio decorre do método: a história da pessoa é contada pela própria pessoa, o que hoje é um aspecto fulcral nas ciências humanas. Em 1995 a ensaísta Susan Foster acusava o Ballet de perpetuar uma problemática posição para a mulher: coagida a ser perfeita e objecto de desejo. Mas aqui, a crítica ao absolutismo que marca este género de dança, é confrontada, pela verdade espelhada no sorriso da bailarina; ela transpira uma alegria celestial quando dança e quando revê, com palavras e marcações, a dança que fez toda a vida.

Hruskova olha frontalmente o seu grande público de mão na anca, com uma perna estilizada e alongada pela prótese da sapatilha e a outra perna nua,  lesionada e agora liberta. Pé apolíneo (de bailarina) e pé de bacante, ela descreve, citando os dois estereótipos do feminino que, através do Ballet, se espalham há séculos e mundo fora.

Em A Perna Esquerda de Tchaikovski opera ainda uma notável táctica de comando descentralizado, onde os profissionais com sólidas carreiras se encontram e é daí que nasce uma obra nova e emocionante. O pianista Mário Laginha assumiu o papel simbólico de afinador, com uma postura discreta, reverente à estrela que brilhava e às magistrais partituras que acompanharam os seus bailados. Dessa presença pacífica emerge uma composição para piano imaginativa, emotiva, divertida, muito bem ritmada, que é essencial para o equilíbrio da peça.

Hruskova não é actriz mas aguenta muito bem o desafio inédito. São extraordinárias a descrição do Lago dos Cisnes com base no esforço que a coreografia exige ao corpo; as danças de soma e colagem criadas a partir de histórias pessoais de prazer e de dor; e a revisão de um pas-de-deux de Romeu e Julieta em linguagem técnica: “équilibre, posé, rond de jambe, piqué soutenu, developpé devant, bourrée bourrée bourrée”.

Não percam! A bailarina já se despediu do palco oficialmente e já prometeu liberdade ao seu corpo. Esta pode mesmo ser a última vez.