António Costa tem um ano para refazer a unidade no PS e conquistar o Governo

Costa tem menos de um ano para tentar ser primeiro-ministro. Até lá terá de concentrar-se no programa eleitoral e unir o partido. Tarefas que pode começar a desempenhar antes de ser formalmente eleito líder

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Ao mesmo tempo que se prepara para as directas e para o congresso, Costa lançará mãos à obra para unir o partido e elaborar um programa de Governo, que terá de ir muito além da ideia da Agenda para a Década.

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Ao mesmo tempo que se prepara para as directas e para o congresso, Costa lançará mãos à obra para unir o partido e elaborar um programa de Governo, que terá de ir muito além da ideia da Agenda para a Década.

Como era natural no caso de António José Seguro perder as primárias e se demitir como tinha prometido, Alberto Martins anunciou também ontem à noite que abandona a liderança do grupo parlamentar. Isto porque, além de ser membro da direcção de Seguro, o seu grau de comprometimento com este tornou-se absoluto nas últimas semanas de campanha em torno da defesa das propostas sobre o sistema político (sistema eleitoral e incompatibilidades). E tinha já sido ele, com a colaboração de José Magalhães, a redigir o regulamento das primárias, instrumento de selecção de candidatos que foi trazido a Seguro por Álvaro Beleza, defensor deste método desde que Jorge Sampaio era líder do PS.

António Costa tratará de que a substituição seja rápida. Afinal, Costa não é deputado. É e continuará a ser, por alguns meses, presidente da Câmara de Lisboa. Precisa de, com carácter de prioridade, ter alguém que seja a sua cara institucional no Parlamento, tanto mais que o PS terá de se confrontar com o primeiro-ministro, Passos Coelho, nos debates quinzenais.

Nova geração na AR?
Assim, paralelamente à organização do congresso e da prévia eleição directa para secretário-geral, Costa terá de encontrar um nome para a chefia da bancada. Ora esta solução não é fácil de encontrar e, ao que o PÚBLICO apurou, ainda não está escolhido o nome que irá ocupar este lugar.

Há no círculo próximo de Costa várias pessoas que defendem que este lugar não poderá ser ocupado por uma figura identificável com os governos de José Sócrates. Mas não há uma solução que seja óbvia. Por um lado, há quem sustente que deve ser um nome com currículo político e o peso de ter alguma idade, perfil raro na actual bancada e que leva quase sempre a nomes que integraram as equipas de Sócrates. Mesmo assim há quem aponte os nomes de Vieira da Silva ou de Jorge Lacão como possibilidades.

Para a maioria dos próximos de Costa ouvidos pelo PÚBLICO, a opção certa é apostar nas novas gerações, a sua ou abaixo de si. E neste domínio há quem cite o nome de deputados que podem vir a ter um peso preponderante na frente parlamentar como Pedro Nuno Santos, Ana Catarina Mendonça Mendes, Marcos Perestrello, Duarte Cordeiro e Pedro Delgado Alves. Uma certeza parece existir entre os apoiantes de Costa: o problema não é só uma questão de liderança da bancada, tem de haver uma frente parlamentar forte, activa e ideologicamente densa, com consistência político-ideológica.

Paralelamente à resolução da frente parlamentar, Costa vai ter de preparar a sua nova direcção e a sua moção ao congresso, enquanto decorrem os prazos para a realização das directas e depois do congresso que sufragará a moção e elegerá os novos órgãos directivos do partido.

O processo de convocação do congresso caberá a Maria de Belém Roseira, presidente do partido, que tem a função de gerir o partido automaticamente após a demissão do secretário-geral. Esta vai fazê-lo na Comissão Nacional, que poderá realizar-se daqui a oito ou quinze dias. Nessa reunião deverá ser marcada uma data para a eleição directa, que deverá realizar-se no prazo de cerca de 60 dias, bem como o posterior congresso, que distará das directas cerca de quinze dias, no máximo três semanas.

