Terras da Costa, terras de ninguém

Num bairro de Almada, a que chamam Terras da Costa, quase 500 pessoas vivem sem água canalizada, sem saneamento básico, sem electricidade. A Câmara prometeu instalar um ponto de água no dia 15 de Julho.

Parece que não estão ali, mas estão. Parece que têm água, mas não têm. Entre a arriba e o mar da Caparica, há um bairro. Chamam-lhe Terras da Costa. São as Terras de Lelo Martins, onde cerca de 500 pessoas vivem sem água canalizada, sem saneamento básico, sem electricidade. Mas isso pode estar prestes a mudar.

É do alto da arriba fóssil que melhor se vê o bairro que de outra forma é quase invisível. Lá ao fundo há mar e debaixo dos nossos pés telhados de chapa e cartão, bandeiras de Portugal a esvoaçar, bidões, garrafões e alguidares que juntam a água que a chuva traz. É o bairro das Terras do Lelo Martins. Um amontoado de casas que foi crescendo de forma ilegal ao mesmo ritmo que as famílias foram aumentando. Quase 500 pessoas, das quais 100 crianças, na sua maioria de origem cabo-verdiana - mas há também angolanos, guineenses, moçambicanos.

As construções estão plantadas em terrenos de reserva agrícola na zona de protecção da arriba fóssil da Costa da Caparica. Por isso vivem sem água canalizada e sem saneamento básico. Electricidade também não há. Uma “puxadinha aqui e ali”, explicam, descrevendo as puxadas ilegais de rede eléctrica que servem para alimentar frigoríficos, televisões e pouco mais.

O bairro está rodeado de campos de cultivo e de sistemas de regas automáticos, mas para terem acesso a água potável os moradores que vivem nas casas mais afastadas da estrada principal têm que percorrer um quilómetro, usando carrinhos de mãos para transportar os bidões de água. No final do ano passado, com a conclusão do projecto de arquitectura Casa do Vapor, também na Costa da Caparica, na Cova do Vapor, os envolvidos doaram parte das madeiras para o projecto que o ateliermob vinha a desenvolver com os moradores há mais de um ano tendo em vista a construção de uma cozinha comunitária nas Terras do Lelo Martins. Estudantes de arquitectura da Universidade Lusíada, através do projecto experimental Warehouse, juntaram-se ao ateliermob para pôr em marcha o projecto. Os moradores pediam uma cozinha, um local para as crianças brincarem, uma sala de reuniões para a Comissão de Moradores. Mas antes de tudo isso, água.

A cozinha comunitária passou a ser pretexto para pressionar a Câmara Municipal de Almada (CMA) a concordar instalar um ponto de água dentro do bairro. A data está já marcada, a 15 de Julho começam as obras. O apoio financeiro que entretanto chegou através programa de Desenvolvimento Humano da Fundação Gulbenkian – 30 mil euros - vai permitir ao projecto Warehouse adquirir mais madeira para concluir as construções. “Já não somos invisíveis”, diz ao PÚBLICO Durval Carvalho, membro da Comissão de Moradores. Chegou há 14 anos ao bairro. E não quer sair.