O rendilhado do tecido empresarial, o surf e o turismo no Ano do Design Português

De Junho a Maio de 2015, as tutelas da Cultura e da Economia relançam os prémios nacionais de design e a comissária Guta Moura Guedes foge do formato das exposições para se dedicar a levantamentos e requalificação de espaço público.

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Guta Moura Guedes MIGUEL MANSO

Ligações ao rendilhado do tecido empresarial, design como valor acrescentado, parcerias, surf, prémios, turismo e vontade de “provar a importância do design pela produção de realidade”, nas palavras da comissária do Ano do Design Português, Guta Moura Guedes. Estas foram as tónicas, na manhã desta segunda-feira, da apresentação deste ano que começa em Junho e que é uma iniciativa de 200 mil euros da tutela da Cultura e do Ministério da Economia.

Na esteira do Ano da Arquitectura Portuguesa, que passou sobretudo pela associação a iniciativas no estrangeiro produzidas por outros organismos, pela integração de arquitectos em missões da AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal ou pelo apoio da Direcção-Geral das Artes a cinco projectos em Portugal e no estrangeiro, o Ano do Design Português quer ter também “projectos no âmbito nacional” e uma programação própria, disse o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier - modelo a seguir também no Ano do Cinema Português (2015/16). Contudo, a ideia é “fugir do formato das exposições e entrar no formato de produção de projecto”, precisou a comissária sobre a programação apresentada no Palácio Foz, em Lisboa. “Que não se esgote neste ano e que siga como uma linha estratégica para o país”, acrescentou, “uma intervenção no território e com uma visibilidade real, concreta, durável”.

Na presença do ministro da Economia, António Pires de Lima, foram apresentadas três áreas da programação oficial: indústria, mar e turismo, que envolvem nomes ainda por revelar do design português - mesmo a identidade gráfica do evento só será revelada (bem como a sua autoria) a 1 de Julho na apresentação do site designportugues.org, desenvolvido com a ESAD de Matosinhos e que servirá de repositório da programação mas também de inventário dos protagonistas e projectos do design made in Portugal. Esses mesmos protagonistas poderão candidatar-se aos ressuscitados prémios nacionais de design Daciano da Costa e Sebastião Rodrigues, atribuídos no passado através do Centro Português de Design, extinto em Maio de 2013. Anuais e no valor de sete mil euros cada, deverão ser entregues em Maio de 2014, quando termina este Ano do Design Português, destinando-se ao design de produto e equipamento e ao design gráfico, respectivamente.

A importância da ligação do design como elemento diferenciador e qualitativo à malha empresarial é uma das máximas mais repetidas sobre a disciplina e a indústria nos últimos anos em Portugal. Ecoou novamente esta segunda-feira, juntando o turismo à conversa e sob a forma de desafio de Pires de Lima a empresários e gestores, a quem considera caber a “responsabilidade” de ter “visão arrojada” para “ganhar o desafio da produtividade” através do design como factor “para criar valor” e “riqueza”, mais do que “pôr as pessoas, nomeadamente no sector privado, a trabalhar mais horas do que já trabalham”.

Sobre estes universos, Guta Moura Guedes explicou que o Ano do Design Português vai desenvolver um projecto de fundo sobre design de equipamento e mobiliário, “focada nas PME [pequenas e médias empresas]" e nos “clusters absolutamente extraordinários” que existem no país, dando o exemplo da autarquia de Paredes, para se criar um case study dos elos entre indústria e design. Espera “até ao final do ano ter esse projecto bem estruturado, para estar a partir de Janeiro no terreno”. A ligação à economia do mar foca-se, por seu turno, noutra autarquia, a de Mafra graças à Reserva Mundial de Surf da Ericeira e ao plano de requalificação do espaço público da vila por designers de comunicação e de urbanismo. “É obrigação desta geração reabilitar a relação com o mar”, disse a comissária, que espera que o projecto seja depois “replicado pela costa nacional”.

Quanto ao turismo, vai produzir-se um livro, ainda sem data de publicação, que espelhará um “levantamento ao longo da geografia do país” com propostas de design urbano, de comunicação, interiores ou produto – “um outro olhar sobre o país dando relevo a um património importante que é o desenvolvido pelos designers”, resumiu Moura Guedes.

Esta é a linha de programação oficial, sendo que a comissária frisa que a programação paralela está aberta a “todos os que se queiram propor” para engrossar as fileiras deste ano, para o qual há um orçamento de 200 mil euros a meias entre a tutela da Economia e da Cultura - e que Barreto Xavier, abrindo portas a novos parceiros, descreveu como “um investimento que vamos construindo”. O orçamento é “uma verba suficiente” para este “princípio de um programa”, mas “não foi fácil fazer um esboço de um programa num contexto complicado como é o português e o europeu”, disse Guta Moura Guedes. A iniciativa irá também articular-se com as autarquias supracitadas e com o Instituto Camões, AICEP, o Turismo de Portugal e Direcção-Geral das Artes.