Professores detectaram erro nos critérios de correcção do exame de Português

Em causa estão cinco pontos em 200 ou meio valor em 20, sublinha a APP, que considera este tipo de erros "inadmissíveis". O Instituto de Avaliação Educacional reagiu limitando-se a dizer que "não confirma a existência de qualquer erro".

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Paulo Pimenta

Em declarações ao PÚBLICO, a presidente da APP disse não ter detectado o erro na quarta-feira (dia em que se realizou a prova), já que, "ao contrário do que é regra", o Instituto de Avaliação Educacional (IAVE) não mandou os critérios de correcção àquela organização, antes de os tornar públicos. Diz, no entanto, que desde a noite desta quarta-feira que "chovem" na APP alertas de professores de Português que asseguram que a resposta à questão 2.3 do grupo II não é “acto ilocutório compromissivo”, como definem os critérios de correcção, mas sim, acto ilocutório assertivo. "Não há qualquer dúvida, é um erro", insiste Edviges Ferreira.

A presidente da APP defende que o IAVE, “na pior das hipóteses, terá de considerar certas as respostas de quem acertou (escrevendo acto ilocutório assertivo) e de quem errou, mas escreveu o que é indicado nos critérios de correcção como estando certo (acto ilocutório compromissivo)”. “Está em causa o futuro dos alunos, erros deste tipo são inadmissíveis num exame nacional", disse.  

Em resposta a questões colocadas pelo PÚBLICO, a direcção do IAVE enviou uma nota em que se pode ler que aquele instituto público "não confirma a existência de qualquer erro na Prova de Português". Face um  pedido de esclarecimento, acrescentou, através do gabinete de imprensa, que também "não existe qualquer erro nos critérios de classificação".

A questão refere-se à última frase do último parágrafo do texto de Lídia Jorge sobre Eça de Queirós: “É por isso que, para além do culto que a obra de Eça legitimamente merece, por mérito próprio e grandeza genuína, se deve reconhecer, para sermos justos, que muita da admiração totalitária que Eça desencadeia nasce porventura duma espécie de preguiça e lentidão em entender, ainda nos nossos dias, a linguagem diferente daqueles que lhe sucederam. O que não parece vir a propósito, embora venha. Como um dia veremos." No exame é pedido aos alunos que classifiquem o acto ilocutório presente em “Como um dia veremos”. 

Numa nota enviada aos órgãos de comunicação social, a direcção da APP mostra a sua “apreensão relativamente ao cenário de resposta proposto” nos critérios de correcção. “De acordo com os professores que nos contactaram e com a própria APP, a frase não aponta claramente para o acto ilocutório referido nos critérios por não expressar, de modo objectivo, “intenção de se comprometer a realizar uma determinada acção no futuro”, de acordo com a definição científica associada a “acto compromissivo”, sustenta. Em declarações ao PÚBLICO Edviges Ferreira disse tratar-se de um acto ilocutório assertivo, já que "representa uma opinião convicta da autora de que o que exprimiu é verdade". 

De acordo com a nova terminologia linguística, os actos ilocutórios dizem respeito às acções que se realizam através do simples facto de se dizer algo, numa determinada situação de comunicação, sob certas condições e com determinadas intenções, explicam as gramáticas. O acto ilocutório compromissivo tem como característica o facto de fazer recair sobre o locutor uma obrigação, o cumprimento de um determinado comportamento com o qual se compromete. No acto ilocutório assertivo o locutor afirma a existência de um determinado estado de coisas comprometendo-se com o valor de verdade incluído na sua asserção.