Colar os cacos
O congresso será um momento alto para começar a perceber o que será o novo PS. Por um lado, aí se verá a correlação de forças interna. Até ontem havia entre os apoiantes de Seguro quem defendesse que o grupo deve apresentar uma candidatura própria à liderança. O nome de João Soares foi já ventilado pelo PÚBLICO como hipótese e o objectivo é o de garantir que os seguristas conquistem uma percentagem de presenças na Comissão Nacional que lhes garanta uma quota de lugares nas listas às legislativas. Mas, ontem, João Soares disse na SIC Notícias que não estava disponível para esse papel. E face à margem de vantagem que Costa arrecadou nas urnas das primárias, a tese de que os apoiantes de Seguro devam ter uma candidatura perdeu espaço. 

Entre os apoiantes de Costa há quem admita que a presença dos seguristas na futura direcção poderá verificar-se inclusivamente nos lugares do secretariado. Isto porque uma das tarefas mais sensíveis e mais difíceis que Costa tem pela frente é a de saber unir o partido e conseguir ultrapassar o nível de ruptura que foi atingido com esta campanha. E a inclusão de apoiantes de Seguro no secretariado é apontado como o sinal final de que as relações estarão estabelecidas.

A tarefa de colar os cacos é uma das principais em que Costa terá de se envolver. E poderá em muitos casos ser desempenhada pelo próprio Costa, que deverá querer ser ele mesmo a estabelecer pontes com apoiantes de Seguro. Já do outro lado, empenhados no estabelecer de pontes internas, deverão estar Francisco Assis e Álvaro Beleza. Uma das expectativas principais neste domínio é a de perceber que lugar caberá a Seguro no futuro PS.

Mas o congresso será o momento em que Costa apresentará a sua nova direcção. A Comissão Nacional e a comissão política serão aí eleitas, assim como o presidente do PS. Ficará também a ser conhecido o novo secretariado.

Neste domínio, há nomes que surgem como possíveis apostas de Costa para a presidência do partido. Há quem admita que quem for presidente do PS possa ser também presidente da Assembleia da República no caso de os socialistas ganharem as legislativas, tal como aconteceu no passado com Almeida Santos. Entre os nomes que podem vir a ocupar um ou ambos os lugares são apontados Jaime Gama, Carlos César, Manuel Alegre e Vera Jardim.

No novo secretariado são dados como prováveis alguns nomes que poderão ser os porta-vozes por áreas. João Tiago Silveira (Justiça e Administração) ou Rocha Andrade (Finanças e Sistemas eleitorais) são dados como certos junto de Costa, assim como Porfírio Silva, responsável pela moção que Costa apresentou às primárias, Graça Fonseca, vereadora da Economia, da Educação e da Inovação em Lisboa, bem como o médico Manuel Pizarro, que foi candidato à Câmara do Porto.

O congresso será o momento simbólico do arranque da preparação do PS para a campanha das legislativas.

Arrancar para as urnas
Nesse sentido, será aprovada a moção que Costa elaborará agora e que aprofundará o documento de estratégia que apresentou para as primárias. Essa moção deverá assim lançar as bases do que venha a ser um programa eleitoral e que Costa tem apresentado sob a forma de uma Agenda para a Década. Esta moção servirá de guião temático a um conjunto de iniciativas em que, a partir de Janeiro e ao longo do primeiro semestre, o PS irá proceder à elaboração de um programa eleitoral.

Além do programa eleitoral, uma outra dimensão do futuro do país ficará por esclarecer no congresso: que tipo de alianças pós-eleitorais e de acordos parlamentares irá Costa fazer se ganhar as eleições? Todos os apoiantes próximos de Costa contactados pelo PÚBLICO são peremptórios a dizer que esse tipo de definições só poderá ficar esclarecido de forma mais precisa daqui a alguns meses.

Isto porque, por um lado, é essencial saber se o PS terá ou não maioria absoluta. Bem como perceber o que poderá acontecer ao PSD. E também o que vai acontecer à esquerda nas legislativas, já que o espectro partidário pode mudar no Parlamento, fruto do eventual aparecimento de novos partidos, como o Livre de Rui Tavares, o Partido Democrático e Republicano de Marinho e Pinto, e o Nós de Rui Rangel.

Garantido é que Costa continuará a pedir maioria absoluta e a afirmar que está disponível para acordos mesmo que o PS eleja mais de metade dos deputados do Parlamento e possa assim voltar a governar com maioria absoluta.