Cintra encena Pasolini para falar de Portugal

O Teatro Nacional de S. João estreia hoje Pílades, de Pier Paolo Pasolini, numa encenação de Luís Miguel Cintra. Pasolini recuperou Ésquilo para falar da Itália do pós-guerra. O encenador da Cornucópia recorre a Pasolini para falar do Portugal de hoje.

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A cenografia e figurinos são de Cristina Reis Adriano Miranda

Pílades, a peça em que Pier Paolo Pasolini prolonga a Oresteia de Ésquilo, adaptando-a à sua visão desencantada do boom económico da Itália do pós-guerra, sobe esta quinta-feira à noite ao palco do Teatro Nacional S. João (TNSJ) numa encenação de Luís Miguel Cintra, consciente da inquietante actualidade que este texto escrito há 50 anos adquire no Portugal de 2014, a ressacar da troika.

Co-produzida pela Cornucópia com o TNSJ e com o Teatro Nacional D. Maria II, onde se mostrará a partir de 16 de Outubro, Pílades é a primeira estreia da nova temporada do Teatro S. João. Uma aposta algo arrojada, já que se trata de uma peça que dura três horas e meia e que, fiel ao teatro da palavra que Pasolini preconizava, dispensa toda a pirotecnia cénica.

O palco da sala portuense foi transformada numa rua da cidade de Argos, com os seus muros brancos e um céu grego a servir de fundo. É aqui que se confrontam as personagens principais da peça, metáforas de diferentes visões do mundo, ou de forças contraditórias que nunca deixaram de se opor nas sociedades humanas, se não na psique individual de cada homem.

No final da trilogia de Ésquilo, um tribunal presidido pela deusa Atena julgava com complacência o matricídio de Orestes e aplacava as Erínias (as Fúrias), pondo fim a um longo e sangrento ciclo de vinganças em família, que culminara com o assassinato do rei Agamémnon, quando regressava vitorioso da guerra de Tróia, por sua mulher Clitemnestra e pelo respectivo amante, Egisto, e pela subsequente morte de ambos às mãos de Orestes.

Na peça de Pasolini, Orestes, fascinado com a democracia que vira funcionar (e de que beneficiara) em Atenas, regressa a Argos com a intenção de instaurar o mesmo sistema na sua cidade, abdicando da realeza a que tinha direito enquanto sucessor de Agamémnon. Se transportarmos o enredo para o contexto histórico em que a peça foi escrita e dermos outros nomes às personagens e lugares, a Itália do pós-guerra, saída de uma ditadura fascista, importava a democracia de uma nação mais avançada, isto é, dos Estados Unidos, e aderia à economia de mercado e ao capitalismo.

Progressista pragmático, Orestes (interpretado por Duarte Guimarães) quer limpar a cidade dos atavismos rurais e religiosos. A sua irmã Electra (Sofia Marques), que fora sua cúmplice, vai-se-lhe agora opor, recusando a rasura dos valores tradicionais, e também o seu amigo Pílades (Dinis Gomes) se afasta dele, em nome de um espécie de pureza ideológica e do seu amor pelos mais pobres e desfavorecidos, criticando a nova democracia como um modo enganoso de perpetuar o poder dos que sempre o tinham detido, Orestes incluído. E nos campos que rodeiam Argos, muitas das antigas Erínias, as Euménides que Atena (Rita Durão) aquietara, estão outra vez a transformar-se em Fúrias.

“Orestes segue um princípio de realidade, aceita que não se pode viver sem algum compromisso com as forças reaccionárias, ao passo que Pílades recusa tudo, mas fica isolado na sua solidão, uma solidão que os líderes políticos extremistas e os grandes pensadores da humanidade conhecem”, resume Luís Miguel Cintra, sublinhando que a oposição entre ambos é dialética: “Se não houvesse Pílades, não havia progresso, mas se não houvesse Orestes, também não existia nada, são duas faces da mesma coisa”.

Para o encenador, é particularmente “impressionante” que Pasolini tenha escrito esta peça no final dos anos 60 – a ideia ocorreu-lhe enquanto traduzia a Oresteia a pedido do actor e encenador Vittorio Gassman –, quando a economia italiana atravessava um período de crescimento e o futuro parecia promissor. Mas Pasolini era um crítico feroz dessa sociedade que estava a ser criada pelos governos de coligação entre socialistas e democratas-cristãos, não apenas por lhe parecer que perpetuava o poder da burguesia, agora sob a máscara da representação popular, mas pela repulsa que lhe inspirava o que via como um triunfo do materialismo, do consumismo e do conformismo.

Pílades, cuja primeira versão foi originalmente publicada na revista Nuovi Argumenti, em 1967, e depois editada em conjunto com Affabulazione uma década mais tarde, é uma peça que “tem quase o carácter de uma profecia”, diz Cintra. E que se aplica muito bem, argumenta, ao Portugal dos nossos dias: “não vivemos, como a Itália, esse boom económico dos anos 70, mas percebemos hoje que quem manda são os bancos, são os que estão por trás e nunca dão a  cara, e que os cidadãos são manipulados por um Estado que serve de intermediário”.

Mas também o atrai a dimensão religiosa do cineasta de Evangelho Segundo S. Mateus, "um filme genial" que, lembra Cintra, levou mesmo um espectador a tornar-se padre. “Na base de tudo o que Pasolini fez e disse há um grande amor pelo ser humano, pelo mistério da vida, e o cristianismo não fala de outra coisa: a encarnação de Deus em Cristo é uma grande valorização do humano”. É esta visão religiosa, diz, que leva Pasolini “a gostar dos pobres, e em particular dos pobres do campo, mais próximos de uma vida natural, que ele via como mais verdadeira”.

Nesta sua encenação de Pílades, que utiliza a tradução de Mário Feliciano e de Luiza Neto Jorge, Luís Miguel Cintra enxertou passagens de outros textos de Pasolini, como Um Peixinho (1957), onde foi buscar a personagem de um marginal (interpretado por Isac Graça), e Projecto para Um Espectáculo sobre o Espectáculo (1965). O próprio encenador interpreta um velho, uma das várias personagens do Coro. A cenografia e figurinos são de Cristina Reis.