Opinião

Não são apenas as celebridades que estão a nu na internet

Não é a primeira vez que piratas informáticos violam contas da internet de celebridades. Os casos têm-se sucedido nos últimos anos. Mas nunca como nos últimos dias o assunto foi tão discutido por causa das fotos e vídeos de celebridades americanas (entre elas as actrizes Jennifer Lawrence e Kirsten Dunst ou a cantora Rihanna) que foram parar à internet.

A Apple reconheceu que as contas foram violadas, mas nega que tenha havido falha de segurança, remetendo a responsabilidade para os utilizadores que teriam palavras-passe frágeis. Uma reacção que provoca alguns sorrisos.

Com periodicidade existem acontecimentos que colocam em causa os mecanismos de segurança da rede. Não são apenas as celebridades a serem expostas.O problema é que hoje não existe nenhuma entidade que garanta total fiabilidade na guarda dos nossos segredos. Nem a Casa Branca ficou imune como o WikiLeaks expôs. A verdade é que já não é apenas o Big Brother que nos vigia. Somos nós, essa imensidão de Little Brothers, que nos vigiamos uns aos outros.

Neste cenário, dir-se-ia que a única solução é não colocar nada na internet que seja passível de se virar contra nós. Dito assim, parece um bom princípio. E eficaz. Resta saber se não será uma ilusão, num mundo digitalizado, onde armazenamos a nossa vida em computadores. Claro que nem toda a gente anda com fotos de nudez no iPhone, mas existe alguém que não tenha coisas que não queira ver reveladas?

Por outro lado existe um problema de liberdade. No caso da presente discussão, a actriz da série Girls, Lena Dunham, veio dizer que as mulheres têm direito de expor o corpo como bem entendem, pedindo que as fotos não fossem visualizadas. A ideia é responsabilizar quem opta por clicar nas fotos. “Lembrem-se, quando estiverem a ver essas fotos, estarão a violar essas mulheres de novo”, escreveu na sua conta do Twitter.

Foi até mais longe dizendo não aceitar o argumento daqueles que proclamam que o melhor é simplesmente não tirar fotos comprometedoras porque podem ir parar a mãos erradas, expondo que esse é o equivalente para a internet dos que alegam que é aceitável molestar mulheres porque envergam mini-saia.

Na mesma linha, a actriz Emma Watson condenou não só as violações de privacidade como os comentários pouco empáticos produzidos sobre os acontecimentos, com muita gente a julgar as vítimas, em vez de as tentar compreender. Ou seja, não são apenas os aspectos de índole legal que têm sido discutidos. É também a dignidade da mulher, a coisificação, a retórica sexista, a propagação da misoginia e o tratamento mediático replicador.

É todo o sistema comunicacional que é questionado. Daí que exista cada vez mais a tentação de julgar não só quem prevaricou, mas também quem não resiste em clicar em fotos que sabe serem ilegítimas. Mas basta entrar em qualquer caixa de comentários para perceber que o assunto não é pacífico.

Ali argumenta-se que muitas vezes são as celebridades que fazem tudo para excitar a curiosidade do público, sendo estas ocorrências danos colaterais, enquanto outras observações tendem a diluir a relevância do sucedido, mostrando até uma espécie de contrariedade, como se afinal as fotos e vídeos pouco revelassem e não fossem nada de mais.

Esse efeito de banalização não é um acaso. Nos anos 1980 Madonna compreendeu que a condição de celebridade estava a mudar. A geração MTV já não queria saber de astros inatingíveis. Era preciso destapar segredos, o corpo. Mas hoje já não basta.

Os corpos desnudados também se vulgarizaram. O voyeurismo a partir da anatomia perde na relação com o contexto. Muitos dos comentários produzidos acerca das fotos falam disso: das casas, dos objectos, dos móveis, do que rodeia os corpos. É isso que excita a curiosidade, que transmite a sensação de intimidade.

Já não é o corpo. É saber onde se movimenta ou adormece. Num dos últimos filmes de Sofia Coppola, Somewhere (2010), o protagonista adormece numa sessão privada de striptease. O voyeur contemporâneo é assim: alguém que se aborrece com a simples anatomia do sexo. Deseja qualquer coisa mais cénica.

Nas próximas semanas outras fotos e vídeos tomarão conta do espaço público da internet que passou a acolher a intimidade pessoal como se fosse de todos. O sintoma não é novo. Mas a sua massificação é-o. Interessa talvez agora perceber se as leis que regulam a privacidade estão a acompanhar essas transformações.

Uma coisa é certa. Nada justifica a violação da privacidade, seja de quem for. Mas vai ser cada vez mais necessário destrinçar o que é verdadeiramente violação da privacidade, de manobras que aproveitam o voyeurismo para criarem simulacros de invasão de privacidade.

E vão existir cada vez mais tensões entre quem defende condutas de responsabilização individual perante fotos e vídeos de cariz sexual ou violento e quem ache que nenhuma forma de censura é aceitável.

Existe um ecossistema comunicacional com um impacto novo na privacidade. Vai levar algum tempo a adaptarmo-nos a ele.