Esse espinho no Verão

1. Escrevo ao lado de uma aranha verde-lima. Está pendurada na ameixoeira à sombra da qual escrevo. Primeiro, de cabeça para cima, desceu a um palmo do meu ombro. Depois, de cabeça para baixo, desatou a subir como um micropolvo, toda cabeça e tentáculos. Eu e uma aranha alpinista nos 35 graus do quintal, nem uma aragem que agite a recta dela. Alguém em linha recta nesta casa. 

2. Voltar a casa nos 35 graus do Alentejo: passagem entre o sol e o interior de uma bilha. Está tanto calor como há seis meses no Rio de Janeiro, com a diferença de que no Rio as paredes não são passagens secretas. É uma diferença decisiva, acho que até acima dos 40 vai ser tranquilo, com excepção do quintal, no auge da maturação acelerada. Uma semana fora e já há ameixas do tamanho de ameixas, algumas já rosadas, uma tão precoce que caiu roxa no chão. Dióspiros, só perto do Outono, mas aquilo que era um botão agora é um bolbo, verde como a aranha. E o vaso da hortelã, devastado em chás diários, explodiu numa copa. 

3. Um pequeno índio, totalmente nu, nem tanga nem nada, veio pela selva em S para não pisar as couves, as alfaces, tudo aquilo que os humanos tentam comer antes dos caracóis. Era o meu vizinho Vasco, que continua com sete anos. Já não o via há uma semana, o tempo em que dormi no Porto e as ameixas incharam. Atámos juntos a rede carioca, o Vasco saltou lá para dentro e deu-me as novidades: vinha aí um porco-espinho africano. Ele tinha apresentado várias hipóteses aos pais, incluindo um lagarto espinhoso e um porco-espinho africano, e a mãe, segundo ele, escolhera o porco-espinho africano. Eu não sabia que os porcos-espinhos variavam conforme os continentes e também nunca tinha ouvido falar de um lagarto espinhoso. Parece que por baixo dos espinhos tem um sensor de água, então será possível andar pelas selvas com ele, tipo varinha de vedor, ou o Vasco já estava a falar de outro lagarto e eu confundi, mas definitivamente falou de um lagarto que encontra água. Muita sorte voltar a casa e ter um índio que multiplica a nossa cabeça, género fissão nuclear. Por baixo desse espinho no Verão haverá água, quem sabe afinal não morreremos. 

4. À noite ficou aquele luarão, terão visto, hemisfério norte, hemisfério sul. O meu quintal estava um pé cá, outro lá, a minha irmã em visita sentiu-se no jardim do Cosme Velho onde morei. Trazia-me o seu índio de dois meses, um budista que olha para o mundo com pernas em flor-de-lótus, um braço atrás da cabeça. Aos dois meses tanto faz se é dia ou noite, o tempo é um nirvana. O indiozinho budista dormia, acordou, comeu, dormiu, nu como um índio de tanga amarela. Primeira viagem, o Alentejo.

5. O que toca de sinos nesta terra. Uma amiga minhota a quem há tempos falei dos sinos estranhou, se ainda fosse no Minho. Pois o meu Alentejo é um lugar em que a CDU tem mais de metade dos votos mas as igrejas fazem campeonatos de sinos. Hoje, que é domingo, acordei às oito e meia da manhã com aquelas badaladas que não são horas, disparam num contínuo. Entraram pelo meu sonho, e acordei sem saber se era morto, se era fogo, se era o rei, porque ainda estávamos no século XIX. Essa parte do século XIX há-de ser porque adormeci em cima de Brás Cubas, o mais célebre defunto da literatura brasileira.

6.Ora enquanto eu convivia com Brás Cubas, aí pelas quatro e tal da manhã, um seu compatriota mas nosso contemporâneo, o artista brasileiro Raul Mourão, mandou um mail a perguntar por onde andava eu. Às seis e tal mandou outro mail porque acabara naquele instante de topar com um acaso: a crónica anterior a esta, chamada O Plano e o Acaso. Enviava-me em attach um vídeo seu de 2009, chamado Plano/Acaso. Não tínhamos qualquer contacto há pelo menos um ano, se não dois, e duas horas depois de me escrever aparece-lhe um texto meu com um título paralelo a uma peça sua. Li os mails depois de acordar com os sinos e vi o vídeo, de que nunca nem ouvira falar: uma câmara vai descendo de elevador num edifício-garagem do Centro do Rio de Janeiro, a luz está do lado direito, cada vez menos, até às trevas, mas antes há um momento em que vêm pássaros pousar no parapeito. Quando lerem isto, o Raul terá inaugurado uma exposição no festival Próximo Futuro, na Gulbenkian, em Lisboa, fica de convite.

7.Outras duas coisas meio conterrâneas de Brás Cubas terão acabado de passar pela Gulbenkian quando lerem isto: Carmen Miranda pelo Real Combo Lisbonense (RCL) e Angélica Freitas por Angélica Freitas. Esta Carmen/RCL vai fazer-se à estrada, até chegar mesmo a Várzea de Ovelha, lugar de onde foi levada com meses, lá nas redondezas de Marco de Canaveses, será questão de estar atento. Quanto a Angélica, que agitou um Rilke Shake na poesia brasileira, ainda estará hoje a ler em Lisboa (Guilherme Cossoul, 19h30).

8.E a Copa? Fiz Porto-Lisboa no dia da estreia. Vi o jogo num sótão com feijoada portuguesa, a melhor de que me lembro em anos recentes. A maioria dos comensais eram portugueses, mas havia torcedores de França, Peru, Guatemala, Brasil e Croácia, a brasileira a fazer caipirinhas de tangerina com gengibre, o croata a fazer mexilhões ultrapicantes, os melhores de que me lembro, ponto. Sendo que o croata era o homem da casa mais parecido com um brasileiro (ou um paquistanês, ou um turco, alguém escuro). Também havia um indiozinho igual ao principezinho e uma banda indie de raparigas no piso de baixo. A única portuguesa torcedora pela Croácia indignava-se com o aparente facto de o Brasil ter de ganhar para a revolução não estalar na rua.

9.A propósito de revolução, eu voltara do Porto com a notícia do despedimento de mais dezenas e dezenas de jornalistas, incluindo o João Paulo Baltazar. Somos da mesma turma na faculdade, exactamente da mesma geração, aquela em que o jornalismo teve mais meios do que nunca para cobrir uma guerra, e aquela que para fazer jornalismo agora tem de estar em guerra.

10. Já não sei da aranha que sobe em linha recta, nem estou já no quintal, quente demais. Hora da sesta para bichos e índios em geral. Às 17h30, os sinos dispararam outra vez, por cima de um galo perdido nas horas. Talvez sejam os bárbaros.