Crítica

Mergulho para o futuro

A associação Porta-Jazz continua a fazer História com uma nova dose de jazz vibrante e fresco

Mergulho, o segundo disco do ensemble Coreto, ficará para a História do jazz feito em português
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Mergulho, o segundo disco do ensemble Coreto, ficará para a História do jazz feito em português

Com quatro novos lançamentos, a associação Porta-Jazz desvenda mais uma dose de jazz nacional fresquíssimo, oriundo da cidade do Porto. Com excepção do Coreto (aqui no segundo registo), temos aqui três estreias: João Mortágua liderando o seu quarteto, o trio Bode Wilson e o quarteto MAP.

Mortágua revela desde logo um óptimo domínio instrumental, num disco marcado pela originalidade, com o saxofonista a assinar todas as composições. A nível instrumental há bons apontamentos, solidez e imaginação — veja-se a exploração do saxofone em Girândola ou Lego. O apoio da secção rítmica é notável, mas há que valorizar sobretudo o trabalho na guitarra de Miguel Moreira, muito presente. Menos interessante é a constante presença da voz (do próprio líder/saxofonista), que pouco acrescenta ao tecido instrumental.

Bode Wilson é o original nome adoptado pelo trio constituído por João Pedro Brandão (sax alto, flauta), Demian Cabaud (contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (bateria). Cabaud e Cavaleiro formam uma das mais sólidas secções rítmicas da cena nacional e o saxofone de Brandão junta-se para injectar criatividade. Apesar de não ser estreia discográfica para nenhum dos músicos, é a estreia de um grupo aportado no formato seco de saxofone/contrabaixo/bateria. A música do trio assenta em temas originais, com excepção de Re: Person I Knew, de Bill Evans, e o equilíbrio do grupo é permanente: o contrabaixo dialoga com o saxofone e a bateria nunca fica escondida. O tema final — combinação de flauta cândida, contrabaixo suave (em arco) e bateria em bicos de pés — é a perfeita despedida comovente.

No caso do quarteto MAP, o título do disco ameaça, mas a música acaba por não provocar uivos à meia noite. É um jazz tranquilo, alicerçado no piano de Paulo Gomes, bem apoiado pela guitarra de Miguel Moreira. A secção rítmica é composta por Miguel Ângelo (contrabaixo) e Acácio Salero (bateria), num trabalho estável. Reverente da tradição, arriscando poucas ideias fora da caixa, a música dos MAP cumpre — embora raramente seja capaz de seduzir ou deslumbrar.

Foi o Coreto que inaugurou o selo editorial Carimbo Porta-Jazz e, para a sua décima edição, foi escolhido o segundo registo deste ensemble constituído por 12 músicos. Se no primeiro disco o líder do projecto foi o saxofonista João Pedro Brandão (responsável por todas as composições e pela orquestração), para este segundo álbum o grupo está sob a direcção do guitarrista AP (António Pedro Neves). O grupo reúne alguns dos instrumentistas mais talentosos do Norte, como os palhetistas João Pedro Brandão e José Pedro Coelho, a trompetista Susana Santos Silva ou o pianista Hugo Raro. Os temas de AP servem-se do potencial do grupo, explorando diferentes ambientes, combinando a energia de big band com a criatividade dos instrumentistas. Acima de tudo há que realçar a qualidade das composições de AP, particularmente a magnífica Suite da Terra, que na sua amplitude e na sua diversidade é a essência deste disco. Este é já um dos melhores registos da colecção Porta-Jazz e, se a passagem do tempo lhe fizer justiça, ficará para a História do jazz feito em português.